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Médicos Sem Fronteiras: 1 mi vivendo em tendas é inaceitável

10 jan 2011
15h22
Felipe Franke

Um ano depois do terremoto que devastou o Haiti, deixando mais de 200 mil mortos, a Médicos Sem Fronteiras (MSF) - uma das organizações mais atuantes no processo de reconstrução do país - criticou a forma como a ajuda à população foi conduzida e diz que a situação na nação mais pobre das Américas ainda é dramática. Em entrevista ao Terra , Alessandra Vilas Boas, coordenadora de comunicação da entidade, afirmou que a ação da Organização das Nações Unidas (ONU) "foi muito falha".

Nuvens negras passam por sobre um dos acampamentos montados para pessoas desabrigadas pelo terremoto, em Porto Príncipe
Nuvens negras passam por sobre um dos acampamentos montados para pessoas desabrigadas pelo terremoto, em Porto Príncipe
Foto: AFP

"Um ano depois do terremoto, ter um milhão de pessoas vivendo em barracas e acampamentos é inaceitável", sobretudo levando em conta uma "emergência que mobilizou tanta ajuda internacional", sintetiza. "Vimos isso no terremoto e estamos vendo de novo com o cólera. Realmente existe esse atraso. (Há) uma necessidade de mobilização das diferentes organizações e uma coordenação eficiente por parte das Nações Unidas de dar conta dessas necessidades da população".

No entanto, em meio a tantos problemas, Alessandra encontra algo para comemorar: a ampliação do atendimento do atendimento básico de saúde à população de baixa renda. "Isso praticamente inexistia no Haiti," recorda ela sobre o período anterior à enxurrada de apoio estrangeiro advindo com o terremoto. Mesmo assim, ela defende que a ampliação e a solidificação da oferta de cuidado médico especializado permanecem um desafio.

"A situação de saúde primária no Haiti, hoje, é, na realidade, melhor do que era antes do terremoto, porque tem um número muito grande de organizações, e hoje as pessoas têm acesso gratuito a cuidados primários", diz. "Mas a necessidade de cuidados especiais continua."

O desafio Haiti
No ano em que completa 20 anos de presença no Haiti, a MSF considera que 2010 foi o ano mais desafiador do seu trabalho no país. Na avaliação de Alessandra, pode-se inclusive dizer que, somados, o terremoto de janeiro e o surto do cólera do segundo semestre do ano passado se transformaram no maior desafio já enfrentado pela MSF.

"Você pode dizer que a nossa operação de ajuda humanitária no Haiti foi a maior da história da organização", que, fundada em 1971, acumula trabalhos em locais como o Sudão e a Faixa de Gaza. "Em todos países onde a gente já trabalhou, essa operação foi a maior em termos de números de pessoas envolvidas, de recursos, de volume de operação de atendimento e localidade", afirma.

Presente no Haiti desde 1991 para suprir a oferta de atendimento básico à população, a Médicos Sem Fronteiras conta hoje com 8,3 mil pessoas - entre estrangeiros e haitianos - atuando no país. "Isso é 10 vezes mais do que tínhamos antes do terremoto" de 12 de janeiro de 2010, que deixou um saldo de cerca de 200 mil vítimas fatais.

No episódio, a MSF foi essencialmente requisitada para realização de cirurgias, atendendo casos de traumatologia, ortopedia e também prestando serviços maternos. Passados os primeiros dias, o atendimento foi ampliado ao cuidado da saúde mental de sobreviventes da tragédia.

Não bastasse o terremoto, avaliado como um dos piores desastres naturais da história recente, os haitianos ainda tiveram de lidar com um surto do cólera no decorrer do segundo semestre. Alessandra diz que, embora a epidemia já apresente sinais de estabilização, há novos casos surgindo em locais de densidade populacional menor.

"É muito difícil prever o futuro da epidemia, mas o que é certo é que a única forma de realmente conter a doença e evitar que ela faça mais estragos no futuro é um trabalho importante no sistema de água: oferecer água clorada e um sistema de saneamento que não coloque as pessoas em risco", sugere. "A gente vai continuar tratando os pacientes do cólera enquanto o cólera persistir no país."

Fonte: Redação Terra

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