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A poucos dias de eleição, Peña Nieto se consolida como favorito

26 jun 2012
09h31
atualizado às 12h09
Elisa Martins
Direto da Cidade do México

A corrida presidencial no México entra na reta final como começou. Apesar da revolução política causada pelo movimento estudantil "Yo soy 132" e das trocas de acusações entre os candidatos, Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), mantém, a pouco dias da votação, uma ampla vantagem sobre os adversários Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD) e Josefina Vázquez Mota, do Partido Ação Nacional (PAN).

Peña Nieto acena para apoiadores durante evento de campanha em Lagos de Moreno, no Estado de Jalisco
Peña Nieto acena para apoiadores durante evento de campanha em Lagos de Moreno, no Estado de Jalisco
Foto: AFP

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Se as tendências das pesquisas de intenções de voto forem comprovadas nas urnas no dia 1º de julho, o PRI voltará ao poder depois de 12 anos de domínio do PAN, que por sua vez comandou o país desde o ano 2000, depois de um período de 71 anos de hegemonia do PRI. A esperança da legenda está em Enrique Peña Nieto, um candidato jovem e carismático que incorporou bem o papel que tinha desde o início da campanha: ser a "nova cara" do PRI.

Enrique Peña Nieto, 45 anos, nasceu em Atlacomulco, no Estado do México, localidade da qual foi governador entre 2005 e 2011. O cargo lançou sua imagem como então possível candidato à Presidência. O sucesso na atual campanha, porém, vem de algo mais que seu histórico político. A vida de Peña Nieto é quase a de um galã de novela. Ele tem quatro filhos - um gerado fora do casamento -, sua primeira mulher faleceu de uma doença não muito bem explicada publicamente (o que fez surgir todo tipo de teorias conspiratórias) e hoje está casado com uma famosa atriz mexicana.

Nos comícios, as eleitoras disputam fotos com o candidato, puxam sua camisa, em uma admiração que beira a tietagem. Recentemente, uma pesquisa feita por uma agência especializada em ajudar pessoas casadas a ter aventuras extra-conjugais mostrou que 86% das entrevistadas trairiam seus maridos se tivessem oportunidade com Peña Nieto. Não se pode negar o peso da imagem no favoritismo do candidato nas urnas.

"Políticos que ocuparam os cargos de governador do Estado do México ou chefe de governo da Cidade do México costumam ser candidatos naturais à Presidência no país. E Peña Nieto mostrou desde cedo seu interesse em se candidatar. Ele se transformou na esperança de um novo PRI, embora ainda não esteja muito claro o que seria essa nova legenda", opina Genaro Lozano, analista político do Instituto Tecnológico Autônomo do México (ITAM). "O fato é que sua campanha foi muito bem organizada, com uma forte propaganda e divulgação de imagem", completa.

Ampla vantagem
Em uma pesquisa divulgada esta semana pela consultoria Mitofsky, Enrique Peña Nieto aparece com 15,7 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, López Obrador, do PRD. O candidato favorito teria 44,4% das preferências de voto, contra 28,7% do esquerdista e 24,6% da governista Josefina Vázquez Mota, que voltaria a estar tecnicamente empatada com López Obrador. O jornal Reforma, que no final de maio dava apenas quatro pontos de distância entre Peña Nieto e López Obrador, revisou os dados e em sua pesquisa desta semana mostrou uma vantagem maior para o candidato do PRI, que seria agora de 12 pontos.

"A confirmação só virá com o resultado, em 1º de julho. Mas as pesquisas eleitorais mostram que a campanha suja empreendida contra Peña Nieto não teve a eficácia esperada pelos adversários, porque ele continua na liderança das preferências eleitorais", disse ao Terra o porta-voz do PRI, Eduardo Sánchez.

Não foram poucos os recentes obstáculos para Peña Nieto. Quando a eleição parecia decidida a seu favor, em maio estudantes iniciaram uma campanha contra um suposto favorecimento midiático ao candidato. O movimento "Yo soy 132" acendeu um alerta sobre uma provável manipulação das opiniões dos eleitores e alavancou a candidatura do esquerdista López Obrador. Na lista de escândalos, surgiram ainda acusações de corrupção a membros do PRI, um dos fantasmas historicamente associados ao partido.

Ex-governador de Tamaulipas pela legenda, Tomás Yarrington foi acusado de favorecer cartéis de drogas. Mais recentemente, o jornal inglês The Guardian denunciou que, quando governava o Estado do México, Peña Nieto teria pagado à rede de televisão Televisa, uma das mais importantes do país, para promover sua imagem e desgastar a do rival López Obrador. As acusações repercutiram na ocasião, mas parecem não ter afetado as preferências do eleitorado.

"Peña Nieto começou a campanha com uma ampla vantagem de até vinte pontos, não é fácil golpeá-lo. Sem contar que ele conta com uma boa equipe de campanha que tem sabido apagar os incêndios e responder rapidamente às críticas, evitando que os ataques ganhem força sobre ele", analisa Genaro Lozano.

Tropeços dos adversários
O trunfo de Peña Nieto também se explica pelos desacertos nas campanhas dos adversários. A imagem do candidato que "cumpre compromissos", mantida durante toda a campanha do PRI, se mostrou mais eficiente que as constantes mudanças de estratégia dos rivais em sua busca por alcançá-lo.

A campanha da governista Josefina, por um lado, não soube aproveitar suas qualidades desde o começo, nem distanciá-la do mandato de Calderón, desgastado pela guerra iniciada contra o narcotráfico. Parece que sua campanha só começou realmente há três semanas, quando levou a sério o slogan de "diferente" e iniciou uma série de efetivos ataques contra os rivais. Recentemente, o governo mexicano anunciou a prisão do filho de El Chapo Guzmán, o traficante mais procurado no México, o que poderia ajudar na imagem da candidata do governo. Só não se sabe se é tarde demais para que essa estratégia renda frutos. López Obrador também começou a apostar em spots mais modernos, para alcançar um público já tão disputado. Mas analistas dizem que ele aparenta estar cansado, sem o mesmo vigor que quase o levou à presidência em 2006.

A limitação do "Yo soy 132"
Por outro lado, o movimento de estudantes "Yo soy 132" não conseguiu convencer jovens de todo o país. A "primavera mexicana" tem grande atuação na Cidade do México, mas poderia ser insuficiente para promover uma verdadeira reviravolta nas urnas. A oposição dos universitários poderia ser um empecilho, isso sim, já durante um provável governo de Peña Nieto.

"Ele começaria a presidência com um forte movimento contra ele, sem o apoio de um setor importante de massa crítica da sociedade", diz Genaro Lozano. O movimento "Yo soy 132" acaba de organizar um debate entre os candidatos presidenciais. Peña Nieto se recusou a participar - e para marcar sua ausência, os estudantes deixaram uma cadeira vazia ao lado dos outros candidatos durante todo o encontro.

Com todo esse cenário, analistas afirmam que só um acontecimento totalmente inesperado poderia mudar o rumo das eleições mexicanas. O caso das eleições gerais espanholas de 2004, que acabaram favorecendo o socialista Zapatero após o ataque terrorista a uma estação de trem em Madri, chama a atenção para a importância do imprevisível.

"Existe um otimismo, mas a orientação é seguir trabalhando como se não tivéssemos vantagem, como se fosse um jogo de futebol empatado em zero a zero", afirma Eduardo Sánchez, porta-voz do PRI. Mas, nos bastidores do partido, o clima é de "já ganhou". O apito final, no entanto, só será dado no próximo domingo.

Fonte: Especial para Terra

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