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Sem seu centro, Mercosul aprova Venezuela e alcança o norte

30 jun 2012
07h32
atualizado em 2/7/2012 às 12h03
Felipe Schroeder Franke
Direto de Mendoza

No mesmo dia em que o Paraguai, o país do centro do continente, permaneceu suspenso do Mercosul, a organização aprovou a entrada da Venezuela, nação do norte, ao grupo do sul. No mesmo dia em que a organização esticou seus braços do extremo frio da Patagônia às águas quentes do Mar do Caribe, a governo do centro permaneceu sem direito a voto.

A presidente argentina Cristina Kirchner entrega quadro retratando Hugo Chávez ao ministro venezuelano Nicolas Maduro no dia em que o país foi aceito no Mercosul
A presidente argentina Cristina Kirchner entrega quadro retratando Hugo Chávez ao ministro venezuelano Nicolas Maduro no dia em que o país foi aceito no Mercosul
Foto: Reuters

A expansão ao norte já era planejada desde 2006. Nessa sexta-feira, em Mendoza, foi obtida graças à ausência da representação paraguaia, suspensa pelo polêmico processo-relâmpago que destituiu Fernando Lugo. A adesão do novo membro foi saudada pela presidente argentina (que entregou a presidência temporária do Mercosul ao Brasil no mesmo dia), Cristina Kirchner, como uma medida de integração para combater o impacto da crise "produzida nos países ricos". A presidente brasileira, Dilma Rousseff, saudou a medida e convocou as nações da região a se somarem ao bloco.

Trata-se da busca pela união, tentada na América Latina após um pós-guerra marcado por ditaduras. O Mercosul batalha para superar diferenças e superar barreiras de comércio. A Organização dos Estados Americanos e a União das Nações Sul-americanas caminham rumo à integração regional baseada no respeito dos princípios da sociedade democrática.

Este plano da integração foi desafiado no último dia 22, quando, em pouco mais de 24 horas, o Congresso paraguaio abriu e aprovou o processo de impeachment de Fernando Lugo. O acusado não foi ao Senado defender-se, enviando uma equipe de advogados e, poucas horas depois, discursar emotivamente aceitando o julgamento dos senadores. A Unasul prontamente foi a Assunção avaliar a crise e, no dia 24, suspendeu o país - até ontem, último dia da reunião da Cúpula dos chefes de Estado do Mercosul.

O Mercosul é um organismo predominantemente econômico, e a crise paraguaia assaltou-o, tornando a política seu tema central. No sábado, os chanceleres reunidos em Mendoza debateram e acenaram que a suspensão do Paraguai seria mantida e qualquer punição econômica, descartada. Era uma medida de integração não do governo, que seguia suspenso, mas do povo paraguaio, que inevitavelmente sofreria os impactos de cortes nas relações econômicas.

Então, confirmando as expectativas, a suspensão foi anunciada na sexta-feira pelo chanceler argentino, Héctor Timerman. Ele repetiu os argumentos expostos e considerados ao longo da última semana, segundo os quais o ocorrido em Assunção corrompia a cláusula democrática do Ushuaia e, portanto, prejudicava a integração regional. Era a decisão política.

A palavra passou então de Timerman a Kirchner, que surpreendeu Mendoza ao anunciar a aceitação da Venezuela como membro-pleno do organismo. No dia anterior, o chanceler dissera que "a situação da Venezuela nada tem a ver com a situação do Paraguai", mas o fato é que foi justamente na ausência do voto contrário dos paraguaios que veio a sonhada entrada dos venezuelanos. Timerman, em coletiva após a reunião da Unasul, desfiou esta coincidência histórica, dizendo que haviam feito todo o possível para que o Paraguai estivesse presente à reunião.

Todos estes são, no entanto, movimentos políticos que, até o momento, não produziram a integração tão desejada. O Paraguai já se manifestou sobre as decisões da cúpula, que considerou ilegais. Por outro lado, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, comemorou a decisão como uma vitória sobre o "imperialismo". Até o dia 31 de julho, quando a Venezuela se tornará oficialmente membro pleno no Rio de Janeiro, as consequências desta conjuntura de novos atores e renovados desentendimentos começarão a aparecer.

Fonte: Terra

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