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Hosni Mubarak: prisão perpétua após 30 anos de mão de ferro

2 jun 2012
06h47
atualizado às 08h26

O ex-presidente do Egito Hosni Mubarak, que durante 30 anos governou o país com mão de ferro, o que lhe rendeu o apelido de Faraó, passará o resto de seus dias sob custódia depois de ter sido condenado neste sábado à cadeia perpétua pelo assassinato de manifestantes durante a revolução. Após dez meses de julgamento, Mubarak, com óculos escuros e em uma maca, ouviu impassível a sentença ditada pelo Tribunal Penal do Cairo, que o considerou culpado pelo assassinato dos participantes dos protestos que puseram fim a seu regime em fevereiro de 2011.

Hosni Mubarak, em 1981: prisão perpétua após três décadas de força à frente do Egito
Hosni Mubarak, em 1981: prisão perpétua após três décadas de força à frente do Egito
Foto: Getty Images

Durante três décadas, Mubarak governou o Egito - o país mais populoso do mundo árabe - com severidade, mas também com grandes doses de paternalismo, pelo que considerava os egípcios "filhos" que necessitavam de um "pai" forte que os guiasse. Nascido em 1928 no Delta do Nilo, tornou-se piloto de combate e em 1973 desempenhou um papel fundamental na guerra do Yom Kippur, contra Israel, como chefe da Força Aérea egípcia. Ocupou esse cargo até 1975, quando o então presidente, Anwar el-Sadat, o nomeou seu vice-presidente. Em 1981, o assassinato de Sadat o alçou ao cargo de presidente.

Desde então, o "rais" ("presidente", em árabe) Mubarak governou ininterruptamente o Egito sem uma ideologia definida nem grande carisma, mas com uma habilidade especial para escapar de atentados e perpetuar-se no poder. Mubarak abraçou o legado de Sadat e quis se transformar no grande mediador do Oriente Médio, ao manter a paz com Israel, o que, junto à ajuda dos Estados Unidos, lhe permitiu livrar-se da reputação de estadista e se tornar o aliado do Ocidente na região.

No interior do país, exerceu um controle ferrenho, ajudado pela Lei de Emergência, vigente durante todo o seu mandato e utilizada para conter a onda de terrorismo islâmico que sacudiu o Egito na década de 1990 e para varrer a oposição a seu regime. Sob a desculpa da luta antiterrorista, essa lei suspendeu as liberdades de imprensa e associação, ampliou os poderes dos órgãos de segurança e anulou direitos civis e políticos.

Em matéria econômica, Mubarak promoveu a liberalização, mas sem tocar nos subsídios aos produtos básicos, a fim de garantir a paz social. O Egito viveu anos de estabilidade, nos quais as eleições, fraudadas com descaramento, se reduziram a uma mera ratificação do governante Partido Nacional Democrático (PND). No entanto, pouco a pouco, a falta de liberdade, a corrupção, as crescentes diferenças sociais e a pobreza (cerca de 40% dos 80 milhões de egípcios vivem com menos de US$ 2 por dia) fizeram com que a oposição ganhasse terreno, especialmente os islamitas da Irmandade Muçulmana.

A repressão do islamismo e o empenho de Mubarak em manter a paz com Israel também lhe valeram a inimizade de muitos egípcios. Em 2005, Mubarak, aparentemente pressionado pelos EUA, deu sinais de abertura e permitiu a postulação de vários candidatos nas eleições presidenciais, uma novidade, já que até então ele era eleito por plebiscito. Nas eleições presidenciais de 2005, os egípcios puderam votar em outros candidatos, mas 88,5% dos que foram às urnas (menos de 25% dos convocados votaram) escolheram Mubarak.

A contínua falta de democracia, a repressão policial e a absoluta falta de horizontes econômicos foram germinando na população um mal-estar que alcançou a indignação, ao constatar que o "rais" colocava seu filho Gamal dentro do PND para, provavelmente, apresentá-lo como sucessor. Em 25 de janeiro, começou no Egito uma onda de protestos inspirados na revolta da Tunísia e convocados, entre outros meios, pela internet, para exigir reformas políticas e econômicas e a renúncia do "rais". Mubarak impôs o toque de recolher, mudou o governo, prometeu reformas e anunciou que não se apresentaria às eleições presidenciais de setembro, mas não conseguiu com isso aplacar os protestos, e terminou renunciando à Presidência em 11 de fevereiro de 2011, após 18 dias de revolução.

Dois meses depois, foi detido na localidade de Sharm el-Sheikh e, em 3 de agosto de 2011, começava o julgamento contra ele sob a acusação de envolvimento na morte de manifestantes durante a revolução. A imagem de homem forte durante seu mandato dava lugar, depois da revolução, à de um doente na maca, que foi como Mubarak compareceu a todas as sessões do julgamento após sofrer um ataque cardíaco durante os interrogatórios judiciais, há mais de um ano.

Segundo o periódico Al Watan, que na última semana publicou uma série de artigos sobre a vida do presidente no hospital onde permanece detido por motivos de saúde, o ex-mandatário acompanhou os desdobramentos políticos no país com interesse, embora tenha se mostrado crítico quanto às mudanças produzidas.

EFE   

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