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Bogotá propõe criação de centros de consumo controlado de drogas

9 ago 2012
21h30
atualizado às 21h41

O prefeito de Bogotá, o esquerdista Gustavo Petro, anunciou a abertura de centros de consumo controlado de drogas para dependentes, com a ideia de conter crimes associados, abrindo uma acalorada discussão sobre o crescente consumo interno de entorpecentes, um tema pouco abordado na Colômbia.

O projeto, que poderá começar a funcionar em setembro, se receber o aval do governo federal, pretende instalar centros de atenção especializados em três áreas de Bogotá onde se concentram, principalmente, dependentes do "bazuko", derivado da pasta base similar ao crack, conhecido popularmente como "olla" (panela em espanhol).

A Prefeitura baseia sua proposta em experiências realizadas em cidades de Canadá, Portugal, Holanda e Suíça, entre outras, e para isto destinou um orçamento inicial de 1,2 bilhão de pesos (671.328 dólares). Para Augusto Pérez, especialista em dependência química e diretor da organização Novos Rumos, de cuidados com viciados, trata-se de "um grande desafio, porque reabilitar milhares de consumidores de bazuko é uma tarefa muito complexa".

"Se os centros acolhessem realmente consumidores de bazuko seria algo muito inovador na Colômbia e no mundo, pois até agora os países europeus só atendem a dependentes de heroína", disse Pérez à AFP. Uma lei sancionada em julho estabeleceu que a dependência de drogas deve ser considerada um problema de saúde pública e os consumidores, tratados como pacientes e não como delinquentes.

Além disso, desde 1994 foi descriminalizada na Colômbia a posse de uma quantidade de drogas considerada para uso pessoal, estabelecida em um grama de cocaína ou 20 gramas de maconha. A Prefeitura de Bogotá lançou o projeto, enquanto no Uruguai o presidente José Mujica apresentou ao Parlamento uma proposta para legalizar e assumir o controle da produção e venda de maconha, com a finalidade de reduzir os riscos a que estão expostos os consumidores.

Enquanto isso, no Chile, o Congresso também deve avaliar um projeto para legalizar o cultivo e o consumo pessoal e terapêutico da maconha, em meio a críticas crescentes à política mundial de combate às drogas.

Colômbia, de país produtor a país consumidor

A Colômbia, primeiro produtor mundial de cocaína com 345 toneladas desta droga em 2011, segundo números da ONU, se concentrou até agora em atender os problemas criados pelo narcotráfico e só recentemente começou a se ver como um país consumidor.

Mas a ideia de fornecer drogas aos dependentes, mesmo as permitidas para uso médico, gerou repúdio de diversos setores, que consideraram a proposta "ilegal e inconstitucional". O procurador-geral Alejandro Ordóñez se opôs frontalmente à ideia, ao afirmar que "não é verdade que reduz o crime" e afirma que com a medida "não se previne, mas se promove o consumo".

Segundo um estudo da Prefeitura, dos 7,3 milhões de habitantes de Bogotá, 125 mil são consumidores de drogas. Destes, 70.000 são considerados "consumidores abusivos" e neste grupo há 7.000 consumidores de bazuko, potenciais frequentadores dos centros. Quanto à relação entre consumo de drogas e delinquência, a Prefeitura revelou que dos 1.632 homicídios registrados em Bogotá em 2011, 252 (15,4%) tiveram algum tipo de relação com as drogas.

"A Colômbia gasta milhões de pesos e dólares na luta contra as drogas, mas destina muito pouco a tratamentos integrais de reabilitação", disse à AFP Álvaro Enciso, presidente da fundação La Luz, dedicada ao cuidado de dependentes. "A proposta de Petro abriu o debate sobre o consumo interno de maconha, cocaína, bazuko e heroína, esta última cujo consumo está aumentando consideravelmente na capital", acrescentou.

Em meio à polêmica, o secretário de Saúde de Bogotá, Guillermo Alfonso Jaramillo, esclareceu que a proposta estabelece exclusivamente o fornecimento de drogas permitidas pela lei para diminuir a ansiedade dos dependentes. "Vamos trabalhar com as drogas que são aceitas, que podemos usar com prescrição médica, que não estão disponíveis no mercado e que estão controladas", explicou Jaramillo.

Os centros contariam com assistência de médicos, psicólogos, psiquiatras, dentistas e enfermeiras para o tratamento das dependências e também disponibilizariam um jardim de infância para os filhos dos moradores de rua, um refeitório comunitário, banheiros e alojamentos móveis. Segundo o estudo mais recente em nível nacional feito pelo governo colombiano, de 2008, havia no país 450.000 consumidores de maconha, 140.000 de cocaína, 34.000 de bazuko, 31.000 de ecstasy e 3.000 de heroína.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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