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Berlim tem 3 mil bombas da 2ª Guerra; saiba como elas são desativadas

22 set 2012
13h47
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Clarissa Neher
Direto de Berlim

A Segunda Guerra Mundial acabou em 1945, há 67 anos, porém, até hoje é bastante comum que bombas e munições da época sejam encontradas na Alemanha. Muitas destas bombas são um perigo constante e com o passar dos anos aumenta os riscos de explosão. Somente em Berlim, calcula-se que ainda estejam enterradas 3 mil bombas.

Imagem mostra loja destruída após explosão controlada em Viersen, na Alemanha, no dia 18 de setembro
Imagem mostra loja destruída após explosão controlada em Viersen, na Alemanha, no dia 18 de setembro
Foto: Reuters

"Desde o final da guerra já foram encontradas e desativadas 11 mil toneladas de artefatos militares na cidade. Destes, 7,3 mil eram bombas com mais de 50 kg", contou com exclusividade ao Terra a porta-voz da Secretaria para Desenvolvimento da Cidade e Meio Ambiente, Petra Rohland.

A região que abrange Berlim e Brandemburgo, Estado vizinho da capital, foi uma das mais atingidas por ataques aéreos durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo dados do Serviço de Remoção de Artefatos Militares do Estado de Brandemburgo (KMBD), em cerca de 360 mil hectares do Estado ainda há artefatos militares remanescentes da Segunda Guerra Mundial no subsolo.

Dentro deste Estado, a cidade mais atingida pelos bombardeios dos Aliados foi Oranienburg. "Ela fica ao norte de Berlim e era o centro da indústria militar durante a Segunda Guerra. Somente no dia 15 de março de 1945, a cidade foi atacada com mais de 600 aviões e foram lançadas 700 bombas incendiárias e outras 5 mil bombas, sendo que 4 mil delas possuíam um mecanismo de detonação químico de longo prazo", contou ao Terra Horst Reinhardt, chefe técnico do KMBD.

Detonação química
Reinhardt é um dos técnicos em explosivos mais experientes do país. Há 40 anos na profissão, ele trabalhou na remoção de mais de 150 bombas. Segundo o especialista, as bombas mais perigosas são as que possuem detonadores químicos, pois elas podem explodir a qualquer momento sem a interferência de fatores externos. Ele explica o funcionamento do mecanismo:

"Dentro destas bombas há um vidro com acetona. Com o impacto da queda esse vidro deveria se partir. Esse líquido corrói a placa de celulóide utilizada para travar o pino detonador. Sem placa o pino é solto e a explosão acionada", explicou Reinhardt. Segundo ele, esse processo durava de duas a 24 horas, fazendo com que essas bombas viessem a explodir bem depois do bombardeio. "Essas bombas eram usadas pelos Aliados para causar pânico e medo nos moradores das cidades atacadas. Devido a uma falha de construção, muitas delas não explodiram", completou o especialista.

No final guerra, muitos artefatos militares foram desativados. Entretanto, como explicou Petra Rohland, a quantidade de bombas utilizadas em ataques aéreos foi enorme. "Na época, as técnicas necessárias para localizar, remover e desativar estas bombas com segurança não haviam sido desenvolvidas", acrescentou Rohland. Reinhardt ressaltou a falta de recursos para a realização deste tipo de trabalho no pós-guerra. "Nesse período a reestruturação econômica e reconstrução de casas foi muito mais importante".

Documentos dos aliados
Segundo Rohland, na década de 1980 o governo de Berlim comprou documentos dos arquivos dos Aliados para utilizá-los na procura por artefatos militares. "Os pilotos britânicos costumavam fotografar as regiões que eles bombardeavam. Compramos essas fotos e fizemos um mapa dos bombardeios em Berlim e hoje sabemos os locais onde estas bombas podem estar enterradas", explicou Rohland.

O Estado de Brandemburgo também comprou antigos documentos dos Aliados. "Essas fotos são muito valiosas para a procura de bombas, pois a partir delas podemos identificar quais bombas explodiram, ver os buracos onde elas entraram e assim localizar onde elas ficaram enterradas. Além disso, foram compradas as ordens de ataque. Através delas descobrimos quantos aviões participaram dos ataques e também a quantidade de munições que cada um carregava", contou Reinhardt.

Informação para construtoras
A grande maioria destas bombas é encontrada por acaso em canteiros de obras. Os trabalhadores da construção civil costumam receber um treinamento especializado para esse tipo de situação. Em Berlim, a Secretaria para Desenvolvimento da Cidade e Meio Ambiente disponibiliza de um serviço de informação sobre a existência de indícios de bombas para quem deseja construir na cidade.

"Recebemos cerca de 1,4 mil pedidos ao ano e em mais ou menos 100 dos casos é preciso fazer uma investigação mais rigorosa", relatou Rohland. Além disso, com base nos documentos dos Aliados é feita uma procura sistemática em locais suspeitos. Com uma sonda especial é possível localizar os artefatos militares que estão no enterrados há vários metros de profundidade. Se a sonda indicar algum artefato, começam os trabalhos de escavação.

"Após a localização da bomba, o técnico em explosão decide qual é o procedimento adequado para desativá-la", explicou Reinhardt. Quando a remoção e o transporte não são mais possíveis devido aos riscos de explosão, a detonação precisa ser realizada no local onde a bomba foi encontrada. "Para detonar com segurança precisamos evacuar esta área e com frequência milhares de pessoas devem deixar as suas casas", acrescentou o especialista.

A grande maioria destes procedimentos ocorre sem problemas. Entretanto, a explosão controlada de uma bomba de 250 kg em Munique no final de agosto causou vários transtornos para os moradores da região. Vários prédios pegaram fogo, dois correm o risco de desabar. No total, 17 prédios sofreram estragos devido ao impacto da explosão.

Em Brandemburgo foram retiradas até hoje mais de 12 mil toneladas de munições: 48 mil minas, 2 milhões de granadas, 73 mil bombas incendiárias, 15 mil bombas com mais de 5 kg e 67 mil mísseis. Desde 1991 o governo estadual gastou mais de 315 milhões de euros na procura e remoção de artefatos militares. Só nesse ano já foram investidos 5,8 milhões de euros nestes procedimentos.

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Fonte: Especial para Terra
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