O barulho dos tiros arrancou Jan Agha da cama, na sua vila na província de Kandahar, no Afeganistão. O seu pai vigiava nervoso a rua pela janela. De repente, mais tiros. O pai, atingido na garganta e na face, morreu ali mesmo. Autoridades afegãs dizem que a força militar ocidental matou 16 civis, incluindo nove crianças, neste domingo, no sul de Kandahar, num ataque que, segundo testemunhas, foi feito por soldados norte-americanos que riam e estavam aparentemente bêbados.
Somente um soldado dos Estados Unidos estaria envolvido no ataque, segundo uma autoridade do país em Washington, mas isso não é o que relatam as testemunhas. Agha, 20 anos, afirmou que os soldados que abriram fogo no início da manhã entraram na casa da família e esperaram em silêncio por um tempo que pareceu a eternidade. Ele se deitou no chão e se fingiu de morto.
"Os americanos ficaram na nossa casa por um tempo. Eu fiquei com muito medo", disse à Reuters o rapaz. "Minha mãe recebeu um tiro no olho e outro na face. Ela ficou irreconhecível. Acertaram o meu irmão na cabeça e no peito, e a minha irmã foi morta também". A história de Agha de que vários soldados atiraram nos moradores não pôde ser imediatamente verificada.
A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) declarou ter preso um dos seus soldados e que investiga o ocorrido. Disse que parecia que o soldado havia ido a mais de uma vila perto da base militar. O gabinete do presidente afegão, Hamid Karzai, no entanto, afirmou num comunicado que fez contato com um garoto ferido no ataque, e ele descreveu como soldados americanos entraram na sua casa e atiraram contra a sua família.
Descrito pelo Ministério da Defesa afegão como um ato "desumano", o ataque foi um dos piores incidentes do tipo desde a invasão norte-americana ao país em 2001. Não ficou claro em que missão esse soldado ou esses soldados norte-americanos estariam envolvidos. Imagens de TV da Reuters depois do ataque mostraram a segurança da vila reforçada. A morte de civis é uma das principais causas de tensão entre Washington e Cabul.
- Enquanto van com corpo de afegão morto por soldado americano aguarda (esquerda), caminhão da Isaf passa ao fundo Foto: AP
- Homem aponta para manchas de sangue no chão, no local onde testemunhas afirmam que viram os afegãos serem assassinados pelo soldado americano Foto: AP
- Sentada ao lado do corpo de uma criança assassinada pelo soldado americano, mulher dá entrevista a repórter de TV Foto: AP
- Homem acompanha corpos de vítimas de soldado americano, em Kandahar, ao sul de Kabul Foto: AP
- Corpos de afegãos, entre eles mulheres e crianças, são removidos em Kandahar, no sul do país Foto: AFP
