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Anne Frank, 70 anos depois: a manutenção da memória

Casa Anne Frank, na capital da holandesa, possui farto material para relembrar a saga da menina judia que se escondeu dos nazistas no "anexo secreto", inclusive o original levaria a publicação do Diário de Anne Frank. Peça de teatro também mantém viva sua memória

12 mar 2015
08h10
atualizado em 21/6/2018 às 18h17
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Depois de enfrentar uma fila que já virou tradição, o visitante pode conhecer o esconderijo onde Anne Frank buscou com a família refúgio da perseguição nazista em Amsterdã e escreveu seu famoso diário. Trata-se de um espaço diminuto com cinco peças – cozinha, dois quartos apertados, banheiro e uma passagem que funcionava como quarto para o jovem Peter van Pels, filho do sócio de Otto Frank que também se escondeu no local.

Atriz interpreta a peça baseada no Diário de Anne Frank, 70 anos após a sua morte
Atriz interpreta a peça baseada no Diário de Anne Frank, 70 anos após a sua morte
Foto: Kurt van der Elst / Divulgação

 

A Casa de Anne Frank (www.annefrank.org, ingressos online a 9,50 euros – R$ 32 dão acesso direto sem necessidade de fila) de Amsterdã é provavelmente o carro-chefe das dezenas de locais que homenageiam a menina judia morta pela perseguição nazista espalhados pelo mundo todo. Quando retornou do campo de concentração de Auschwitz, o pai dela – único sobrevivente do holocausto entre as oito pessoas que se esconderam no local - encontrou o espaço vazio. Decidiu mantê-lo assim. Ë um vazio que surpreende e clama por reflexão.

“É um vazio que reflete o fato que Otto perdeu todos os seus entes queridos. Um vazio que reflete a voz de uma cidade onde 60 mil judeus foram deportados e mortos. É um vazio cheio de significado”, afirma o historiador Ronald Leopold, diretor executivo da Casa de Anne Frank. “Acho que Otto também se deu conta que seria impossível reconstruir a situação da guerra. Colocar réplicas de móveis seria transformar a casa num set de Hollywood. Se isso é feito, há uma mudança incrível de atmosfera da casa, que não é por definição positiva.”

Além do específico espaço do esconderijo (há maquetes mostrando como o lugar era mobiliado), há todo um museu organizado para lembrar a história da vida e obra de Anne Frank num contexto muito específico da Segunda Guerra Mundial e da perseguição nazista aos judeus. A ideia, no entanto, passa longe de mostrar imagens chocantes já amplamente divulgadas sobre o Holocausto, mas sim tratar o tema do ponto de vista do grupo a que a menina pertencia na sociedade de Amsterdã e, finalmente, dentro do claustrofóbico esconderijo.

“Todas as instituições que representam a História são diferentes. Você não vai achar aqui a mesma coisa que em Bergen-Dalsen ou Auschwitz (campos de concentração para onde os Frank foram levados). Nós todos temos nosso específico espaço para lembrar do Holocausto. É assim que deve ser, senão bastaria conhecer apenas um desses lugares”, explica Leopold.

Fila para visita ao local onde viveu (e se escondeu) Anne Frank
Fila para visita ao local onde viveu (e se escondeu) Anne Frank
Foto: Giuliander Carpes / Colaboração para o Terra

 

O foco diverso no esconderijo, no diário, na perseguição sofrida pelos judeus e até na própria personalidade de Anne fazem da casa um lugar destinado a questionar a humanidade. “São questões bastante desconfortáveis. Ao mesmo tempo essa história é sobre a perseguição aos judeus na Holanda, mas sem nos limitarmos apenas a isso.”

Superprodução teatral
Depois de se deparar com o vazio da Casa de Anne Frank, o próximo passo para um visitante disposto a reconstruir as pegadas da jovem escritora judia em Amsterdã é ir à peça Anne, no novíssimo Teatro Amsterdam.

O local luxuoso foi construído ano passado pela Fundação Anne Frank numa área portuária que vem sendo renovada há apenas 15 minutos da Estação Central. A peça é a primeira e única a ocupar o palco desde maio com pelo menos cinco apresentações semanais – já foram mais de 250 desde que entrou em cartaz, em maio - sempre com ótimos públicos.

Trata-se de uma superprodução, com um cenário giratório que mostra com riqueza de detalhes o prédio que funcionou como esconderijo para os Frank em tamanho real. Projeções visuais maiores que telas de cinema ajudam o espectador a “localizar” as cenas no marcante contexto histórico da dominação nazista da Holanda.

“São sets sobre rodas, há um sistema hidráulico que os move muito rapidamente e pode fazer mudanças rápidas também. Isso é o que deixa o visual desta peça espetacular”, afirma o ator Rob Das, que interpreta Jan Gies, um dos “protetores” das pessoas escondidas, ou o dentista Fritz Pfeffer, que dividia quarto com Anne.  “Quando nós, atores, vimos pela primeira vez o cenário ficamos em choque. É um espetáculo muito grandioso, nunca havia visto nada parecido na Holanda nem fora daqui. Ficamos impressionados.”

O caráter de superprodução ajuda o espectador a manter a atenção mesmo num espetáculo que tem três horas de duração. A ideia é contar como Anne e a família tiveram que se esconder e as angústias que dividir um pequeno espaço com outras quatro pessoas causavam a todos. A peça consegue mesclar comédia e drama e conjugar grandiosidade com um lirismo encantador – a cena final da despedida de Anne é de uma beleza e sentido impressionantes e leva a maior parte do público às lágrimas. 

Foi a oportunidade de participar de um espetáculo único que fez Das aceitar o papel que ele já havia interpretado na premiada mini-série de TV Anne Frank: A História Real (2001), com Ben Kingsley e Hannah Taylor-Gordon.

“Foi interessante porque, quando estava me preparando, tive a oportunidade de conversar com a mulher de Jan, Miep, que teve um papel central na proteção dos Frank e é responsável direta pela preservação do diário (foi ela que guardou os manuscritos do livro na expectativa da volta de Anne para Amsterdã)”, lembra Das, que é casado com uma brasileira há 15 anos e visita o país com frequência. “Ela não queria mais dar entrevistas e falar do assunto, mas como era sobre o seu marido, aceitou. E tivemos uma longa e excelente conversa.” Miep morreu em 2010.

A peça já foi elogiada por diversos meios de comunicação internacionais, inclusive New York Times e CNN. Os ingressos custam a partir de 20 euros (R$ 68) e podem ser comprados diretamente no site do teatro (www.theateramsterdam.nl). É possível conjugá-los com um jantar no sofisticado restaurante do teatro e até com transporte de barco para o local. A peça é em holandês, mas há tradução de áudio feita pelos próprios atores para inglês e alemão e legendas em diversas línguas, inclusive português.     

O relato exclusivo da melhor amiga da Anne Frank

 

Fonte: Terra

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