atualizado às 15h10

Dissidente cego deixa embaixada dos EUA e volta à China

De cadeira de rodas, Chen Guangcheng chega a hospital acompanhado do embaixador americano, Gary Locke (dir. Foto: AP
De cadeira de rodas, Chen Guangcheng chega a hospital acompanhado do embaixador americano, Gary Locke (dir.
Foto: AP
 

O dissidente cego chinês Chen Guangcheng deixou nesta quarta-feira a embaixada dos Estados Unidos em Pequim após receber concessões de autoridades do regime comunista, o que o manterá como uma figura central nas relações China-EUA. Chen se tornou um símbolo da luta dos dissidentes chineses ao fugir da prisão domiciliar numa aldeia do sudeste do país e se refugiar na embaixada dos EUA. A chancelaria chinesa criticou a interferência norte-americana no caso, e disse que Chen deixou a embaixada por vontade própria.

Os Estados Unidos disseram que vão observar atentamente o tratamento dado ao dissidente depois do acordo que permitiu sua permanência na China, e qualquer esforço do governo chinês para tolher suas atividades poderá causar novos atritos bilaterais. O ativista chegou à embaixada norte-americana em 21 de abril, mas não solicitou asilo ou salvo-conduto para ir aos EUA, segundo uma autoridade dos EUA.

"Estou satisfeita por termos sido capazes de facilitar a permanência de Chen Guangcheng e sua saída da embaixada dos EUA, numa maneira que refletiu as escolhas dele e os nossos valores", disse a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que desembarcou horas antes em Pequim. Ela disse que "Chen tem vários entendimentos com o governo chinês a respeito do seu futuro, incluindo uma oportunidade de buscar uma formação superior em um ambiente seguro. Transformar esses compromissos em realidade é a próxima tarefa crucial. O governo dos Estados Unidos e o povo norte-americano estão comprometidos em continuarem engajados com o sr. Chen e com sua família nos próximos dias, semanas e anos."

Chen saiu da embaixada rumo a um hospital de Pequim na companhia do embaixador dos EUA, Gary Locke. O caso dele ameaça ofuscar as reuniões bilaterais de alto escalão desta semana, e os dois governos estão cientes do impacto do caso sobre sua política externa.

Para o presidente Barack Obama, candidato à reeleição neste ano nos EUA, é importante não dar munição à oposição republicana, que o acusa de ser brando demais com a China. O regime chinês também terá um processo sucessório neste ano. Essa transição, geralmente bem coreografada, já foi manchada por denúncias envolvendo o dirigente regional Bo Xilai, que era cotado para assumir cargos mais graduados, até ser envolvido em acusações de homicídio - num escândalo que surgiu depois que um ex-assessor dele se refugiou num consulado americano.

Obama também deve apoiar publicamente o acordo acertado com Pequim, afirmou à AFP uma fonte envolvida nas negociações americano envolvido nas negociações. "Pusemos como condição que o próprio presidente mostre seu interesse e expresse o apoio americano ao acordo e estou certo de que Obama, durante a campanha, logo terá a oportunidade de estabelecer esta posição", afirmou o especialista americano em temas da China, Jerome Cohen, aos jornalistas. "Chen decidiu deixar a embaixada depois de inteirar-se que sua família estava a salvo", assegurou, por sua parte, Kurt Campbell, secretário de Estado adjunto americano para o leste asiático e o Pacífico, que viajou a Pequim antes do previsto, para ocupar-se do caso Chen.

A primeira reação da chancelaria chinesa ao caso de Chen foi de indignação. "O método dos EUA foi a interferência em assuntos domésticos chineses, e isso é totalmente inaceitável na China. A China exige que os Estados Unidos se desculpem por isso, investiguem minuciosamente esse incidente, punam os responsáveis, e deem garantias de que tais incidentes não vão se repetir", disse o porta-voz Liu Weimin em nota.

O advogado Teng Biao, que atua em questões de direitos humanos, disse ter conversado rapidamente com a mulher de Chen, Yuan Weijing, e relatou que o casal e seus dois filhos estão atualmente em Pequim. Ele disse não ter detalhes sobre como eles foram tratados desde a fuga de Chen.

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