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Yoani: Fidel gostava da repressão como show; Raúl não deixa rastro

Em evento realizado em SP, a blogueira voltou a criticar o embargo, elogiou o bolsa-família e pediu uma postura mais enérgica do Brasil em relação à Cuba

21 fev 2013
10h30
atualizado às 14h28
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No governo de Fidel, a repressão era como um show. No de Raúl, a repressão é velada. Esta é a diferença das ditaduras dos irmãos Castro, segundo Yoani Sanchéz. Em evento realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo nesta quinta-feira, a blogueira dissidente cubana chamou a ilha de "reino", voltou a criticar o embargo econômico e defendeu uma postura mais enérgica do Brasil em relação à Cuba - principalmente em relação aos direitos humanos.

<p>Yoani participou de uma palestra e concedeu entrevista coletiva nesta quinta-feira, em São Paulo</p>
Yoani participou de uma palestra e concedeu entrevista coletiva nesta quinta-feira, em São Paulo
Foto: Fernando Borges / Terra
"Não sou cubana de Fidel, nem de Miami", diz blogueira

"Recomendaria um posicionamento mais enérgico", disse ela, afirmando que, muitas vezes, questões ligadas a direitos humanos são ofuscadas pelos debates sobre o embargo. Por outro lado, elogiou o programa bolsa-família, dizendo que algo semelhante poderia ser aplicado em Cuba após a "reforma". Disse também que se tivesse a chance de escolher outro lugar para nascer, escolheria o México, mas que também seria feliz no Brasil. 

Sobre a repercussão de sua viagem, ela foi enfática: "É o preço da opinião, o preço do silêncio é que eu não gosto. Precisamos aprender a discutir sem odiarmos, a democracia é aprender a reconhecer opiniões diferentes". Desde que chegou ao Brasil, Yoni já enfrentou protestos no Recife, Salvador, Feira de Santana e Brasília. Entre as muitas palavras de ordem, os manifestantes a acusam de ser uma agente da CIA paga pelo governo dos Estados Unidos.

Em São Paulo, a recepção foi mais tranquila e silenciosa. Yoani chegou às 9h40 ao prédio do Estadão para participar de uma palestra e conceder entrevista coletiva. No início da conversa, ela afirmou que o regime político de Cuba não é socialista. “Não creio que Cuba viva um socialismo, Cuba vive um capitalismo de Estado, em que o patrão não é o rico ou o burguês, mas o governo”, disse ela.

De acordo com a blogueira, o governo de Raúl tem o pecado original: não ter sido eleito e ter recebido o poder por laços sanguíneos. "Meu país é como um reino. No século XXI, me aparece algo surpreendentemente absurdo", disse. Ela reconheceu que Raúl está promovendo reformas, mas disse que elas não são suficientes. Yoani também disse acreditar que as reformas jamais teriam acontecido durante o regime de Fidel. "Ele gostava de controlar cada passo do nosso país".

A blogueira comparou as diferenças entre os governos de Fidel Castro e o atual, de seu irmão Raúl.  "Fidel gostava da repressão como show midiático", disse Yoani, acrescentando que o antigo líder gostava que os dissidentes fossem julgados e condenados publicamente. Por sua vez, o regime de Raúl Castro trataria de realizar atos repressivos "sem deixar rastro", segundo ela. 

Embargo econômico
Yoani voltou a afirmar a posição, que já tinha expressado em entrevistas anteriores, de que é contra o embargo econômico estipulado pelo governo dos Estados Unidos a Cuba. "Em primeiro lugar, porque é ineficaz", disse a blogueira, acrescentando que o governo cubano acabou por adotar a prática de culpar o embargo para justificar eventuais problemas do país. "Se não há tomate, é por culpa do império". 

Yoani recebe um abraço de Suplicy
Yoani recebe um abraço de Suplicy
Foto: Fernando Borges / Terra
Transição cubana e EUA
Se fosse para escolher a política modelo de um país para ser implantada em Cuba, Yoani disse que ficaria com a “nova Cuba”. Embora tenha citado o bolsa-família, ressaltou a importância de Cuba se regenerar com um novo regime próprio. “A Cuba futura precisa se focar nos serviços, investir no turismo, mas com cuidado porque a indústria do turismo também pode trazer muitos males”.

Perguntada sobre a política de relações exteriores dos EUA, Yoani disse “não ser especialista no assunto” e evitou comentar sobre as possíveis consequências de estreitamento de laços entre o país norte-americano e Cuba. Ela, porém, defendeu a aproximação com os EUA como fundamental para a transição de Cuba, assim como com outros países da região. “Melhorar as relações com a América Latina pela proximidade geográfica e necessidade deste vínculo”, disse.

Tolerância do governo
Yoani se tornou uma personalidade internacional devido ao seu blog Generácion Y, que lhe rendeu diversos prêmios internacionais e recebe milhões de visitantes todos os meses. Crítica ao governo, ela recebe acusações de ser financiada por organizações internacionais e de ter certos privilégios que não são possíveis a outros cubanos.

Yoani afirmou que não é a única blogueira do país e que não é "tolerada" pelo governo. Ela disse que há um movimento crescente de pessoas conectadas na ilha, especialmente ao Twitter, que não têm sido atingidos pela censura. "Talvez tenham pensado (o governo) que era uma bobagem a mais", disse Yoani. "Quando se deram conta, era tarde demais".

Yoani Sánchez fala das diferenças entre Fidel e Raúl Castro
Yoani pelo Brasil
A cubana desembarcou no aeroporto do Recife na segunda-feira, onde foi recebida com protestos e acusações de que seria uma espiã dos Estados Unidos. Mas as críticas e até o puxão no cabelo que levou provocaram comentários positivos em seu blog: “gostei muito, confesso, porque me permitiu dizer que eu sonhava que algum dia em meu país as pessoas pudessem se expressar publicamente assim contra algo, sem represálias”.

No mesmo dia, Yoani seguiu para Feira de Santana, no interior da Bahia, onde assistiria o documentário Conexão Cuba-Honduras, mas a exibição foi cancelada após manifestantes a favor do regime cubano cercarem a sala. O ocorrido motivou um post de críticas em seu blog, em que Yoani se mostra inconformada com a atitude dos manifestantes baianos. Ela reprovou as críticas pessoais e a falta de argumentação sobre a situação de Cuba.

“Ao final da noite, me sentia como depois de uma batalha conta os demônios do mesmo extremismo que atiçou os atos de repúdio daquele ano de 80 em Cuba. A diferença é que esta vez eu conhecia o mecanismo que fomenta estas atitudes, e podia ver o longo braço que os move desde a Praça da Revolução em Havana”, escreveu.

Após a confusão, o deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ) convidou a dissidente a assistir ao documentário em Brasília. A recepção à Yoani na Câmara dos Deputados na quarta-feira não foi diferente das anteriores e, mais uma vez, ela ouviu vaias de líderes de esquerda e movimentos sociais. No entanto, conseguiu assistir ao filme.

Fonte: Terra
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