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Morte de governador de Punjab abala classe liberal paquistanesa

5 jan 2011 12h40
| atualizado às 14h06
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O Paquistão, imerso em um debate sobre a ascensão da ideologia islâmica, enterrou nesta quarta-feira o governador da província oriental de Punjab, Salman Taseer, assassinado por sua oposição ao fanatismo religioso, o que abalou a classe liberal paquistanesa.

Policiais paquistaneses cercam o local do atentado em que um segurança matou Salman Taseer, governador da província paquistanesa de Punjab
Policiais paquistaneses cercam o local do atentado em que um segurança matou Salman Taseer, governador da província paquistanesa de Punjab
Foto: AP

Taseer foi enterrado em um cemitério de Lahore, a capital de Punjab, onde nesta quarta-feira as medidas de segurança foram reforçadas, enquanto o funeral foi retransmitido ao vivo pelas cadeias de televisão.

Uma multidão com bandeiras da legenda de Taseer, o Partido Popular do Paquistão (PPP), se amontoou nos arredores de sua residência para se despedir do político.

O primeiro-ministro, Yousuf Raza Gilani, o chefe da diplomacia, Shah Mehmood Qureshi, e o ministro do Interior, Rehman Malik, todos eles do PPP, se juntaram à multidão à espera da chegada do corpo em um helicóptero.

No cemitério, ao qual só puderam ter acesso os mais próximos e a cúpula do partido, o corpo foi enterrado entre as lágrimas de seus familiares.

Durante o funeral, as medidas de segurança foram reforçadas em Lahore, onde muitos mercados fecharam suas portas, informou à Agência Efe uma fonte policial.

O assassinato cometido na terça-feira em uma área comercial de Islamabad foi motivado pela oposição do governador às leis contra a blasfêmia do Paquistão e seu apoio à cristã condenada à morte, Asia Bibi, segundo o Ministério do Interior.

O suposto assassino, identificado como Malik Mumtaz Hussain Qadri e membro das forças de elite da região, se entregou à Polícia após disparar à queima-roupa contra Taseer.

Nenhuma das fontes policiais de várias cidades do Paquistão consultadas pela EFE informou sobre distúrbios um dia depois do assassinato, o primeiro de uma figura política de destaque desde o da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto em dezembro de 2007.

Uma fonte da Polícia da cidade de Gujranwala afirmou à Efe que na terça-feira houve manifestações do PPP pela a morte de Taseer, sem incidentes violentos.

"Hoje a situação é pacífica e tudo está sob controle", acrescentou.

Apesar do duro golpe para o PPP, a morte de Taseer não deixa um vazio de poder nas instituições, já que seu cargo era de caráter cerimonial (o poder executivo recai sobre o chefe do governo provincial), mas a encurralada classe liberal recebeu a notícia com tristeza.

"Os fanáticos devem ser investigados e castigados de acordo com a lei. Ninguém tem o direito de emitir decretos para matar", disse à Efe por telefone o ministro de Minorias, Shahbaz Bhatti (PPP), quem censurou as tentativas de "aterrorizar" o povo.

Tasser e Bhatti foram os mais ativos no caso de Asia Bibi: o primeiro intercedeu para conseguir um indulto presidencial que não chegou e o segundo continua empenhado em emendar o código penal para que penas capitais não sejam aplicadas em casos de blasfêmia.

A emenda dos artigos 259 B e C do código penal (introduzidos nos anos 80 durante o regime militar do ditador Zia-ul-Haq) ainda não chegou ao Parlamento e alguns partidos já demonstraram oposição ou dúvidas em relação à iniciativa.

Há uma semana, o vice-ministro de Informação Samsam Bokhari inclusive negou que a emenda esteja na agenda do Governo.

"A política de condescendência com a intolerância religiosa levou ao assassinato de um governador", advertiu nesta quarta-feira em comunicado a Comissão de Direitos Humanos da Ásia.

Próximo ao presidente, Asif Alí Zardari, e à família Bhutto, Taseer foi duro em suas críticas às classes mais religiosas, em um país onde inclusive os líderes do secular PPP são cautelosos com o clero islâmico.

"Amanhã os mulás se manifestam contra mim" depois da oração de sexta-feira. "Milhares de pessoas pedindo minha cabeça. Que grande sensação", escreveu em certa ocasião Taseer em sua conta do Twitter.

No Paquistão são comuns os protestos convocadas por grupos religiosos, que costumam ter ampla cobertura da imprensa.

Também são frequentes as "fatwas" ou éditos religiosos contra qualquer líder político ou personalidade que se desvie de uma interpretação rigorosa do Islã.

"A lei contra a blasfêmia deve ser emendada. Sei que posso ser assassinado se continuar pressionando, mas não tenho medo", afirmou à EFE o ministro de Minorias.

EFE   
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