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Argentinos comemoram votação histórica de Cristina Kirchner

24 out 2011
07h47
atualizado às 08h31
Aline Duvoisin
Direto de Buenos Aires

A noite de domingo foi de festa em Buenos Aires. Com poucas alternativas de divertimento devido às restrições impostas pela lei eleitoral ou por simples opção, os argentinos iniciaram cedo as comemorações pela reeleição da presidente Cristina Kirchner.

Argentinos saúdam Cristina Kirchner na Praça de Maio. A presidente se reelegeu com uma votação histórica
Argentinos saúdam Cristina Kirchner na Praça de Maio. A presidente se reelegeu com uma votação histórica
Foto: AP

Os festejos começaram logo após o encerramento das eleições, às 18h (horário da Argentina), e se intensificaram após o pronunciamento da presidente Cristina Kirchner - que ocorreu logo após as 21h, quando sua reeleição foi confirmada com somente 15% das mesas apuradas.

A Praça de Maio, principal local de encontro dos eleitores, ficou intransitável com as milhares de pessoas que vieram de diferentes partes. O brasileiro Roberto Loureiro foi à capital argentina para passear, mas como a data da viagem coincidiu com as eleições, decidiu entrar no clima.

Ele conta que "tinha curiosidade de saber como seria a comemoração, se haveria uma comoção como a que provoca Lula no Brasil". "Nunca imaginei que haveria tanta gente. Esta festa que poderia causar inveja a muitos carnavais brasileiros", destacou.

Por outro lado, a baiana Fernanda Santos, que mora aqui há um ano, afirmou que esse clima é comum na argentina, lembrando a multidão que compareceu à Praça de Maio no velório de Kirchner. "A quantidade de pessoas não me surpreendeu. Eu já esperava isso. Vim porque me parece importante a vitória da Cristina para que a América Latina continue no mesmo caminho. Estou aqui para comemorar ao lado dos vizinhos argentinos", explicou.

Surpreendeu também a quantidade de crianças que acompanhavam os pais na comemoração. Caracterizadas com adornos da coligação Frente para la Victoria, elas festejaram até tarde, pulando e cantando ao lado de todos, não demonstrando cansaço.

A temática kirchnerismo não esteve presente somente através de camisetas e bandeiras. Algumas pessoas pintaram seus rostos e usaram perucas com as cores do partido Frente para la Victoria. Outros foram à praça carregando pinguins de pelúcia em referência a "el Pingüino", como o Néstor Kirchner é carinhosamente chamado por aqui. O mais inusitado foi um vendedor muito criativo que oferecia "empanadas K".

Jovens são destaque
Por volta das 23h, os militantes que se encontravam em frente ao hotel onde Cristina reuniu-se com seus companheiros e realizou seu primeiro discurso comentando a vitória deslocaram-se em massa para a Praça de Maio, aumentando ainda mais a multidão que tomava conta da frente da Casa Rosada.

Entre eles, se destacavam os membros do La Cámpora, agrupação peronista kirchnerista fundada em 2003 com grande participação de jovens. Reunidos, tocando tambores e cantando acompanhados da filha da presidente, Florencia Kirchner, eles invadiram a Praça de Maio caminhando junto a um trio elétrico e fazendo espaço onde aparentemente não havia.

Ao lado de todos os que já estavam anteriormente no local, foram à loucura quando, de surpresa, a presidente apareceu no palco para se dirigir a multidão.

"Quero lhes dizer, meus queridos, vendo cada um de vocês, cada uma destas bandeiras, desses jovens... vejo eu e ele referindo-se a seu falecido marido, o ex-presidente Néstor Kirchner há muitos anos neste mesmo lugar", destacou Cristina.

Os jovens do La Cámpora responderam: "Cristina, Cristina, Cristina, corazón, acá tenés los pibes para la liberación" (Cristina, Cristina, Cristina, coração, aqui tens os jovens para a liberação). A presidenta continuou. "Peço a todos vocês que se organizem nas frentes sociais, nas frentes estudantis, porque é necessário reconstruir a estrutura social e política para defender a pátria, para defender os interesses dos mais vulneráveis e, fundamentalmente, para que ninguém possa tirar-nos o que conseguimos".

