Saúde de Jobs gera curiosidade, não preocupações financeiras

06 de julho de 2009 • 20h36 • atualizado às 20h36

David Carr

Estados Unidos


Em fevereiro do ano que vem, quando Steve Jobs - se tudo der certo - apresentar sua grande surpresa na conferência Macworld, aquilo que a maioria dos espectadores mais gostaria de ver não estará em exposição. Jobs não vai mostrar seu pâncreas para que o público tenha certeza de que o câncer não retornou.

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No telão, não haverá uma imagem do fígado que ele recebeu em transplante recente, para que possam procurar sinais de rejeição. E a despeito do entusiasmo por tudo que é Mac, não haverá aplicativo para o iPhone que permita acompanhar em tempo real a saúde do executivo. Parece bobagem? Certamente - mas nem tanto, a julgar do alarido da mídia quando Jobs retomou seu posto na semana passada.

Para aqueles dentre você que não estão acompanhando, Jobs, presidente-executivo da Apple e a única coisa na empresa que atrai mais atenção que o iPhone, anunciou em janeiro que tiraria seis meses de licença, declarando que "minhas questões médicas são mais complexas do que eu imaginava originalmente".

Em notícia divulgada inicialmente pelo Wall Street Journal, surgiu a informação de que ele recebeu um transplante de fígado em abril, o que para muitos é indicação de que o câncer pancreático que ele teve diagnosticado em 2004 se expandiu. Mas Jobs voltou a trabalhar em tempo parcial na semana passada, exatamente na data prevista.

Especialistas com conhecimento genérico de seu tratamento dizem que as perspectivas dele são favoráveis. Isso não impediu que blogs, a mídia e investidores exigissem que ele e a Apple apresentassem um panorama médico completo, que veem como crucial para o futuro da empresa. E diante dessa pressão, eu e não muito mais gente replicamos: Existe mesmo alguma dúvida quanto ao estado de saúde de Jobs? Não estou convencido, em parte porque acho que a morbidez e não preocupações financeiras legítimas dita a preocupação sobre doenças alheias.

A saúde é assunto dos mais privados, e por bom motivo. As autoridades regulatórias nunca puniram uma empresa por não revelar informações de saúde de seus executivos. Compramos, trocamos e vendemos ações que em parte têm seus preços determinados pela saúde de alguém, sem que saibamos seu estado. Sergey Brin e Larry Page, os fundadores do Google, por exemplo, poderiam ser atropelados por um Prius e sofrer problemas graves. (E mesmo que o carro fosse um híbrido como o Prius, eles sairiam machucados da experiência, não?)

Como qualquer sobrevivente de câncer pode dizer (eu mesmo sirvo como exemplo e testemunha), as perspectivas são sempre incertas. Você está bem, até deixar de estar. Dada a efetividade dos tratamentos e das constantes inovações, os mais de 10 milhões de norte-americanos que sobrevivem com câncer o administram como doença crônica - e Jobs é um deles.

Durante o período em que ele esteve de licença, a companhia lucrou US$ 1,21 bilhão em seu segundo trimestre fiscal, o melhor resultado que ela já registrou no período; as ações subiram de menos de US$ 90 para mais de US$ 140; e Timothy Cook, o veterano vice-presidente de operações da companhia, teve uma passagem interina muito bem recebida ao leme do grupo. Além disso, o iPhone 3GS foi colocado à venda, e parece ser mais um grande sucesso para a empresa.

Sim, as ações oscilaram ligeiramente quando Jobs voltou (e se movimentaram um pouco em função da notícia sobre seu transplante de fígado), mas a saúde dele já parece estar incorporada ao preço. E as pessoas mais informadas sobre a situação tampouco desfrutam de clara vantagem. A maioria dos funcionários da Apple não sabem "como vai o Steve". Caso façam perguntas aos dirigentes da empresa, provavelmente serão instruídos a voltar ao desenvolvimento do próximo produto revolucionário do grupo, e que cuidem de suas vidas.

Mas não me preocupar com a saúde de Jobs faz de mim parte de uma minoria bastante solitária. Joe Nocera, colunista de negócios no New York Times e um jornalista que cobriu as peripécias dos executivos durante toda sua carreira, vem defendendo consistentemente a posição de que o público merece ser informado. E na semana passada, em depoimento à rede de TV a cabo CNBC, o investidor Warren Buffett descreveu a cirurgia pela qual passou recentemente como "fato relevante" para o mercado.

Alan Mutter, que é tanto jornalista quanto profissional de capital para empreendimentos, me afirmou em mensagem de e-mail que revelar o máximo de informações é especialmente importante quando "um presidente-executivo proeminente e poderoso, que não pode ser separado facilmente da essência da marca que dirige, está envolvido".

Clay Shirky, professor na Universidade de Novas York e jornalista de tecnologia, diz que embora "não desejemos paparazzi e jornalistas de escândalos vasculhando o lixo dos hospitais", não revelar uma redução de capacidade "poderia constituir uma espécie de fraude". Como qualquer colunista, telefonei para muita gente até encontrar alguém que concordasse comigo - e encontrei Paul Saffo, respeitado tecnológo do Vale do Silício.

"Todos sabem que Steve tem uma doença séria e que ele dedicou a garantir que a empresa seja bem gerida em sua ausência a mesma energia que dedica a tudo mais", ele afirma. "Se alguém abrisse um processo alegando não ter sido informado sobre a saúde de Jobs, não teria base alguma. O que temos é curiosidade macabra, um espetáculo".

Isso é o que a mídia moderna faz melhor. Jobs é uma celebridade, e tem profunda relação com os consumidores. Bill Gates pode ter mudado mais o mundo do que Jobs, mas pessoas que não o conhecem não se sentem seus amigos. Porque Steve parece nos conhecer, ou às nossas necessidades, gostamos de imaginar que também o conhecemos, se bem que nada seja menos verdade. Jobs é inescrutável como Buda, e muitos dizem que conviver com ele é bem desagradável.

É sua celebridade que alimenta os pedidos de informação máxima. O mesmo sentimento que leva as pessoas a sentirem ter o direito de sugar até a medula dos ossos de Michael Jackson se aplica aos vivos. A expectativa é a de que, se você é famoso e está doente, deveria abrir as veias e deixar todo mundo assistir, como fez Farrah Fawcett - que recebeu em troca a falsa adoração das massas. Mas Steve Jobs não quer o seu amor. Só quer que você continue comprando os produtos da Apple.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
 
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