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Dispersão de partidários de Mursi no Cairo termina em banho de sangue

14 ago 2013
18h04

O governo egípcio decretou nesta quarta-feira estado de emergência nacional depois da morte de pelo menos 280 pessoas durante a dispersão dos manifestantes que estavam mobilizados há semanas no Cairo para exigir o retorno ao poder do presidente deposto Mohamed Mursi.

As autoridades indicaram que 235 civis e 43 policiais tinham morrido em todo o país. Mas o registro é, provavelmente, muito mais elevado. Um jornalista da AFP contabilizou 124 corpos apenas nas proximidades da praça Rabaa al-Adawiya, quartel-general dos manifestantes pró-Mursi no Cairo, onde o Ministério da Saúde indicou 61 mortos.

Em um hospital improvisado em uma tenda, os médicos mantinham um ritmo frenético e abandonavam os casos mais críticos para atender os feridos com mais chances de sobreviver.

O banho de sangue provocou uma crise governamental, com a renúncia do vice-presidente Mohamed ElBaradei, e foi condenado pela ONU e por países ocidentais e muçulmanos.

As autoridades tinham prometido um retirada "gradual" dos manifestantes das praças cairotas de Rabaa al-Adawiya e Nahda, ocupadas há um mês e meio por milhares de partidários de Mursi, derrrubado no dia 3 de julho pelos militares e detido desde então.

Mas as tropas policiais e militares surpreenderam as pessoas acampadas nas duas praças, realizando um cerco ao amanhecer, e começaram a avançar com escavadeiras e disparando bombas de gás lacrimogêneo contra as barracas, que abrigavam várias mulheres e crianças.

O governo anunciou pela manhã o desmantelamento da Nahda. Já na parte da tarde, as forças de segurança anunciaram o controle total da praça Rabaa al-Adawiya.

A Irmandade Muçulmana, movimento de Mursi, afirma que a repressão deixou 2.200 mortos e mais de 10.000 feridos.

Outras regiões foram cenário de incidentes, com choques em Alexandria (norte) e o incêndio de três igrejas cristãs coptas no centro do país.

O governo decretou estado de emergência nacional e um toque de recolher no Cairo e em outras onze províncias das sete horas da tarde até as seis da manhã (14h00 a 01h00 de Brasília). Ambas as medidas vão vigorar por um mês.

Antes, todas as conexões ferroviárias já haviam sido suspensas no Cairo para dificultar as mobilizações.

A repressão desencadeou uma crise governamental e dividiu amplos setores civis e religiosos que haviam apoiado o golpe contra Mursi.

O vice-presidente Mohamed ElBaradei apresentou sua renúncia em uma carta enviada ao presidente interino, Adly Mansour.

"Ficou difícil para mim seguir assumindo a responsabilidade por decisões com que não concordo", escreveu o Prêmio Nobel da Paz. "Infelizmente, aqueles que vão ganhar com o que aconteceu hoje são os grupos extremistas, que querem a violência e o terror", acrescentou.

A mesquita Al-Azhar do Cairo, principal autoridade mundial sunita (ramo do Islã), também lamentou a repressão.

"O uso da violência nunca foi uma alternativa a uma solução política", disse o grão-imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayyeb, em declarações à televisão.

A Irmandade Muçulmana convocou uma mobilização geral para "conter o massacre".

"Isto não é uma tentativa de dispersão, e sim uma sangrenta tentativa de esmagar todas as vozes de oposição ao golpe militar que derrubou Mursi", escreveu no Twitter o porta-voz da Irmandade, Gehad al-Haddad.

A violência política já tinha deixado mais de 250 mortos desde o final de junho até antes da repressão desta quarta.

Uma calma que pode se revelar apenas temporária predomina no país. A tensão permanece, já que os islamitas convocaram novas manifestações. As forças de ordem se preocupam, neste momento, em evitar novas mobilizações depois de tomado o controle das duas praças do Cairo, onde os pró-Mursi estavam acampados há um mês e meio.

A repressão causou consternação e foi condenada por diversos países pelo futuro do Egito, o mais populoso dos países árabes.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, lamentou que as autoridades egípcias "tenham decidido usar a força".

Os Estados Unidos, que concedem ao Egito cerca de 1,5 bilhão de dólares anuais de ajuda, principalmente militar, criticaram a repressão e as medidas de exceção.

O secretário de Estado americano, John Kerry, pediu que os militares egípcios convoquem eleições e fez um apelo a todas as partes para que evitem mais violência.

Kerry considerou "deplorável" a repressão contra os seguidores de Mursi e afirmou que o Egito deve optar por "uma saída pacífica e democrática".

"A violência só deixará mais complicado para o Egito seguir um caminho de estabilidade e democracia duradoura e vai de encontro às promessas feitas pelo governo interino de buscar a conciliação", afirmou, por sua vez, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest.

A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, que havia tentado uma mediação no Cairo, exigiu a retirada do estado de emergência "o mais rápido possível".

O estado de emergência foi quase permanente durante as três décadas do governo de Hosni Mubarak, derrubado em 2011 por uma insurreição popular, que muitos consideram o auge da Primavera Árabe que causou a queda dos regimes autoritários de Tunísia, Egito e Líbia.

A França pediu o "fim imediato da repressão" no Egito e fez um apelo para que a ONU e seus principais parceiros "para que uma posição internacional neste sentido seja tomada com urgência", declarou o chefe da diplomacia francesa, Laurent Fabius.

Mursi foi o primeiro presidente do Egito eleito democraticamente.

O movimento foi ilegalizado em 1954 e, a partir de então, passou a ser reprimido pelos sucessivos governos egípcios, mas voltou a atuar legalmente após a queda de Mubarak, em fevereiro de 2011, chegando à vitória nas eleições legislativas e presidenciais de 2012.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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