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Egito sofre golpe militar após um ano de democracia islâmica

4 jul 2013
00h52
atualizado às 02h31

O Exército derrubou na noite desta quarta-feira o presidente do Egito, Mohamed Mursi, primeiro civil eleito democraticamente no país, e deteve centenas de dirigentes ligados à Irmandade Muçulmana, base do regime deposto, após um ano de governo marcado por crises.

O anúncio da deposição de Mursi, acusado de tentar a "islamização" do Egito, causou uma explosão de alegria entre os opositores do presidente, incluindo as milhões de pessoas reunidas na emblemática Praça Tahrir, no Cairo.

"Mursi e toda a equipe presidencial foram levados para o clube da Guarda Republicana da presidência", disse à AFP Gehad al-Haddad, membro da Irmandade Muçulmana.

Posteriormente, o presidente "foi separado de sua equipe e conduzido ao ministério da Defesa", revelou Al-Haddad.

A informação sobre a prisão de Mursi foi confirmada por um oficial do Exército, que pediu para não ser identificado.

O jornal Al-Ahram informou que o ministério do Interior expediu 300 mandados de prisão contra dirigentes ligados à Irmandade Muçulmana. Entre os detidos estão Saad al-Katatni, chefe do Partido da Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade, e Rached Bayoum, um dos dignitários religiosos do grupo.

Funcionários da filial egípcia da rede de televisão do Catar Al-Jazeera, a Al-Jazeera Mobasher, também foram detidos após a divulgação do discurso de Mursi na emissora.

"As forças de segurança invadiram as instalações da Al-Jazeera Mobasher e prenderam vários funcionários", revelou a rede de TV do Catar.

Segundo fontes da segurança, o Guia Supremo da Irmandade, Mohamed Badie, e seu "número 2", Jairat al Shater, foram proibidos de abandonar o país.

O ex-candidato à presidência Amr Musa, do Partido Liberal, informou que o governo já iniciou consultas "para formar um governo e para a reconciliação" nacional. "É o fim do regime de Mursi. Está acabado".

O chefe do Exército, general Abdel Fattah al-Sissi, anunciou em um discurso à Nação que o poder político está nas mãos do presidente do Conselho Constitucional, Adly Mansour, até a realização de uma eleição presidencial antecipada, mas sem precisar a duração deste período de transição.

A Constituição também foi suspensa, e um "comitê será encarregado de examinar propostas de emendas constitucionais", segundo o general.

Além disso, um governo de coalizão reunindo "todas as forças nacionais" e "dotado de plenos poderes" será encarregado de "gerir o período atual" de transição.

Em Marsa Matruh, no noroeste do Egito, quatro pessoas morreram e outras dez ficaram feridas em um ataque de um grupo de homens armados, partidários de Mursi, contra a sede dos serviços de segurança desta cidade da costa mediterrânea perto da fronteira com a Líbia.

Em Alexandria, segunda maior cidade do país, outro partidário de Mursi morreu em confrontos com as forças de segurança. Também ocorreram enfrentamentos na província central de Aisut e em Gharbiya, no Delta do Nilo.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, convocou os militares egípcios "a ceder toda a autoridade rapidamente e de maneira responsável a um governo civil democraticamente eleito, por meio de um processo aberto e transparente", em uma nota emitida após reunião com seus assessores de Segurança Nacional na Casa Branca.

"Durante esse período de incerteza, exigimos do Exército que garanta que os direitos de todos os egípcios sejam assegurados, sobretudo, o direito à reunião pacífica e o direito a processos justos e independentes em tribunais civis", acrescentou Obama, que também pediu que "todas as partes evitem a violência e se unam para assegurar o retorno duradouro da democracia".

Em Brasília, a chancelaria informou que "o governo segue com preocupação a grave situação no Egito" e "insiste na busca de soluções para que os desafios sejam enfrentados pela população egípcia com respeito à institucionalidade".

"O governo brasileiro apela ao diálogo e à conciliação para que as justas aspirações da população egípcia por liberdade, democracia e prosperidade possam ser alcançadas sem violência e com plena vigência da ordem democrática".

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, estimou que "a interferência militar nos assuntos de qualquer estado é preocupante", mas ressaltou que "os egípcios, em seus protestos, têm manifestado frustrações e preocupações legítimas".

O ministro britânico das Relações Exteriores, William Hague, qualificou a situação de "claramente perigosa" no Egito e fez "um apelo a todas as partes pela contenção e que evitem a violência"

"A Grã-Bretanha não apoia uma intervenção militar como meio para resolver conflitos em um sistema democrático", acrescentou Hague.

A alta representante da União Europeia para as Relações Exteriores e a Política de Segurança, Catherine Ashton, pediu "a todas as partes que retornem rapidamente ao processo democrático, incluindo a realização de eleições presidencial e legislativas justas e livres", com o objetivo de "permitir ao país retomar e levar sua transição democrática a bom termo".

Na Praça Tahrir, onde grandes manifestações precederam o anúncio da deposição do presidente islâmico, grupos de manifestantes abraçaram membros das forças de segurança, chamando-os de heróis.

"Mursi merece um fim como este. Ele era apenas o presidente da Irmandade Muçulmana", afirmou Amr Mohamed, de 40 anos, levando sua filha nos ombros, perto da sede da Presidência no bairro de Heliópolis.

Em Nasr City, na região do Cairo, onde partidários do presidente normalmente se reuniam, um dos opositores, Omar Sharif, disse exultante: "É um momento histórico. Nos livramos de Mursi e da Irmandade Muçulmana".

Mursi era acusado por seus críticos de ter dividido o país ao governar em benefício da Irmandade Muçulmana. Ele também era criticado por ter deixado o Egito mergulhar na crise econômica e por não ter conseguido reduzir os índices de criminalidade, que registraram um forte aumento após a queda de Hosni Mubarak, no início de 2011.

A população cristã copta é amplamente hostil a Mursi, e muitos egípcios adeptos de um Islã moderado consideram que ele foi complacente com os fundamentalistas salafistas.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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