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Paraguai: presidenciável da esquerda acusa opositores por 'golpe' contra Lugo

Terceiro colocado nas pesquisas, Mario Ferreiro dividiu a Frente Guasú, grupo político do ex-presidente Fernando Lugo, para lançar candidatura 'independente' à presidência do Paraguai

20 abr 2013
14h24
atualizado às 15h00
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Conhecido apresentador de rádio e televisão no Paraguai, o jornalista Mario Ferreiro é o candidato de esquerda melhor posicionado nas pesquisas para as eleições presidenciais deste domingo. No entanto, ele ainda está bem atrás dos opositores dos dois partidos mais tradicionais do país – Horacio Cartes, do Partido Colorado, e Efrain Alegre, do Partido Liberal – com menos de 10% das intenções de voto. Fã de Beatles, o candidato usa as redes sociais para interagir com seus eleitores. “As redes sociais permitem um contato direto sem passar pela imprensa formal. São ferramentas que gosto muito de usar. Eu já usava como comunicador e continuarei usando como político”, diz.

<p>Ferreiro é o candidato de esquerda melhor posicionado nas pesquisas para as eleições presidenciais deste domingo</p>
Ferreiro é o candidato de esquerda melhor posicionado nas pesquisas para as eleições presidenciais deste domingo
Foto: Aliança País / Divulgação

Em conversa exclusiva com o Terra por telefone, desde Assunção, Ferreiro defendeu uma reforma constitucional no país para evitar um novo “golpe parlamentar” como o que derrubou o presidente Fernando Lugo em junho do ano passado. Presidenciável da Aliança País, o grupo político formado pelos dissidentes da Frente Guasú, de Lugo, ele afirma que tem apoio dos “partidos de esquerda, mas também dos setores descontentes dos partidos tradicionais”. Ferreiro criticou a destituição de Lugo no ano passado, ato que chamou de “golpe parlamentar pactuado entre o Partido Colorado, o Partido Liberal, o Unace e o Pátria Querida”, seus opositores nas eleições deste domingo.

<p>Mario Ferreiro dividiu a Frente Guasú, grupo político do ex-presidente Fernando Lugo</p>
Mario Ferreiro dividiu a Frente Guasú, grupo político do ex-presidente Fernando Lugo
Foto: Aliança País / Divulgação
Terra – Por que o senhor decidiu abandonar a carreira no rádio e na televisão para entrar na política?
Mario Ferreiro – Considerei que poderia continuar o processo iniciado por Lugo em 2008. Sou um candidato independente, não tenho partido politico, venho de fora da politica tradicional e acredito que posso ser um continuador daquele processo que Lugo iniciou: renovar a politica com gente de fora da politica e com uma ideologia muito parecida com a que tem o presidente Lugo, que é progressista, democrática e igualitária.

Terra – Como o senhor responde às críticas de que não tem a experiência administrativa e política necessária para ser presidente?
Mario Ferreiro – No Paraguai há uma grande desconfiança sobre os políticos profissionais. Eu mesmo, como jornalista, disse - e acredito - que a política precisa renovar seus quadros e apresentar aos cidadão novas opções. Mas isso não está acontecendo no Paraguai. Os partidos tradicionais estão muito desgastados, há pouca confiança dos cidadãos nos parlamentares e temos um problema de reeleição permanente dos parlamentares, até o ponto que 70% dos candidatos estão buscando repetir outro período no parlamento. A falta de experiência se supre com bom trabalho de equipe, com capacidade de liderança que é possível demonstrar em outros âmbitos (como tendo experiência nos meios de comunicação). 

Terra – Que diferenças há entre o senhor e o candidato da Frente Guasú, Aníbal Carrillo?
Mario Ferreiro – As ideias gerais são muito parecidas. Temos a mesma visão da necessidade de reformar o Estado paraguaio, de fazê-lo mais solidário, junto e equitativo. Também coincidimos na necessidade de se fazer as reformas agrária e tributária. Viemos da mesma raiz ideológica – que vai desde comunistas até democratas-cristãos. Quando ocorreu a divisão, metade da Frente Guasú ficou comigo, com o nome de Avança País, e a outra metade ficou com Aníbal Carrillo. Acredito que a diferença está mais na prática política: os que ficaram com o candidato Carrillo propõem uma revisão histórica de todo o processo da esquerda paraguaia e focam seu projeto em décadas e não em uma eleição imediata. Nós, no entanto, acreditamos que precisamos ganhar essa eleição de 21 de abril porque há um grande descontentamento de pelo menos metade da população com a destituição de Fernando Lugo. 

<p>Fã de Beatles, o candidato usa as redes sociais para interagir com seus eleitores</p>
Fã de Beatles, o candidato usa as redes sociais para interagir com seus eleitores
Foto: Twitter / Reprodução
Terra – Se o senhor for eleito, pediria o apoio dos quadros da Frente Guasú?
Mario Ferreiro – Absolutamente. Nós continuamos falando com a Frente Guasú, não oficialmente, mas com emissários. Inclusive, eu tentei um acordo político antes das eleições. 

