0

Vitória de Bachelet e de ultraconservador polariza eleição no Chile

1 jul 2013
18h34
atualizado às 18h48

A corrida para as eleições de novembro no Chile se polarizou depois da esmagadora vitória nas primárias de domingo da ex-presidente socialista Michelle Bachelet e do êxito do ultraconservador Pablo Longueira, afirmam analistas consultados pela AFP.

Bachelet ganhou a indicação presidencial da oposição com 73,05% dos votos, enquanto Longueira, um partidário declarado da ditadura de Augusto Pinochet, conseguiu se impor por uma estreita margem de 51%, em inéditas eleições primárias que contaram com o comparecimento do triplo de eleitores esperados.

Os candidatos mais moderados nos dois blocos políticos foram os grandes perdedores neste momento de extrema polarização da sociedade chilena entre as posturas de esquerda e de ultradireita.

Os resultados "mostram um esvaziamento do voto de centro, o que nos faz esperar que a eleição de novembro seja realizada em uma conjuntura bem mais polarizada do que as que temos visto desde de 1990 (após o fim da ditadura de Augusto Pinochet)", disse à AFP o cientista político Marcelo Mella, da Universidade de Santiago.

Primeira mulher a chegar à Presidência no Chile, em 2006, Bachelet retornou para o Chile em março, propondo mudanças radicais para enfrentar a crescente insatisfação popular, expressa nas grandes manifestações estudantis.

Embora ainda não tenha revelado seu programa de governo, Michelle Bachelet promete educação universal gratuita no nível universitário em seis anos, em resposta à principal demanda dos estudantes. Promete também uma profunda reforma tributária e uma mudança na Constituição para acabar com a que foi imposta por Pinochet.

Suas propostas lhe valeram o apoio do Partido Comunista, amplamente marginalizado da política chilena. Especula-se que poderá integrar um eventual segundo governo de Bachelet, na tentativa pragmática de realizar as transformações que estão sendo propostas.

No outro extremo do espectro político, está Longueira, um líder histórico da ultraconservadora União Democrata Independente (UDI), que teve uma apertada vitória sobre o moderado Andrés Allamand. Longueira conseguiu angariar apoio dos setores mais acomodados, que buscam manter o modelo atual.

"Longueira é o melhor representante do 'status quo' para a direita e que garantirá que seja erguida uma barreira contra as reformas que a sociedade está pedindo, o que pode ser um fator de maior polarização diante das próximas eleições", acrescentou Mella.

Católico fervoroso, pai de sete filhos e ex-colaborador de Pinochet, é conhecido como o "afilhado político" do assassinado senador da UDI, Jaime Guzmán, considerado o ideólogo político da ditadura.

A menos que algo inesperado aconteça, porém, é difícil que Longueira consiga compensar o amplo apoio a Bachelet, dona de um carisma pouco comum na política chilena. Pesquisas mostram que ela pode até mesmo vencer no primeiro turno.

"Bachelet é mais do que os partidos, mais do que qualquer partido no Chile, de esquerda ou direita. Ficou com o triplo da votação de Longueira. No Chile, nós não estamos acostumados a essas lideranças tão fortes", disse à AFP o cientista político Bernardo Navarrete.

"A quantidade de votos que ela conseguiu a coloca na posição de 'quem vai tomar a decisão sou eu', em termos programáticos", acrescentou.

Separada, agnóstica e mãe solteira de três filhos, Bachelet se viu arrastada para uma candidatura tanto agora, quanto na disputa anterior, às quais se recusou inicialmente a competir.

Depois de deixar o poder em 2010 com aprovação de quase 70% e estar impedida por lei de aspirar à reeleição consecutiva, seu nome surgiu de imediato como a próxima candidata presidencial da oposição.

Embora tenha permanecido fora do Chile por quase três anos - em Nova York, encarregada do escritório ONU-Mulher -, sua figura nunca esteve ausente da política nacional.

Esse "excesso de popularidade" não garante, contudo, que ela vá conseguir levar suas reformas adiante. Para isso, precisa de um Parlamento aliado e com alta maioria, o que no Chile é especialmente complicado. No país, o sistema eleitoral tende à sobre-representação da direita no Legislativo.

Um desafio imediato para Bachelet será convocar o centro moderado e os que não foram às urnas no domingo para que o façam em novembro.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
publicidade