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Assistência a vítimas de terremoto indonésio demora a chegar

2 out 2009
18h28
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O homem já estava no volante há 12 horas, para chegar à sua cidade de origem, no distrito de Padang Pariaman, no centro da ilha de Sumatra - a área mais próxima do poderoso terremoto que varreu a costa leste da Indonésia na quarta-feira. Ele havia sido informado de que sua aldeia estava completamente destruída.

"Algumas pessoas disseram que toda a região de Padang Pariaman havia sido destruída", disse o vendedor Sutan Maskuri, 55 anos, na tarde de sexta-feira, enquanto oito moradores da aldeia erguiam uma padiola improvisada para transportar a irmã ferida de Maskuri, contornando a porção da estrada local tornada intransitável por um deslizamento de terra.

Maskuri terminou por descobrir que cinco de seus irmãos haviam sido mortos por um deslizamento de terra causado pelo terremoto. Ele mandou uma irmã sobrevivente ao hospital regional em seu carro, porque, como disse, não se pode confiar no governo. "Ninguém veio ajudar - nem o exército, nem a polícia".

O distrito de Padang Pariaman tem cerca de 375 mil habitantes e parece ter sobrevivido ao terremoto, ainda que a maioria das casas tenham sofrido alguns danos. No entanto, como indicação das dificuldades que as autoridades enfrentam para chegar às áreas rurais afetadas, nenhuma equipe de resgate visitou a aldeia de Maskuri, localizada em um subdistrito conhecido como Koto Timur, nas 44 horas posteriores ao terremoto.

Padang, com uma população de 900 mil habitantes, era a grande cidade mais próxima do epicentro do abalo, que atingiu magnitude de 7,6 pontos. As equipes de resgate que trabalham lá estavam revirando destroços sob um sol escaldante, na sexta-feira, mas admitiram não estar encontrando muitos sobreviventes.

De acordo com algumas estimativas, mais de metade das edificações da cidade ruíram durante o abalo, e o Ministério da Saúde indonésio anunciou que pode haver até três mil pessoas presas por sob os escombros. Muitos moradores deixaram a cidade. Outros formaram estoques de emergência de alimentos e combustível, e estão convencidos de que um novo terremoto, ainda mais forte, é iminente. A eletricidade estava começando a ser restaurada na área.

Na manhã de quinta-feira, cerca de 16 horas depois do primeiro abalo, houve um segundo tremor, cerca de 220 quilômetros a sudeste de Padang, com, magnitude 6,6. O novo tremor parece ter causado poucas baixas e danos.

Mas na sexta-feira, as autoridades pouco sabiam sobre a situação de centenas de aldeias espalhadas por Padang Pariaman, a região mais atingida da ilha de Sumatra. Esse é um dos motivos para que os funcionários do governo previssem que as estimativas quanto a vítimas fatais - no momento, 715 - devam subir consideravelmente.

Diversos países já prometeram ajuda financeira ¿a embaixada dos Estados Unidos em Jacarta já ofereceu US$ 300 mil em assistência imediata, e tem mais US$ 3 milhões em fundos de emergência disponíveis. No entanto, muitos grupos assistenciais estão enfrentando demoras para chegar à zona do desastre porque os voos para os aeroportos da região estão lotados. A linha aérea nacional Garuda Indonesia anunciou que planeja elevar seu número de voos a fim de transportar o pessoal de emergência ao local com mais rapidez.

Na estrada que conduz de Padang, cerca de 80 quilômetros ao sul, a esta área rural, não havia veículos militares ou de emergência em trânsito, na sexta-feira. As longas filas nos postos locais de gasolina causavam imensos congestionamentos de tráfego, e havia surgido um mercado negro de gasolina vendida com sobrepreço da ordem de 400%, por especuladores que estavam tentando explorar o desastre.

Na cidade de Padang Pariaman, que serve como centro administrativo local, o líder distrital Muslim Kasim informou que cerca de 80% das edificações na área rural haviam sofrido danos. Os funcionários do governo já computaram danos em 13.750 residências, 30 edifícios de escritórios, 69 escolas e 128 mesquitas, ele disse, e confirmaram 207 mortes. Ele informou que as autoridades acreditavam que existam pelo menos outras 282 pessoas soterradas sob escombros.

"É a pior situação pela qual já passamos", disse Kasim sobre o mais recente abalo em uma região propensa a terremotos.

Herry Ardyanto, o chefe da polícia local, disse que a dificuldade de obter informação sobre áreas remotas era agravada pela relutância dos moradores em deixar suas aldeias "mesmo que não haja eletricidade ou água corrente".

Uma estrada estreita parte do centro da cidade de Padang Pariaman e sobe até Koto Timur, atravessando diversos outros subdistritos nos quais a maioria das casas foram destruídas ou sofreram danos. Em Koto Timur, a estrada foi bloqueada no exato local em que ficava a casa de Aguslier, destruída por um deslizamento de terra.

Quando o terremoto começou, a mulher e quatro filhos de Aguslier correram para fora, e a casa desabou assim que eles cruzaram a porta. Na sexta-feira, as crianças da família estavam apanhando utensílios de cozinha em meio às ruínas de uma casa vizinha.

"Estou recolhendo madeira para construir um abrigo temporário", disse Aguslier, que como muitos indonésio é conhecido apenas pelo prenome. Os aldeões todos estão tendo de se virar sem ajuda. Syafrie, 40, cuja mãe e irmã mais nova morreram no terremoto, estava caminhando pela região do deslizamento de terra, carregando nas mãos uma caixa de macarrão instantâneo.

"Nossos familiares que vivem fora da região nos trouxeram água e macarrão", disse Syafrie. "Ainda não apareceu um trabalhador de assistência sequer".

Enquanto ele caminhava na direção de sua casa, os oito homens que transportavam Rosmanidar, 57 anos, a irmã de Maskuri, vinham carregando a padiola no sentido oposto. Eles galgaram um monte de lama deixado pelo deslizamento e cortaram por uma plantação de arroz, para escapar de um segundo bloqueio. Por fim, depositaram a padiola diante da loja de alimentos da aldeia, onde havia uma multidão reunida.

Minutos mais tarde, a ferida foi colocada na minivan de Maskuri; o motorista manobrou o carro e transportou Rosmanidar para o hospital, enquanto o irmão retornava à casa de sua infância, nas ruínas das quais ainda havia dois de seus outros irmãos soterrados.

Como se por obra de um roteiro, foi nesse momento que apareceram os primeiros veículos policiais. Um helicóptero pequeno e branco com o distintivo da polícia sobrevoou o local, por sobre as palmeiras, e quase pousou por duas vezes em campos locais.

Os aldeões acenavam e gritavam. Mas o helicóptero se foi. Um policial explicou que os tripulantes estavam fazendo uma inspeção apenas. Ekle explicou que a assistência viria o mais tardar no dia seguinte.

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times

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