Atualizada às 19h21
Mesmo que a Alemanha esteja sofrendo sua pior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial, o governo anunciou uma surpresa aparentemente afortunada na quinta-feira: nem tanta gente perdeu seu emprego, no mês passado.
Assim, será que a Alemanha conseguiu escapar aos estragos da crise? Provavelmente não, dizem os economistas. A aparente resistência do mercado de trabalho indica, acima de tudo, uma abordagem peculiarmente alemã para combater a destrutiva recessão, e não qualquer mudança nas tendências econômicas subjacentes. A Alemanha descobriu maneiras criativas de manter pessoas excluídas dos números oficiais de desemprego, quer elas tenham trabalho real, quer não.
Os políticos elogiam esse tipo de medida, que tem por objetivo manter os desempregados pelo menos nominalmente na folha de pagamento de alguma companhia, e dizem que elas servem como uma ponte para a travessia do período mais agudo de colapso econômico. Mas muitos economistas argumentam que as estatísticas sobre o desemprego de curto prazo podem na verdade estar mascarando uma tendência menos otimista, que poderia voltar para solapar a confiança do país no final do ano, quando a recuperação deve enfim começar.
"O calcanhar de Aquiles são os meses vindouros", disse Ulrich Wortberg, analista do Landesbank Hessen-Thuringen. "A recuperação está repleta de riscos".
O número de desempregados na Alemanha mostrou alta moderada em julho, de 52 mil pessoas. Ante o mesmo período no ano passado, um total de 252 mil pessoas perdeu o emprego.
Os números são minúsculos diante da elevação em seis milhões de trabalhadores do número de desempregados nos Estados Unidos, mesmo se levarmos em conta que a população da Alemanha equivale a apenas um quarto da norte-americana. Enquanto o índice de desemprego disparava para 9,5% nos Estados Unidos em junho, ante 5,6% no mesmo mês um ano antes, na Alemanha o desemprego saltou para 8,2% em julho, ante os 7,7% do ano anterior.
Com a chanceler Angela Merkel em campanha por reeleição, em eleição marcada para setembro, os números do desemprego apresentam implicações políticas reais. Embora não haja sugestões de que os dados estão sendo manipulados, os alemães em geral tendem a acreditar que tanto o governo quanto as grandes empresas encontrariam vantagem em tentar reanimar os cidadãos assim tão perto da eleição.
"No final do processo, as empresas alemãs terão de se reestruturar, de toda maneira, e terão de reduzir sua capacidade produtiva", disse Eckart Tuchtfeld, economista sênior no Commerzbank. "E isso contribuiu, evidentemente, para a nossa imagem de uma recuperação um tanto anêmica, especialmente na Alemanha, porque todas as suas reações à crise econômica estão sendo mais demoradas".
Os economistas estimam que um programa subsidiado pelo governo para reduzir jornadas de trabalho - conhecido como Kurzarbeit- ajudou a evitar cerca de 40 mil demissões este ano, e que entre 1,3 milhão e 1,4 milhão de trabalhadores estejam se beneficiando dele, de acordo com estimativas do governo. Mas com a expectativa de que a economia passe por uma contração de ao menos 6% este ano, os especialistas afirmam que a medida paliativa terminará derrubada por uma grande onda de demissões no final do ano, depois da eleição.
Metil Marun foi demitido de sua posição na linha de montagem de um fornecedor da Mercedes, perto de Stuttgart, em maio. Ele ainda não encontrou emprego novo, mas de acordo com as estatísticas do governo não é considerado como desempregado.
Marul, 42, é um dos cerca de 60 funcionários da fábrica, hoje fechada, cujos contratos de trabalho foram assumindo por uma chamada "companhia de transferência". Em um escritório operado pela companhia em questão, a MyPegasus, em Reutlingen, Marul, um imigrante nascido na Turquia, dedica seu tempo a melhorar seu currículo, recebe conselhos de um consultor sobre como procurar emprego e pode realizar cursos para melhorar seus conhecimentos técnicos ou seu alemão, que ainda é imperfeito.
Enquanto isso, ele continua a receber cerca de 80% de seu salário, por um ano; os custos são divididos entre o governo e seu antigo empregador. "Para mim, é melhor ficar na companhia da transferência, porque aqui posso aprender e procurar um novo emprego", afirmou Marul.
No estaleiro de Wadan, no Estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no norte do país, cerca de 2,5 mil trabalhadores devem ser assumidos por uma companhia de transferência, e o governo estadual entrará com mais de US$ 20 milhões para cobrir os custos do estaleiro nessa manobra. Daniel Friedrich, porta-voz do sindicato alemão dos metalúrgicos, o IG Metall, classifica a decisão do governo estadual de garantir a criação de uma companhia de transferência como "responsável", mas acrescenta que o sindicato está preocupado com o futuro.
"O medo é que depois da eleição para o Bundestag Legislativo, as empresas decidam abandonar as jornadas de trabalho mais curtas e optem em lugar disso por realizar mais demissões. Quando chegarmos a esse ponto, a questão das companhias de transferência automaticamente assumirá uma nova dinâmica", diz Friedrich.
A MyPegasus opera 20 escritórios permanentes espalhados pela Alemanha, mas no momento conta com outros 30 escritórios temporários, criados em base de projeto a projeto. O diretor executivo do grupo, Rainer Schwile, diz que essas unidades hoje atendem um número recorde de trabalhadores: em geral, o total fica entre mil e 1,5 mil pessoas, mas cresceu para 2,5 mil nos últimos meses.
E ele afirmou que a expectativa é de ainda mais demissões. "Nosso temor é o de que as demissões se intensificarão depois que as férias de verão passarem, e as empresas vierem a descobrir que ainda não recuperaram o nível anterior de pedidos que tinham", disse Schwille.
Os funcionários da MyPegasus afirmam que a companhia de transferência representa mais que um truque técnico para evitar engordar as fileiras do desemprego. "Existe também um aspecto psicológico. Muita gente enfrenta dificuldades psicológicas para aceitar o fato de que está desempregada. Em uma companhia de transferência, elas não se sentem assim", afirma Jochen Bordt, 40, um instrutor de mecânica. "Não faz bem a uma pessoa se deixar afundar nesse buraco logo no começo".
Marul, casado e pai de dois filhos, trabalhou por oito anos na fábrica antes de sua demissão, e diz que era agradável ter um lugar para ir no qual pudesse encontrar os velhos amigos da linha de montagem. "Por oito anos, trabalhamos fazendo coisas juntos, e talvez possamos fazer o mesmo aqui", ele disse.
Nem todo mundo demonstra otimismo quanto a suas chances. Uwe Baier, 31, foi demitido em abril de um emprego em uma fábrica próxima a Reutlingen, que fabrica refrigeradores de óleo parta caminhões. Na MyPegasus, ele está aprendendo a utilizar máquinas-ferramenta computadorizadas pela primeira vez, o que ele elogia como uma importante habilitação para futuros empregos. Mas Baier afirma não acreditar que isso seja ajuda suficiente para que ele encontre um emprego na atual situação econômica.
"Para os próximos dois meses? Não ajudará muito", ele afirmou. "Eu diria que minhas chances são precárias".
Tradução: Paulo Migliacci M.E..
The New York Times
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