0

Exército egípcio dá 48 horas para forças políticas resolverem crise

1 jul 2013
17h19

As Forças Armadas do Egito advertiram nesta segunda-feira que pretendem agir caso as exigências do povo não sejam atendidas no prazo de 48 horas, depois que milhões de pessoas saíram às ruas no domingo para exigir a renúncia do presidente islamita Mohamed Mursi.

Em um comunicado lido na televisão estatal, as Forças Armadas reiteraram o "pedido para que as exigências do povo sejam atendidas e dão (a todas as partes) 48 horas, como última oportunidade, para assumir a responsabilidade pelas históricas circunstâncias que o país está vivendo".

A divulgação do comunicado causou uma explosão de alegria entre os manifestantes que exigem a renúncia do presidente na Praça Tahrir, no Cairo, de acordo com um jornalista da AFP no local.

"Mursi não é mais nosso presidente, Sissi está conosco", gritavam os manifestantes, referindo-se ao general Abdel Fattah al-Sissi, chefe do Exército e ministro da Defesa. Durante a transmissão da leitura da nota, uma imagem do general foi exibida em um telão na praça.

Logo depois da divulgação do comunicado, o movimento de oposição Tamarrod (rebelião em árabe), que organizou as manifestações de domingo, também elogiou a decisão do Exército que está, segundo ele, "ao lado do povo".

O comunicado do Exército significa que "haverá eleições antecipadas", considerou Mahmoud Badr, porta-voz do Tamarrod, que afirma ter recolhido 22 milhões de assinaturas para exigir novas eleições.

Já a Irmandade Muçulmana, o poderoso movimento islâmico ao qual pertence o presidente Mursi, anunciou que estudará o comunicado.

Mahmud Ghozlan, um dos líderes do movimento, disse à AFP que a direção política da irmandade vai se reunir para "decidir a sua posição".

As vozes se multiplicaram desde domingo em meio à oposição para pedir que o Exército exerça pressão sobre Mursi. Uma de suas principais figuras, o nacionalista de esquerda Hamdeen Sabbahi, pediu "ação" se Mursi tentar se aferrar ao poder.

O presidente americano, Barack Obama, fez um apelo a todas as partes no Egito para que tenham moderação diante das gigantescas manifestações contra Mursi, e pediu especificamente respeito às mulheres.

"Todas as partes devem mostrar moderação", disse Obama durante uma coletiva de imprensa na Tanzânia, lembrando "àqueles que estão participando dos protestos ou marchas que atacar mulheres não constitui um protesto pacífico".

O presidente americano, que chegou nesta segunda-feira à Tanzânia, terceira e última etapa de um giro pela África, não se pronunciou sobre as reivindicações da oposição egípcia, que pede a saída do presidente Mursi, mas apelou para que o governo egípcio redobre seus esforços para restaurar a harmonia no país.

"O que está claro hoje é que, embora Mursi tenha sido eleito democraticamente, deve ser feito mais para criar as condições nas quais todos sintam que suas vozes estão sendo ouvidas no Egito", declarou Obama.

Em Nova York, a ONU advertiu que a forma como forem resolvidos os distúrbios políticos no Egito terá um "impacto significativo" na transformação de outros países do Oriente Médio.

"O mundo está observando o Egito e o que o Egito fizer com sua transição terá um impacto significativo em outros países em transição na região", disse o porta-voz das Nações Unidas, Eduardo del Buey.

"Um Egito estável e seguro é crucial para a segurança e a estabilidade regionais", disse o porta-voz.

Apesar de muitos apoiarem uma intervenção do Exército, o retorno da instituição ao primeiro plano, que deu uma direção controversa ao país entre a queda de Hosni Moubarak no início de 2011 e a eleição de Mursi em junho de 2012, pode significar uma armadilha.

Para o cientista político Mustafa Kamel el-Sayyed, "as Forças Armadas querem que o país saia desta situação e evite uma guerra civil, mas não querem mais assumir diretamente o poder".

Resta saber também como o presidente e a Irmandade Muçulmana vão reagir às exigências dos militares.

"Uma intervenção do Exército não é uma solução de longo prazo, e a coalizão opositora atual é fraca e indecisa para dar uma direção estável ao país", considera o instituto britânico Maplecroft em um estudo divulgado nesta segunda.

"Qualquer ação por parte dos militares pode apenas dar uma solução de curto prazo, na melhor das hipóteses", acrescenta o autor, Oliver Coleman.

Algumas autoridades militares egípcias confessam que não têm boas lembranças do período em que administraram as questões governamentais. Na época, os mesmos opositores que hoje pedem que os militares assumam criticaram duramente o Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), acusado de perpetuar um poder autoritário e de ser responsável por graves violações dos direitos humanos.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
publicidade