atualizado às 10h17

Artesanato transforma indígenas colombianas em chefes de família

 

Sem proclamar discursos feministas e revolucionários, as mulheres indígenas do povoado de Wounaan, situado no Pacífico colombiano, se transformaram em verdadeiras chefes de família a partir da elaboração de artesanatos de qualidade, vendidos a um preço alto e justo.

Essa transformação é resultado de um precioso e colorido trabalho feito com as folhas de palma werregue, um dos artesanatos mais valorizados da Colômbia. Através da fabricação de típicas cestas, essas mulheres, que antes eram submissas às vontades de seus respectivos maridos, começam a mudar esse contexto com um novo negócio.

Estas empresárias associadas vivem em Taparalito, às margens do rio San Juan, no sul do departamento de Chocó, e o mérito desta atividade é ter reforçado o orçamento de seus lares, uma responsabilidade que ficava restrita aos homens, que se dedicam às plantações, à pesca e à extração de madeira.

"Isto nos serve para poder comprar não só os lápis dos nossos filhos, mas os cadernos e também os uniformes. Para poder manter nossos filhos e nossos lares, já que muitos maridos não costumam colaborar", declarou à Agência Efe Rosita Tascón, mãe e chefe de uma das 318 famílias desta pequena comunidade.

Até bem pouco tempo atrás, tecer cestos em fibra de werregue era uma atividade tradicional e cada vez mais escassa, devido às inundações que arrasaram os cultivos de palma. A má experiência na comercialização das peças produzidas também desestimulou as artesãs locais.

No entanto, um projeto impulsionado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), em coordenação com a ONG Save The Chidren, foi iniciado nas comunidades do litoral de San Juan para poder recuperar a qualidade de vida das vítimas dessa transformação climática.

A coordenadora do projeto, Diana Cortés, explicou à Agência Efe que, no início, os homens eram os que mais participavam das reuniões porque "sentiam que tinham um papel importante", mas as mulheres foram tomando a palavra pouco a pouco.

Conscientes de que o werregue era "um projeto para elas", as moradoras dessas comunidades assumiram a frente do negócio, enquanto seus maridos acabaram assumindo o papel de tradutores.

"Gosto de colaborar com o grupo de mulheres porque muitos homens também dependem desta atividade. 95% da nossa comunidade se encontra sem emprego e esta atividade é muito importante para nós", declarou um dos intérpretes, o nativo Chichiliano Málaga.

Agora, os cestos de werregue, com seus desenhos de macacos, borboletas e outros elementos da tradição local, podem ser encontrados nas estantes de luxuosas lojas de decorações de Bogotá, sendo que o bom preço justifica facilmente o lado trabalhoso de sua confecção.

Com preços acima de US$ 50 por peça, as 63 artesãs, que quase não recebiam lucros anteriormente, se associaram através do projeto, estabeleceram "preços justos" e criaram um fundo com 15% de suas receitas para comprar os elementos necessários para continuar trabalhando o werregue.

No processo, os homens cortam as palmas, e o resto é tarefa das mulheres: separar a fibra em finíssimas tiras, cozinhar em panelas com folhas de puchicama, açafrão e sementes de achiote para conseguir as cores e depois começar a tecer, com paciência e agulha.

As mulheres dedicam cerca de três horas diárias ao trabalho de artesanato, já que, como afirmou Rosita, "atender os filhos e maridos primeiro é uma lei para as indígenas". Desta forma, essas mulheres demoram cerca de um mês para criar uma peça de 15 centímetros.

Para Marcelino Piraza, um professor de Taparalito, este projeto ajuda ao povo wounaan a manter suas tradições, um objetivo que inclui também suas danças e suas formas de pintar o corpo.

Mesmo assim, os instrutores do projeto insistem na necessidade de que as mulheres wounaan precisam aprender a falar espanhol, idioma que apenas 30% desta comunidade domina.

Além disso, este povo está "condenado a se entender" com as comunidades vizinhas, a maioria de Chocó, para reivindicar do Estado alguns serviços básicos, como energia, água potável e tratamento de esgoto.

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