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Paraguai: candidato colorado é acusado de ligações com tráfico e contrabando

Jornalista autor do livro 'La otra cara de HC (Horacio Cartes)' diz que contou com 'mãos amigas' brasileiras para investigar supostos crimes do favorito nas eleições do próximo dia 21 de abril

15 abr 2013
11h31
atualizado em 16/4/2013 às 17h36
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Poucas semanas antes das eleições presidenciais no Paraguai, o jornalista Chiqui Ávalos lançou um livro polêmico. La outra cara de HC fala sobre o passado obscuro do candidato do Partido Colorado à presidência, Horacio Cartes. Empresário do ramo de cigarros e dirigente esportivo, ele já foi condenado por evasão de divisas e convive com a eterna suspeita de envolvimento com o contrabando de cigarros para o Brasil. Além disso, no livro, Ávalos apresenta documentos e depoimentos que comprovariam a ligação de Cartes não só com o contrabando, mas também com o tráfico de drogas.

<p>O candidato do Partido Colorado à Presidência do Paraguai, Horacio Cartes, acena durante o primeiro debate televisionado entre candidatos</p>
O candidato do Partido Colorado à Presidência do Paraguai, Horacio Cartes, acena durante o primeiro debate televisionado entre candidatos
Foto: Jorge Adorno / Reuters

Cartes lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições gerais do próximo dia 21 de abril, com pouca vantagem sobre o segundo colorado, Efraín Alegre, do Partido Liberal. A diferença ficou ainda menor depois que Alegre se aliou ao grupo político do general Lino Oviedo, que morreu no início de fevereiro em um acidente de helicóptero quando percorria o país em pré-campanha para a presidência.

Em entrevista exclusiva ao Terra, o escritor confirma que “fontes diplomáticas” brasileiras ajudaram na construção do livro. Ele também conta que se refugiará na casa de amigos no Brasil até a eleição porque teme por sua segurança. Após o lançamento da obra, Ávalos recebeu ameaças anônimas e convive com o que chama de “histórias folclóricas que circulam na fronteira sobre vinganças contra alguns adversários”. Confira a entrevista na íntegra:

Terra - Por que o senhor resolveu lançar o livro agora, perto das eleições?
Chiqui Ávalos - É uma tendência mundial, assim como acontece nos Estados Unidos, no Brasil ou na Argentina, que a oportunidade para conhecer os candidatos faz com que a indústria editorial insista nessas datas como as mais importantes nas edições. Seis meses atrás ou seis meses depois, teria menos valor para que o leitor faça suas avaliações.

Livro sobre o passado do candidato do Partido Colorado à presidência, Horacio Cartes, foi lançado pouco antes das eleições
Livro sobre o passado do candidato do Partido Colorado à presidência, Horacio Cartes, foi lançado pouco antes das eleições
Foto: Twitter / Reprodução
Terra - Quanto tempo o senhor trabalhou para juntar todo o material? Como foi essa pesquisa?
Chiqui Ávalos - A primeira investigação que fiz foi para um jornal (Hoy) em 1985 sobre a evasão de divisas do Banco Central, nas quais para dinamizar a produção agrícola foi habilitada uma cotização especial para quem importava insumos por um valor abaixo do dólar nas ruas. Inventaram operações, houve cumplicidades dos controles, das empresas e do próprio banco, além das financeiras que compravam os dólares a 240 guaranis (câmbio da época) oficialmente e se beneficiavam com a diferença de câmbio ao vender a 400. O que em 35 milhões de dólares representou o início de muitas fortunas. Horacio Cartes trabalhava na Cambios Humaitá nessa época, empresa dos filhos do chefe de polícia do Stroessner (Alfredo Stroessner, general que governou o Paraguai de 1954 a 1989), e depositavam os fundos em uma conta especial em Nova York.

