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'Inimigos do Povo', a confissão filmada do nº 2 do Khmer Vermelho

27 jun 2011
06h02
atualizado às 06h16
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A confissão do número dois do Khmer Vermelho, Nuon Chea, no documentário Inimigos do Povo será fundamental em seu julgamento por genocídio, se os juízes do tribunal internacional do Camboja incluírem como prova esse testemunho gravado. Nesta segunda-feira começa a audiência inicial contra Nuon Chea e outros três dirigentes do regime do Khmer Vermelho (1975-1979) acusados de genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade.

No documentário dirigido pelo cambojano Thet Sambath e o britânico Rob Lemkin, Nuon Chea reconhece pela primeira vez que dirigiu com Pol Pot, o irmão número 1, os expurgos políticos contra os "traidores" do partido. "Estas pessoas eram consideradas criminosas e eram executadas. Se as tivéssemos deixado vivas, teriam destroçado a linha do partido (...) Eram inimigas do povo", afirma em uma sequência do filme o considerado ideólogo do Khmer Vermelho.

O tribunal internacional solicitou a Sambath e Lemkin uma cópia do filme e todo o material que haviam obtido durante a rodagem, mas eles se negaram. "Eu rodei o documentário para a história, não como jornalista nem para o julgamento, mas os juízes são livres para pegar as imagens da televisão ou do cinema", explicou à agência EFE Sambath, quem acrescentou que os khmeres vermelhos falaram convencidos de que o filme não seria utilizado contra eles.

Inimigos do povo aborda os massacres do Khmer Vermelho através de entrevistas com Nuon Chea e outros oficiais de categoria média e baixa, e a reconstrução dos crimes nos campos de extermínio, onde morreram milhares de pessoas acusadas de traição. "Alguns dizem que não é bom falar com os assassinos e remover o horror do passado, mas eu acho que eles sacrificaram muito para contar a verdade", manifestou Sambath, jornalista do jornal cambojano Phnom Penh Post .

Na sua opinião, Nuon Chea e os demais khmeres vermelhos "fizeram uma confissão arriscada; talvez o único bem que restava. Eles e todos os assassinos devem fazer parte do processo de reconciliação para que meu país avance". O Khmer Vermelho assassinou o pai e o irmão de Sambath. Sua mãe morreu ao dar à luz ao filho de um membro do partido com o qual foi obrigada a casar-se, mas isso ele não contou a Nuon Chea até o final, pouco antes de o tribunal internacional o prender em 2007.

Durante dez anos, Sambath chegou a ter amizade com o octogenário genocida, quem após a queda do Khmer Vermelho vivia com a família em uma humilde casa na província de Pailín, perto da fronteira tailandesa. Nuon Chea defende no documentário que lutaram para melhorar o Camboja, mas tropeçaram com a traição interna e de nações inimigas como os Estados Unidos e o Vietnã. Em uma das cenas, um khmer vermelho de baixa categoria detalha como executavam os condenados nos campos de extermínio e conta que uma mulher prometeu viver com ele se sua vida fosse poupada.

"Pega-se o pescoço da vítima assim, para que não possa gritar. Às vezes, tinha que sujeitar a faca de outra forma porque após degolar tantas gargantas a minha mão doia, e então cravava no pescoço", relata Soun. "Fiquei mal ao voltar ao local onde matei tantas pessoas. É terrível, minha cabeça da voltas e vem todo o mal que eu fiz de novo", admite Soun.

No ano passado, o documentário "Inimigos do povo" conquistou os prêmios do júri nos festivais de Sundance e Full Frame, ambos nos Estados Unidos, assim como o Néstor Almendros de Human Rights Watch, e foi apresentado em inúmeros países, mas no Camboja foi exibido de forma limitada. "O governo não tenta esconder os assassinatos, mas também não fomenta as análises e a investigação das causas dos massacres", ressaltou Sambath, quem opinou que a juventude cambojana começa agora a conhecer uma história da qual poucos se atrevem a falar em público.

Sambath e Lemkin preparam um segundo documentário, Mentes Suspeitas ( Suspicious Minds ), que esperam poder apresentar no próximo ano e que aprofundará na rede que levou o Khmer Vermelho a cometer um dos maiores genocídios do século XX.

A organização liderada por Pol Pot tentou tornar realidade a utopia de uma sociedade agrária socialista no Camboja, mas no caminho morreram 1,7 milhão de pessoas de fome, doenças, deportações em condições subumanas e nos campos de extermínio, onde ainda existem as valas comuns com os corpos dos "inimigos do povo".

EFE   

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