Quando o vice-presidente eleito, Amado Boudou, subiu ao palco, os gritos da multidão foram outros. Lembrando do polêmico atual vice-presidente, Julio Cobos, começaram a cantar "y ya lo ve, y ya lo ve, es para Cobos que lo mira por TV" (e já o vê, e já o vê, é para o Cobos, que o assiste pela TV). Cristina e Boudou encerraram a noite cantando e dançando junto a seus eleitores.

A noite dos que perderam
Diante da maior diferença histórica registrada entre o primeiro e o segundo colocado nas eleições presidenciais e com a porcentagem mais alta de votos desde 1983, os candidatos que competiam com Cristina Kirchner não tiveram outra saída senão resignar-se. Todos eles manifestaram clima de paz e respeito à vitória da atual presidente.

Primeira a se manifestar depois de terminada a jornada eleitoral, Elisa Carrió, candidata da Coalición Cívica, confessou que repetiu a "pior eleição da história" da sigla, comparando o atual pleito com as primárias de agosto. Carrió havia conquistado pouco mais de 3% de votos nas primárias e caiu para menos de 2% nas eleições deste domingo, ficando em último entre os sete candidatos que disputavam a presidência da república.

A deputada, que tem mandato no Congresso até 2013, salientou também que seu partido já não lidera a oposição e reconheceu a eleição de Cristina. Para finalizar destacou que "a democracia indica que os povos elejam seu destino, e os que votaram na Cristina são os únicos responsáveis pelo destino deste país".

Jorge Altamira, da Frente de Izquierda, falou pouco. Felicitou Cristina e se demonstrou contente devido à boa expectativa de eleger deputados nacionais pelo seu partido.

Duhalde afirmou que seguirá "trabalhando por uma ideia superior, que é a união dos argentinos". "Desejo que o governo aproveite esta oportunidade que o povo lhe deu e saiba que vamos estar juntos, independente de que pensemos diferente, porque vivemos no país de maior potencialidade da América do Sul", salientou o candidato.

O candidato da Unión para el Desarrollo Social, Ricardo Alfonsín, agradeceu os mais de 12,5 milhões de pessoas que o acompanharam nesta eleição, "confiando nas ideias, condutas e programas". O deputado, que permanece no Congresso até 2013, ressaltou também o importante avanço do seu partido em relação à eleição de 2007, quando não tinha condições de apresentar candidatos próprios. Por último, enfatizou que é necessário recuperar o sistema de partidos políticos e garantiu que o radicalismo vai ser ator fundamental neste processo, trabalhando para não cometer os mesmos erros de hoje nas próximas eleições.

Alberto Rodriguez Saá, candidato pelo Compromiso Federal, comemorou a eleição de dois senadores de sua coligação e considerou excelente o desempenho eleitoral obtido em Buenos Aires. "Um pouquinho de tristeza eu sinto, mas é preciso reconhecer que a presidente ganhou. Parabéns!", finalizou o governador da província de San Luis. O candidato também felicitou Ricardo Alfonsín e Hermes Binner pela luta.

Candidato pelo Frente Amplio Progresista, Hermes Binner salientou que sua coalizão de centro-esquerda terá uma força propositiva. "Estaremos na oposição, vamos ser os que levam uma proposta alternativa, mas seremos implacáveis com todos os direitos que correspondem aos cidadãos de acordo à Constituição", manifestou o governador da província de Santa Fé.

Com 98% das urnas apuradas, Cristina se elegeu com quase 54% dos votos. Binner obteve o segundo lugar, alcançando quase 17%. Alfonsín foi o terceiro colocado com pouco mais de 11%. Depois, se classificaram nesta ordem, Roriguez Saá, com 8% dos votos, Duhalde, com quase 6%, Altamira com pouco mais de 2% e, por ultimo, Carrió, com quase 2% dos votos.

Fonte: Especial para Terra
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