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Equador: "defendíamos a democracia", diz amigo de jovem morto

2 out 2010
21h08
atualizado às 22h00

Com cápsulas de balas de alto calibre na mão e restos de bombas de gás lacrimogêneo, o estudante Carlos Torres acompanhava neste sábado o enterro do estudante Juan Pablo Bolaños, 24 anos, morto durante a rebelião policial no Equador, na quinta-feira.

Correa visitou a sala onde era velado o estudante
Correa visitou a sala onde era velado o estudante
Foto: AFP

"Não consigo entender que numa greve os policiais estejam armados com balas de alto calibre", disse Torres à BBC Brasil, acompanhado de um grupo de estudantes. Bolaños foi uma das oito vítimas fatais do tiroteio ocorrido do lado de fora do Hospital Militar em Quito, quando efetivos militares tentavam resgatar à força o presidente equatoriano Rafael Correa.

O mandatário esteve cercado durante horas por policiais que se rebelaram contra o governo, gerando uma das piores crises políticas dos últimos anos. Torres e Bolaños se conheceram na Universidade Central do Equador, na faculdade de Economia, onde estudavam. Na quinta-feira, quando os protestos da polícia se converteram em atos de violência as aulas foram suspensas.

"Evitar golpe"
"Decidimos ir à manifestação para defender a democracia e evitar o golpe de Estado", afirmou Torres, que é presidente da Federação de Estudantes Universitários do Equador. Os estudantes se uniram aos demais simpatizantes que cercaram o palácio de governo, na quinta-feira, em apoio ao presidente equatoriano. O protesto pró-Correa terminou no Hospital Militar, liderado pelo chanceler equatoriano Ricardo Patino, que convocou os manifestantes a ir "resgatar o presidente".

"A manifestação era pacífica, mas, antes mesmo de chegar ao Hospital Militar, fomos reprimidos pela polícia de forma selvagem", relata o dirigente estudantil. A violência policial teria se incrementado quando efetivos militares se aproximaram do hospital para romper o cerco ao presidente. "Quando os militares chegaram, todo mundo comemorou, porque pensamos que teríamos como nos defender", afirmou João Torres, amigo de infância de Bolaños. "Eram uns 400 policiais, pensamos que eles se renderiam e fomos atrás dos militares para entrar no hospital", complementa Torres.

"Nesse momento a polícia começou a disparar. Foi um tiroteio sem fim", relata o estudante. João correu para se proteger e não soube mais do amigo. Juan Carlos Bolaños foi atingido na cabeça. "Ainda não consigo acreditar no que aconteceu. Prefiro pensar que vamos jogar bola no próximo domingo", relata emocionado o jovem, que estuda para ser oficial do Exército.

Correa
O presidente equatoriano Rafael Correa foi ao velório do estudante. Mais cedo, durante seu programa semanal, Correa pedou um minuto de silêncio em homenagem aos civis e militares mortos durante a rebelião policial. Visivelmente consternado, Correa cumprimentou familiares e amigos de Bolaños e deixou o velório no momento do enterro.

"Desculpa, mas não posso acompanhá-los (ao local do enterro)", disse o presidente, que caminhava com dificuldades apoiado em muletas, devido à operação no joelho realizada há menos de um mês. Em resposta, um grupo de familiares e amigos do estudante gritaram "Viva Correa!".

Para o presidente da Federação de Estudantes, Carlos Torres, a manifestação contra a lei de Servidores Públicos, pivô do protesto dos policiais, "era uma desculpa", disse. "O que queriam era derrubar o presidente e depois, quem sabe, instalar uma ditadura no país."

"É doloroso que Juan Pablo tenha dado sua vida. Mas não pensaremos duas vezes em sair às ruas se os policiais se rebelarem outra vez", disse. "Não vamos permitir que tomem o poder à força, vamos defender a democracia", afirmou.

Entenda a crise
Os distúrbios registrados no Equador têm origem na recusa dos militares em aceitar uma reforma legal proposta pelo presidente Rafael Correa para reduzir os custos do Estado. As medidas preveem a eliminação de benefícios econômicos das tropas. Além disso, o presidente também considera a dissolução do Congresso, o que lhe permitiria governar por decreto até as próximas eleições, depois que membros do próprio partido de Correa, de esquerda, bloquearam no legislativo projetos do governante.

Isso fez com que centenas de agentes das forças de segurança do país saíssem às ruas da capital Quito para protestar. O aeroporto internacional chegou a ser fechado. No principal regimento da cidade, Correa tentou abafar o levante. Houve confusão, e o presidente foi agredido e atingido com bombas de gás. Correa precisou ser levado a um hospital para ser atendido. De lá, disse que havia uma tentativa de golpe de Estado. Foi declarado estado de exceção no Equador - com militares convocados para garantir a segurança nas ruas. Mesmo assim, milhares de pessoas saíram às ruas da cidade para apoiar o presidente equatoriano.

Após passar mais de 10 horas no hospital, Correa foi resgatado do prédio cercado por rebeldes. Na operação, houve troca de tiros entre militares e policiais. Correa foi levado para o Palácio Presidencial, de onde discursou para milhares de simpatizantes. Segundo a Cruz Vermelha do Equador, duas pessoas morreram e mais de 70 ficaram feridas nos distúrbios

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