inclusão de arquivo javascript

 
 

Jornais já não dominam bolsas de pesquisa jornalística

18 de maio de 2009 17h39

 Rice encontra bolsistas universitários, entre eles repórteres de jornais e revistas. Foto: The New York Times

Rice encontra bolsistas universitários, entre eles repórteres de jornais e revistas
Foto: The New York Times

Por décadas, os mais bem sucedidos repórteres e editores de jornais tinham como expectativa a obtenção de bolsas universitárias de pesquisa, como oportunidade de uma pausa de meio de carreira e forma de recarregar as baterias. Mas os anúncios quanto aos pesquisadores que estão conseguindo admissão aos mais prestigiosos programas, este ano, demonstra até que ponto esse padrão está mudando.

Hoje em dia, os jornais em crise têm menor probabilidade de conceder licenças aos seus funcionários, para começar. O número de funcionários das empresas de jornais se reduziu muito, e os profissionais que perduram por tempo suficiente para que pudessem estar interessados em uma bolsa de pesquisa tendem a estar mais preocupados com manter o emprego do que em procurar uma oportunidade de recarregar as baterias.

Assim, embora no passado os funcionários de jornais dominassem as bolsas de pesquisa jornalística, já há alguns anos sua proporção vem diminuindo, e ela despencou drasticamente nas seleções anunciadas nas últimas semanas para o próximo ano letivo. Quatro dos programas de pesquisa mais conhecidos - em Harvard, Instituto de Tecnologia de Massachusets (MIT), Stanford e Michigan -, o número de jornalistas empregados por jornais e selecionados para bolsas de pesquisa caiu de 29 este ano para 11 no ano que vem. O número de jornalistas empregados por revistas e agências de notícias e selecionados para os programas também caiu, mas de maneira menos drástica.

Ao mesmo tempo, o número de candidaturas a esses quatro programas entre os jornalistas norte-americanos cresceu em 62% este ano, para cerca de 600. O número foi engrossado por legiões de jornalistas que já não têm emprego fixo, e por pessoas oriundas das mídias não tradicionais, que vêm ganhando importância. Alguns dos programas também reservaram vagas adicionais a jornalistas estrangeiros.

"Quando a economia cai, as candidaturas sobem, em certa medida, mas este ano elas quase dobraram", disse James Bettinger, diretor da John S. Knight Fellowships, em Stanford. "A proporção de candidatos que trabalham nos jornais diários foi a menor de todos os tempos, este ano. E 61 dos 166 inscritos usaram a palavra 'freelance' em algum lugar de seus currículos".

As bolsas de pesquisa incluem estipêndios para que os participantes se sustentem enquanto assistem a aulas nas universidades e, a depender do projeto, conduzam um projeto de pesquisa específico ou viajem para estudos. No caso dos participantes que trabalham para jornais, a tradição é que recebam uma licença, acompanhada pela promessa de que terão seus empregos de volta ao retornar. E durante sua ausência os empregadores mantêm seus planos de saúde e em certos casos os remuneram ao menos parcialmente.

"Agora recebemos muitas cartas de candidatos que dizem que os editores dos jornais já não autorizarão bolsas em longo prazo, não bancarão planos de saúde e não prometem manter o emprego do participante; muitos candidatos dizem que, se receberem a bolsa de pesquisa, terão de se demitir e pleitear uma reintegração ao final do trabalho", diz Bob Giles, curador da Fundação Nieman de Jornalismo, em Harvard.

Para manter contato com essa realidade, alguns dos programas elevaram seus estipêndios - em alguns dos maiores deles, o valor atinge US$ 60 mil mais ou mais, além das despesas de estadia, durante nove meses -, e agora todos eles oferecem planos de saúde.

Mas os diretores do programa dizem que o fator primário para que haja menos empregados de jornais nos programas não é uma questão financeira imediata, e sim o temor pelo futuro.

"As pessoas têm medo de que, se deixarem seus cargos em um momento de demissões nos jornais, não encontrarão seus empregos à espera quando retornarem - e estão certas quanto a isso", disse Charles Eisendrath, diretor da Knight-Wallace Fellows, a organização que organiza os programas de pesquisa da Universidade do Michigan. "A queda no número de candidatos é maior entre os funcionários das grandes organizações, onde a maioria dos cortes aconteceu. As empresas menores continuam a ser participantes entusiásticas dos programas".

Philip Hilts, diretor da Knight Science Journalism Fellowships, no MIT, disse que "este ano, três de nossos 11 pesquisadores convidados deixaram seus empregos enquanto estavam conosco - foram demitidos ou aceitaram pacotes de incentivos à demissão voluntária".

No New York Times, as normas para as bolsas de pesquisa não mudaram e as demissões na redação foram mínimas, em comparação a outros jornais. Mas nenhum dos jornalistas da casa se candidatou a uma bolsa da Nieman este ano, "algo que não me lembro de ter acontecido no passado", disse Giles. (O programa da Nieman ainda não anunciou seus selecionados, mas Giles descreveu os antecedentes dos pré-selecionados.)

Alguns dos programas também decidiram se orientar deliberadamente a novas formas de jornalismo.

"A mídia agora é muito mais ampla", disse Bettinger, "e estamos tentando reconhecer esse fato e aproveitá-lo. Uma das coisas que nos parecem claras é que muitas inovações poderosas não virão do jornalismo tradicional. Este ano, escolhemos dois consultores de mídia, que tradicionalmente não seriam considerados jornalistas; no ano passado não creio que os tivéssemos considerado".

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
The New York Times