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Jornalista online deve defender sua história, diz editor de site francês

29 out 2009
08h58
atualizado às 09h29
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Hermano Freitas
Direto de São Paulo

O editor-chefe do site francês Rue89.com, Pierre Haski, afirma que o jornalista de internet deve ter uma interação com o leitor, obter informação dele, questioná-lo e defender a história que apurou. Segundo o francês, esse contato direto com o leitor é a principal diferença entre um veículo tradicional e um de web. O jornalista abre o terceiro dia de debates do MediaOn - 3º Seminário Internacional de Jornalismo Online, realizado em São Paulo pelo Instituto Itaú Cultural e pelo Terra, empresa de internet e mídia digital líder na América Latina, e com apoio da BBC Brasil e da CNN. Haski é um dos palestrantes do painel "A experiência das empresas que já nasceram com vocação digital", do qual também participará Fernando Madeira, diretor-geral do Terra para a América Latina, e que será mediado pela diretora de redação da revista Exame, Cláudia Vassallo. Confira a íntegra da entrevista:

Pierre Haski, do Rue89.com: jornalistas online devem interagir com leitores
Pierre Haski, do Rue89.com: jornalistas online devem interagir com leitores
Foto: Divulgação

Qual será o principal tema no seu painel?
Todos estão se perguntando a mesma coisa em todo o mundo: como se faz dinheiro com um veículo na internet? Desenvolvemos um modelo que não é calcado apenas em anúncios, mas divide a geração de receita metade em publicidade e metade com serviços, como o desenvolvimento de sites para clientes e o treinamento de jornalistas de impressos que querem se treinar em online. Isso nos deu um modelo econômico mais equilibrado, o que nos coloca mais perto de ficar quite com os gastos. O que, em um momento de recessão na Europa, é um grande resultado. Então provavelmente seremos os primeiros veículos online da Europa a conseguir zerar o déficit e lucrar.

Isso significa equipe menor, cortar custo?
É preciso desenvolver negócios adequados com o cenário econômico da internet, que é o de equipes menores, infraestrutura menor. Isso não quer dizer que não se pode mais fazer jornalismo de qualidade. Eu acredito que fazer jornalismo na web é muito diferente de outras mídias. Trabalhei 26 anos em um jornal diário, então sei do que falo. Há muita relacionamento com outros sites e outros fatores que mudam completamente a natureza do seu trabalho. É verdade que teremos um menor orçamento e menos equipe. Todos os sites que começaram com grandes equipes desmoronaram, foram um fracasso, porque não se pode começar com grandes custos, não há economia para sustentá-los. Ninguém pode dizer o que acontecerá em 5 anos, ninguém sabe, mas as condições reais são de equipes enxutas.

Sabemos que é diferente, mas na sua opinião quão diferente é ser um jornalista online de ser um de impresso?
Creio que a grande diferença, a grande mudança é a relação com o leitor, que tornou-se parte do processo de produção das notícias. Quando se trabalha em um jornal, ou rádio, ou televisão você entrega algo para o leitor, que faz o que quiser com ele. Online não. No momento em que você coloca a notícia no ar, o seu leitor pode interagir contigo, cada um deles pode - não que todos o façam, mas podem. Eles enriquecem o seu noticiário, porque na sua audiência há muitas pessoas com mais expertise que você em determinado assunto e vivenciaram isso e dão sua contribuição, sua opinião. Há um alcance muito maior do que o jornalista fazia antes sozinho. Esta é a grande diferença. Você não pode trabalhar online sem levar o leitor permanentemente em consideração, seja como fonte de informação, complemento de informação ou debate sobre o que se faz. Nossos jornalistas tem as funções tradicionais, de pesquisar e apurar informação e escrevê-las. Mas precisam também moderar os comentários que sobem em suas matérias. Precisam respondê-los, muitas vezes dizendo que estão errados ou questionar de onde obtiveram as informações. Como jornalista você deve defender a história que apurou. Ele tem ainda que interagir com a comunidade para obter material mais qualificado. E se o leitor tem algo muito bom, por que não convidá-lo a escrever sua própria história?

Quais veículos o senhor gosta mais no Brasil, quais estão melhor na internet?
Não estou muito familiarizado com o mercado brasileiro porque não falo português, tenho apenas uma impressão visual e não de sua substância, mas conheço a Folha de S.Paulo, tenho uma relação de anos com o jornal porque tínhamos parceria com eles no Liberation. Quando quero alguma coisa do Brasil meu primeiro impulso é acessar a Folha Online. Eles tem um site bom e dinâmico.

E na esfera internacional, quem vai bem?
Para mim, obviamente o New York Times é o melhor. Não apenas os recursos do NYT, que tem a maior rede de repórteres, mas também porque botam muito dinheiro em pesquisas e fazer conteúdo multimídia muito bom. Estava vendo a história daquele repórter que passou meses refém do talibã e conseguiu escapar. Foi produzido excelente texto a partir disso mas também conteúdo multimídia muito criativo. Ninguém pode disputar liderança com eles porque nenhum outro tem os recursos que o NYT tem. Acho que são superiores, por exemplo, à BBC, que tem uma excelente produção, é uma referência em news, mas o Times investe mais em tecnologia. Estão tentando criar nova linguagem para o web, o que é muito bom. São muitos inovadores.Gpsto muito do blog "The Lede", em que jornalistas em todos os lugares do mundo postam notícias com fontes como redes locais, comunidades, etc. Acho que conseguiram manter um alto padrão mesmo com a crise. Gosto muito dos blogs asiáticos, principalmente chineses. Eles conseguem traduzir muito rápido para o inglês, promovendo o debate online sobre a situação do País. Internet é o espaço ideal para debates em China e o eco deste debate é muito interessante para entender o que se passa na China. Então muitos abriram espaços e plataformas. Gosto muito do Global Voices, que tem uma voz local muito forte dando uma reverberação global a qualquer assunto local de relevância.

Sobre o MediaOn
Entrando no terceiro e último dia da edição 2009, o MediaOn convidou para o debate profissionais das principais mídias do mundo, como Nathalie Malinarich, editora-executiva de Mundo da BBC, Nick Wrenn, vice-presidente de Serviços Digitais da CNN Internacional, Marcos Foglia, gerente de Novas Mídias do Clarín Global, da Argentina, e Pierre Haski, editor-chefe do site francês Rue89.com.

Entre os debatedores brasileiros foram chamados Antonio Guerreiro, gerente de conteúdo do recém-lançado portal R7, da TV Record, Pedro Doria, editor-chefe de conteúdos digitais do Grupo Estado, Danilo Gentili, repórter do CQC, programa de jornalismo e humor da TV Bandeirantes; Altino Machado - Blog da Amazônia, de Terra Magazine, e Camilla Menezes, twitter de Mano Menezes, José Henrique Mariante, editor de Esporte na Folha de S.Paulo; Luiz Fernando Gomes, editor-chefe do Grupo Lance!, e Julio Gomes, editor do ESPN.com.br e do ESPN 360. Confira a programação completa do seminário.

A história do evento
O MediaOn é um fórum internacional criado em 2007 por jornalistas e profissionais da internet para debater os rumos de suas atividades e as tendências da informação no mundo digital. A curadoria do evento é de Antonio Prada, diretor de conteúdo do Terra para a América Latina, Fernanda Ceravolo, diretora do estúdio Vinil, e Jaime Spitzcovsky, diretor da PrimaPagina.

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Fonte: Redação Terra
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