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Desprezo de Obama a Putin anuncia fim de aproximação entre EUA e Rússia

7 ago 2013
17h40
atualizado às 17h58

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de cancelar uma reunião bilateral com seu colega russo, Vladimir Putin, é um sinal de desaprovação das ações do Kremlin no caso Edward Snowden, mas, sobretudo, uma demonstração de que Washington perdeu a vontade de melhorar as relações cada vez mais distantes com Moscou.

Segundo especialistas e analistas, era previsível que Obama respondesse à concessão de asilo temporário a Snowden, o ex-técnico da NSA que é requerido pela justiça americana, por parte da Rússia com o cancelamento da reunião bilateral com Putin prevista para depois da cúpula do G20 em São Petersburgo em setembro.

Mas, além de ser uma mera represália pelo caso específico de Snowden, a medida "marca o fim formal da política de recomeço ('reset') impulsionada pelo presidente Obama" para a Rússia, nas palavras do diretor do Centro Carnegie Moscou, Dmitri Trenin.

"O caso de Edward Snowden não é a razão pela qual a cúpula foi cancelada. É, no máximo, um pretexto", escreveu hoje Trenin no site do centro.

"O fracasso na hora de se conseguir qualquer progresso relacionado com a situação na Síria é um sintoma muito mais sério de que as relações entre EUA e Rússia não funcionam. Mas a verdadeira razão é a política interna americana", acrescentou Trenin.

Quando Obama chegou ao poder em 2009, se propôs a apertar o botão de "reinício" em uma relação com a Rússia que tinha chegado ao fundo do poço, e encontrou no ex-presidente Dmitri Medvedev um aliado para essa tarefa, em um período que teve seus frutos, como a assinatura do novo tratado de desarmamento nuclear, o "New START".

No entanto, o retorno de Putin à Presidência em 2012 dificultou a relação, particularmente devido às pressões nos Estados Unidos para que Obama se posicionasse em relação às ações repressivas do governo russo com a oposição e aos ativistas de direitos humanos.

"Ao adotar medidas repressivas em seu país, Putin foi perdendo seus atrativos como aliado internacional. Relacionar-se com ele é um empecilho político nos Estados Unidos", disse Steven Pifer, especialista em Rússia e EUA, no site do centro de estudos Brookings.

Essa menor afinidade coincide com o fato que, faltando pouco mais de três anos para deixar o poder, Obama "necessita muito menos de Moscou do que há quatro anos", segundo Pifer.

O líder americano gostaria de reduzir em um terço o limite de ogivas nucleares permitidas pelo novo tratado START, mas Putin parece disposto a "vetar qualquer progresso em matéria de controle de armas", afirmou o especialista.

Também parece não haver avanços em relação à Síria, após vários meses de esforços frustrados de EUA e Rússia para convocar uma conferência em Genebra que abra o caminho para uma transição no país, e diante da recusa de Moscou de deixar de proporcionar ajuda militar ao regime de Bashar al Assad.

"Se Obama não vê perspectivas de avanço nas relações com a Rússia em nenhum destes assuntos, a utilidade de uma cúpula bilateral em São Petersburgo fica em xeque", concluiu Pifer.

Nessa decisão, a pressão constante do Congresso sobre Obama por sua suposta "suavidade" em relação à Rússia teve um papel crucial, segundo Trenin, que incluiu pedidos de boicote aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 em Sochi.

"Parece que Obama e seus assessores decidiram que cancelar a cúpula era um mal menor em sua tentativa de evitar novos inimigos" que colocam em risco suas prioridades em nível nacional, apontou.

Segundo Trenin, a decisão "deixará uma marca nas relações bilaterais", já que "a atmosfera se torna mais pesada e a cooperação ainda mais difícil".

"O Kremlin interpretará provavelmente a medida como um sinal de vulnerabilidade política de Obama e concluirá que não pode fazer mais com a atual administração. Não haverá uma crise iminente, mas a relação não será produtiva durante um bom tempo", previu.

A primeira amostra do efeito da decisão poderá ocorrer nesta sexta-feira durante o diálogo de alto nível em Washington entre os ministros das Relações Exteriores e Defesa dos EUA, John Kerry e Chuck Hagel, e seus colegas russos, Sergei Lavrov e Serguei Shoigu.

Em todo caso, o clima político nos EUA parece ter se voltado contra Putin, a quem o próprio Obama culpou em entrevista na terça-feira de mostrar uma mentalidade "própria da Guerra Fria".

Um editorial publicado hoje no jornal "The New York Times" foi além, ao considerar que a cúpula deveria ser cancelada porque só teria contribuído para "reforçar o capital político doméstico de Putin e a sua já considerável auto-estima".

Segundo Pifer, o cancelamento da cúpula coloca, acima de tudo, uma "interessante" pergunta: "Como será afetada a imagem de Putin como líder de uma superpotência que o presidente dos EUA começa a ver como irrelevante?".

EFE   
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