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Argélia: dezenas de mortos em operação para libertar reféns

17 jan 2013
23h31

Forças especiais do Exército argelino realizaram na noite desta quinta-feira uma operação para libertar os reféns mantidos por um grupo armado islâmico em um campo de gás do centro-leste da Argélia, o que provocou a morte de vários estrangeiros, revelou o ministro das Comunicações, Mohamed Said.

Não foi informado oficialmente o número de mortos na operação, que visava libertar centenas de trabalhadores argelinos e cerca de 40 estrangeiros capturados pelo grupo ligado à Al-Qaeda no campo de In Aménas, mas Mohamed Said admitiu que, "lamentavelmente, há mortos e feridos, incluindo estrangeiros".

Um porta-voz da "Brigada Mokhtar Belmokhtar", o grupo islâmico que reivindicou o sequestro, disse à agência mauritana Nuakchott Information (ANI) que 15 combatentes e 34 reféns estrangeiros morreram durante a operação do Exército e que outros sete permaneciam vivos.

"Trinta e quatro reféns e 15 combatentes morreram em um bombardeio (aéreo) do exército argelino", declarou o porta-voz à ANI. O chefe do comando, Abu Al Baraa, está entre os mortos.

Os sete reféns sobreviventes são três belgas, dois americanos, um japonês e britânico, precisou o porta-voz.

Antes do ataque do Exército, 15 reféns estrangeiros e 30 argelinos conseguiram fugir, informou a imprensa local.

A companhia JGC comunicou ao ministério das Relações Exteriores em Tóquio que três de seus 17 funcionários japoneses estão em um "local seguro", e que as informações sobre os demais 14 "são contraditórias" e não é possível "confirmar sua situação".

A companhia revelou que outro funcionário, não japonês, também está em segurança. A JGC tem outros 60 trabalhadores 'estrangeiros' na Argélia cuja situação desconhece.

Segundo o ministro Said, o sequestro foi realizado por uma "multinacional terrorista que visa a implicar a Argélia no conflito no Mali, "desestabilizar" o Estado argelino e "destruir sua economia" baseada na exploração dos hidrocarbonetos.

O ministro argelino do Interior, Dahou Ould Kablia, revelou que "o grupo terrorista que atacou o campo In Aménas veio da Líbia".

Ould Kablia confirmou que o ataque ao campo de gás foi liderado por Abu Al Baraa, um argelino que integrou o Grupo Salafista para a Pregação e o Combate (GSPC) no início dos anos 2000 e contribuiu, em particular, para a implantação dos grupos islâmicos armados no norte do Mali.

Os agressores justificaram o sequestro como uma represália à operação francesa contra os "jihadistas" no norte do Mali. Os aviões franceses que atacam os rebeldes malinenses sobrevoam o espaço aéreo argelino.

Segundo um funcionário argelino que pediu para ter sua identidade preservada, os sequestradores exigiam ainda "a libertação de 100 terroristas detidos na Argélia" em troca dos reféns.

Mohamed Said informou que o governo argelino está em "contato permanente" com os países envolvidos para informar sobre a situação.

O ministro das Comunicações acrescentou que "numerosos agressores foram neutralizados" quando tentavam fugir para um país vizinho. A fronteira mais próxima é a líbia.

A agência APS informou que a ação das forças especiais do Exército "libertou" apenas a parte do campo de gás onde estavam os reféns, e não todo o complexo de In Aménas.

O ministro Said destacou que a princípio o governo argelino "buscou uma solução pacífica para obter um final feliz", mas os agressores "fortemente armados", que qualificou de "fanáticos" islâmicos, "mostraram sua clara vontade de sair da Argélia levando os reféns estrangeiros" para sua "chantagem".

O comando islâmico entrincheirado no campo de gás relatou que o Exército argelino lançou um ataque com "aviões de combate e unidades terrestres e que o grupo foi bombardeado quando "tentava levar os reféns a um local mais seguro a bordo de veículos".

Os sequestradores se apresentaram como os "Signatários pelo Sangue", nome da "katina" (unidade combatente) do argelino Mokhtar Belmokhtar, apelidado de "o caolho" ou "Senhor Marlboro" por seu envolvimento no contrabando de cigarros.

A Casa Branca expressou sua preocupação em relação à operação na Argélia: "obviamente estamos preocupados com a informação sobre a perda de vidas humanas", afirmou o porta-voz do presidente Barack Obama, Jay Carney. "Tentaremos pedir esclarecimentos ao governo argelino".

Um funcionário americano, que pediu para não ser identificado, disse que Washington "não foi informado sobre a operação" para libertar os reféns, e que comunicou "enfaticamente" às autoridades argelinas que a prioridade era a segurança do pessoal".

O presidente francês, François Hollande, apoiou a ação, embora a tenha classificado de operação dramática.

"O que acontece na Argélia justifica ainda mais a decisão que tomei em nome da França de ajudar o Mali em conformidade com a Carta das Nações Unidas e a pedido do presidente desse país", assinalou Hollande. "Trata-se de por fim a uma agressão terrorista e permitir que os africanos se mobilizem para preservar a integridade territorial de Mali".

Já o primeiro-ministro britânico, David Cameron, lamentou não ter sido informado da operação militar do exército argelino.

"O governo argelino está a par de que teríamos preferido ser consultados com antecedência", enfatizou um porta-voz do governo.

O Japão, por sua vez, exigiu que Argélia suspendesse imediatamente a operação militar. Um porta-voz do governo informou que o primeiro-ministro Shinzo Abe, que se encontra em Bangcoc, ligou para seu colega argelino para expressar sua "profunda preocupação" a propósito da operação.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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