Terra – Sobre o processo que terminou com a destituição do então presidente Lugo, como o senhor viu tudo o que aconteceu com o Paraguai desde então?
Mario Ferreiro – Não deixaram o presidente Lugo governar com a autonomia e capacidade de decisão que um presidente precisa. Houve 23 tentativas de juízo político antes da destituição. Ocorreram fatos muito graves, como o massacre de Curuguaty, que até agora tem uma investigação muito deficiente. Não se vê vontade de saber a verdade por parte do Estado paraguaio. Isso é bastante grave, já que isso foi usado como desculpa principal para tirar Lugo do poder. Nós, do Aliança País, acreditamos que foi um golpe parlamentar. A forma como foi feito, a violação dos períodos processuais, a ausência do direito de defesa, a apresentação de argumentos com recortes de jornais... Foi um golpe parlamentar pactuado entre o Partido Colorado, o Partido Liberal, o Unace e o Pátria Querida. O Paraguai é um país muito conservador, com uma presença muito forte de um pequeno setor que concentra toda a riqueza do país e nunca viu com bons olhos a alternância de poder político, a presença de um presidente com ideias progressistas. Com isso, nos levaram a uma situação internacional que o Paraguai não conhecia nem na época da ditadura: um isolamento brutal na região, com a ausência permanente de todos os fóruns importantes no mundo, não somente na América Latina. O Paraguai nunca esteve tão isolado no contexto internacional. 

<p>Ferreiro defende uma reforma constitucional no país para evitar um novo 'golpe parlamentar' como o que derrubou o presidente Fernando Lugo</p>
Ferreiro defende uma reforma constitucional no país para evitar um novo 'golpe parlamentar' como o que derrubou o presidente Fernando Lugo
Foto: Aliança País / Divulgação
Terra – E o que o senhor pretende fazer para que isso não volte a acontecer?
Mario Ferreiro – Depois das eleições, teremos que negociar uma reforma constitucional. Nossa Constituição tem problemas muito graves, sobretudo no que diz respeito ao controle de quem é eleito: no dia seguinte, não tem quase nenhuma maneira de controlá-lo, acaba a participação popular, e a pessoa eleita faz o que quer, principalmente no parlamento. 

Terra – O governo atual diz que o Paraguai precisa de mais energia elétrica para seu consumo interno e isso implicaria a renegociação dos tratados das duas usinas binacionais com Brasil e Argentina. O senhor concorda com essa ação?
Mario Ferreiro – Os governos anteriores ao presidente Lugo nunca se preocuparam em fazer a redistribuição da energia para os setores que mais precisam. Nunca fizeram nem uma linha de transmissão, coisa que começou a ser feita no governo do presidente Lugo. Portanto, temos que perguntar por quê? Um país que dispõe de tanta energia, mas não consegue distribuí-la, não está utilizando toda a sua energia por sua própria deficiência. Temos que corrigir isso para começar. O Paraguai, na época de Lugo, conseguiu acordos com o governo brasileiro para compensação que nós consideramos histórica: US$ 240 milhões anuais pelo uso da energia pelo Brasil. Esse processo de avanço foi interrompido em junho. Temos que voltar a essas negociações. O Paraguai tem que ser sócio do Brasil e não inimigo. Mas, claro, um sócio que defende seus direitos. 

Terra – Que opinião o senhor tem a respeito dos brasiguaios, os produtores rurais brasileiros instalados no Paraguai?
Mario Ferreiro – Primeiro, precisamos lembrar que muitos são colonos brasileiros que se instalaram no Paraguai e têm filhos paraguaios. Portanto, é uma questão cultural que temos de administrar com responsabilidade. Parece-nos um setor que tem tanto direito quanto nós de trabalhar, dentro de um marco legal, no Paraguai. De fato, o golpe parlamentar de junho do ano passado também afeta milhares de paraguaios que vão diariamente do Paraguai para o Brasil e para a Argentina. Temos 1 milhão de paraguaios em Buenos Aires. Temos milhares de paraguaios que cruzam a fronteira diariamente. Temos o porto de Paranaguá. Os brasiguaios devem ser questão de integração e não de separação. 

Terra – O senhor acredita que a morte do candidato Lino Oviedo pode mudar o cenário político para as eleições?
Mario Ferreiro – O partido de Oviedo, segundo as pesquisas, tinha entre 7% e 10% das intenções de voto. Não podemos dizer que esse é um número que poderia mudar o cenário dessas eleições. De qualquer forma, esse número tem gerado disputas políticas e eu acredito que na política as coisas não acontecem da noite para o dia. Não acredito que o voto oviedista se transfira para outro candidato imediatamente. Por isso, eu acho deplorável que a classe política paraguaia esteja disputando esses votos como se fossem os restos de uma pessoa recentemente falecida. É um espetáculo triste. Precisamos respeitar os eleitores do Unace. Isso não quer dizer que coincidamos ideologicamente com o Unace, mas os respeitamos profundamente. 

Fonte: Terra

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