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"Vivos podem comemorar estar vivos", diz analista sobre o Haiti

12 jan 2011
08h46
atualizado às 09h04
Felipe Franke

Ricardo Seitenfus, ex-representante da Organização dos Estados Americanos (OEA) no Haiti, esteve no país mais pobre das Américas pela primeira vez em 1993, e voltou de lá pela última vez em dezembro 2010. Ao comparar a primeira e a última impressão que teve ao pisar no país, ele sintetiza, paradoxal: "A grande diferença desse período é a caminhada em direção a algo que deveria ser um Estado democrático de Direito. Isso não foi construído".

Sobrevivência é a única comemoração possível no aniversário de um ano do tragédia, segundo Seitenfus
Sobrevivência é a única comemoração possível no aniversário de um ano do tragédia, segundo Seitenfus
Foto: AFP

A recordação de seus quase 20 anos de presença junto ao país se aproxima do balanço do 2010 haitiano, durante o qual o país assistiu a uma enxurrada de promessas de apoios e pouco, muito pouco foi feito. Haiti: um país "extraordinário", com "vontade de viver" e com "uma história extremamente ricas", mas vivendo "uma miséria abjeta e inaceitável (demais) para que concordemos".

Em dezembro, Seitenfus, que também é doutor em Relações Internacionais, teve seu mandato de representante especial da OEA encurtado após criticar o papel da comunidade internacional em um entrevista publicada num jornal suíço. E hoje, dia do aniversário do que chama de "a maior catástrofe natural de memória da humanidade", ele insiste na necessidade de mudanças no modelo de ajuda humanitária.

Em entrevista concedida ao Terra, ele defende ser "necessário fazer esse balanço, e colocar os haitianos à frente de seu próprio país". E embora haja ainda "20 milhões de metros cúbicos" de escombros a serem retirados das ruas do Haiti, pelo menos uma coisa pode ser celebrada: "Os vivos podem comemorar estar vivos".

Hoje completa-se um ano do terremoto. O que os haitianos podem comemorar?
Os vivos podem comemorar estar vivos. Foi a maior catástrofe natural de memória da humanidade, concentrada num raio de 100km, com uma densidade demográfica das mais elevadas das Américas, e onde jamais se preocupou (em termos de engenharia, arquitetura) a fazer frente a um terremoto de 7,3 graus na Escala Richter, que causou danos perdas humanas e estragos materiais extraordinários.

Como você vê o trabalho realizado ao longo de 2010?
Nas primeiras semanas houve uma grande mobilização - mesmo que a ajuda internacional, nos sete ou oito primeiros dias, tenha se concentrado quase exlusivamente com relação aos estrangeiros que estavam soterrados. Os haitianos, nos primeiros dias, tiveram que tentar com seus próprios recursos - ou seja, nenhum - recuperar os feridos que estavam embaixo dos escombros. No entanto, o desafio subsequente, que seria a limpeza da cidade e recomeçar a reconstrução não foi feito, ou foi feito de forma infinitamente insuficiente, na medida em que foram retirados não mais que 5% dos escombros.

E os recursos prometidos para o Haiti?
As estatísticas que temos é que não mais que 27% dos recursos prometidos foram destinados e aplicados, na sua grande parte, para fins administrativos. Basicamente não se veem mudanças estruturais com relação a essa ajuda. Lembro que nos dia 31 de março de 2010, em uma conferência em Nova York, se prometeram US$ 11 bilhões - mas não chegou quase nada, chegaram US$ 250 milhões, e muito desses recursos foi usado para apoio orçamentário e para projetos bilaterais que já haviam sido aprovados anteriormente. Ou seja: a verdadeira reconstrução do país não foi feita.

O que podemos esperar para 2011, sobretudo do governo haitiano?
Em primeiro lugar, precisamos saber se vai haver governo, e que governo será. Estamos em plena crise eleitoral. O país já estava paralizado nesses últimos meses, em razão da campanha eleitoral, e está agora totalmente parado, esperando o que vai acontecer: se vão anular as eleições de 28 de novembro, se vai haver um segundo turno e quem irá (disputá-lo), quando serão proclamados os resultados finais. A ideia que se tinha de o presidente da república terminar seu mandato no dia 7 de fevereiro não será mais possível, na medida em que não se terá o segundo turno na data prevista, que seria 16 de janeiro. Então há a necessidade de o presidente ficar até 14 de maio.

Como você enxerga a política haitiana?
As crises políticas no Haiti condicionam a vida do país e condicionam inclusive a atitude da comunidade internacional. A comunidade internacional foi ao Haiti, ao longo desses últimos anos, oito vezes, e sempre por razões políticas. A questão política é central e é o que eu chamaria de monopólio do destino do futuro do Haiti pela "classe" política. De certa forma, o povo haitiano e nós da comunidade internacional somos reféns dessa "classe" política que pratica o que eu chamaria de canibalismo político, no qual o adversário concorrente é o considerado o inimigo. E é muito comum no Haiti - diria que é até uma tradição - os presidentes saírem do palácio e irem direto para o exílio. Esse é o grande desafio: como estabilizar o país dando a palavra à maioria do seu povo através de princípios democráticos. (É um) nascimento, um parto doloroso, que estamos acompanhando e, de certa forma, participando desde 1986.

Nesse sentido, qual é a ação possível da comunidade internacional?
Acho que, antes de mais nada, não podemos ter atitudes de dar lições. O Haiti pertence aos haitianos. Ser solidário é apoiar alguém, acompanhar alguém, mas não se substituir a alguém. Em segundo lugar, nós tivemos que voltar sete vezes ao Haiti ao longo de uma geração. Isso quer dizer que o Haiti tem problemas, mas que nós também temos problemas com o modelo de estar no Haiti. Voltar significa que nossa ida anterior não foi suficiente. Nós não podemos imaginar que o Haiti representa uma ameaça ou aos haitianos ou à segurança regional. Temos que ter a abertura de espírito para convidar um apoio à reconstrução do tecido institucional do Estado e não imaginar que simplesmente o fato de colocarmos soldados armados no Haiti e, paralelamente, substituir o Estado haitiano por ações das Nações Unidas vá responder às necessidades do país.

Você apontou para a necessidade da mudança do modo de ajuda ao Haiti. Você acredita que o novo governo brasileiro, liderado pela presidente Dilma Rousseff, pode significar uma mudança na postura do nosso país frente ao Haiti?
Eu espero que sim. De certa forma, eu, com minhas escassas condições, tento dizer à opinião pública e ao governo brasileiro que está na hora de fazermos um balanço de o que foi feito e o que se pode fazer no Haiti. E nada melhor que um governo novo no Haiti e um governo novo no Brasil (para isso). O Brasil jamais se engajou no Haiti como está se engajando hoje, não somente do ponto de vista da sua credibilidade internacional, mas também através de recursos humanos e financeiros, de modo que diria que o governo brasileiro tem a obrigação moral de refletir sobre isso.

Fonte: Redação Terra

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