Terra – O senhor tem medo das reações que essas denúncias podem causar? Teme por sua segurança?
Chiqui Ávalos - Dizer que não tenho medo seria uma irresponsabilidade. De fato, por histórias que circulam e o relacionam com a máfia, com narcotraficantes conhecidos do Brasil (Fahd Yamil, que está na lista da DEA [agência norte-americana que combate o tráfico de drogas], doleiros como Dario Messer) o fazem temível, além das histórias folclóricas que circulam na fronteira sobre vinganças contra alguns adversários. Tenho o apoio e a ajuda não só em alguns documentos, mas também na discreta proteção de algumas embaixadas provavelmente interessadas que ele não chegue ao poder. Mas tudo “off the record” para não comprometer ninguém diplomaticamente.

Terra – Qual o motivo de sua viagem ao Brasil na próxima semana?
Chiqui Ávalos - Vou visitar alguns amigos, jornalistas e diplomatas que me recomendaram não ficar no Paraguai no dia das eleições. Por causa da ebulição que existe, podem ser violentas já que as distâncias entre as pesquisas são mínimas, e eu correria perigo, tanto se ganham os colorados, quanto se perdem, poderiam procurar um bode expiatório e não quero ser o pato do casamento.

Horacio Cartes participa de debate presidencial em 17 de março, em Assunção
Horacio Cartes participa de debate presidencial em 17 de março, em Assunção
Foto: AFP
Terra – O seu livro contou com a ajuda de fontes diplomáticas e de meios de comunicação do Brasil. O que o senhor conseguiu com esses contatos? Essas “fontes diplomáticas” demonstram preocupação pelo futuro do Paraguai caso Cartes seja eleito?
Chiqui Ávalos - Sim. Apesar de não poder revelar as fontes, tive acesso a alguns documentos graças a “mãos amigas”. Pessoalmente acredito que depois de ter falado com referências importantes, não é do agrado do governo brasileiro ter Cartes como presidente do Paraguai, com todas as acusações de lavagem de dinheiro, narcotráfico, contrabando de cigarros e etc. Inclusive, já fiz contatos com editoras brasileiras para lançar o livro aí com o título O perigo mora ao lado.

Terra – O senhor já teve alguma conversa com Cartes sobre essas acusações?
Chiqui Ávalos - Não, nenhuma. O comuniquei que estava escrevendo o livro, seus amigos e seus companheiros políticos de rua sabiam que eu estava fazendo, mas jamais falamos sobre o assunto.

Terra – Se tudo é verdade, por que Cartes não está preso?
Chiqui Ávalos - Ele já esteve na prisão por evasão de divisas em 1985. Foi condenado em três oportunidades e finalmente, em uma das mais estranhas decisões da Corte Suprema, foi absolvido em... 2008! Vinte anos depois. Eu acredito que a Justiça brasileira é tão elástica quanto a paraguaia em alguns casos, com a vantagem do corajoso mensalão para vocês que não podemos imitar ainda.

Terra – Desde o dia do lançamento do livro até agora, como o senhor avalia a repercussão em seu país?
Chiqui Ávalos - Um amigo me disse que vender a quantidade de livros como La otra cara de HC no Paraguai, um país que não lê, é como vender picolés aos pinguins. Tive dificuldades? Claro. Três editoras rechaçaram o material, outras duas não se animaram a publicar e tive que arcar com todos os custos. Os dois maiores jornais “independentes” do país não quiseram publicar um anúncio pago adiantado e vários hotéis negaram abrigar a apresentação do livro, além do silêncio de outros meios aliados ou temerosos a Cartes.

Houve ameaças, pressões nos meus colaboradores, mas, sobretudo, há um ambiente rarefeito de medo do candidato que, infelizmente, nos faz voltar no tempo em que vivíamos no “stronismo” (período no qual o Paraguai foi governado pelo general Stroessner), do qual Cartes é admirador, quando o medo era o pão nosso de cada dia, aniquilando a liberdade de várias gerações. Esse é o pior dano.

Fonte: Terra
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