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Bento XVI conhecerá a Cuba de Raúl e do renascimento da Igreja

15 mar 2012
21h42
atualizado às 22h06

Passados 14 anos desde a histórica visita de João Paulo II, o papa Bento XVI conhecerá uma Cuba com Fidel Castro aposentado e governada por seu irmão, Raúl, marcada pelas reformas econômicas e com a Igreja Católica em um novo papel de protagonista como interlocutora do Estado.

A ilha, que esbraveja contra os "frankensteins" da burocracia e da corrupção, abriu uma tímida brecha à iniciativa privada para desinflar o aparelho estatal e relaxou as proibições que, durante décadas, impediram os cubanos de realizar transações tão comuns em outras partes do mundo, como comprar ou vender carros e casas.

Cuba, onde a dissidência denuncia uma sistemática repressão, segue na mira das críticas internacionais em relação à situação dos direitos humanos, enquanto o regime acusa os opositores internos de serem mercenários a serviço dos Estados Unidos e seu "genocida" bloqueio contra a ilha, que em 2012 completa 50 anos.

Contudo, Raúl Castro realizou um importante processo de libertação de presos políticos em 2010, após a mediação da hierarquia católica da ilha, que adquiriu desde então um inédito papel de interlocução com o governo.

Em 1998, a visita de João Paulo II e sua mensagem para que "Cuba se abra ao mundo e o mundo se abra a Cuba" foi um marco na história do país e também o início da aproximação entre a Igreja Católica e o Estado, depois de décadas de crise, desencontros e tensões.

Após o triunfo da Revolução em 1959, foram expulsos de Cuba 131 sacerdotes e quase 500 deixaram o país por "vontade própria". Quanto às comunidades religiosas femininas, passaram de 158 para 43. Das 2,5 mil freiras, restaram apenas 300, enquanto o número de homens diminuiu de 87 para 17.

O regime castrista se proclamava "socialista", até que mais tarde qualificou o Estado como "ateu". Em 1992, essa definição foi substituída na Constituição pelo termo "laico".

Com Raúl Castro, a aproximação iniciada com João Paulo II se aprofundou com um processo de diálogo que deu à Igreja o papel de mediadora não só para o Estado, mas também com representantes do exílio e acadêmicos cubanos.

Não por acaso as autoridades católicas insistem na reconciliação nacional como o grande desafio para o ano da visita do papa e dos 400 anos da aparição da imagem de Nossa Senhora da Caridad del Cobre, padroeira de Cuba e símbolo de unidade para os cubanos de dentro e fora do país.

Após sua passagem pelo México, o papa Bento XVI chegará a Santiago de Cuba no dia 26 de março, onde será recebido pelo presidente Raúl Castro e, após um passeio pela cidade, celebrará na mesma tarde uma missa na Praça Antonio Maceo.

No dia 27, visitará o Santuário da Caridad del Cobre e voará rumo a Havana, onde se reunirá com o presidente e outros membros do governo cubano.

Na quarta-feira, 28, celebrará uma missa ao ar livre na emblemática Praça da Revolução e, no mesmo dia, pela tarde, voltará a Roma.

Não está previsto um encontro entre o pontífice e representantes da dissidência, apesar de alguns grupos da oposição reivindicarem uma reunião. Em recentes declarações à Agência Efe, vários opositores expressaram o desejo de que o papa seja "a voz dos que não têm voz em Cuba" durante sua visita ao país.

EFE   
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