NY Times

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Segunda, 27 de julho de 2009, 15h38

FED muda de postura e usa Bernanke como "garoto-propaganda"

Ben Bernanke, o chairman do Federal Reserve (FED, o banco central dos Estados Unidos), está estrelando uma campanha publicitária, para difundir a mensagem de que a instituição existe para ajudar, e não é tão misterioso ou ameaçador quanto as pessoas poderiam supor.

Abandonando radicalmente a tradição de isolamento e sigilo que fez do banco central um templo dedicado à política econômica, Bernanke decidiu sair em público de maneira que nenhum de seus predecessores teria contemplado.

Deu uma entrevista ao programa 60 Minutes, na rede de televisão CBS, que incluiu entre outras coisas um passeio pela sua cidade natal, Dillon, na Carolina do Sul; concedeu o equivalente prático a uma entrevista coletiva televisada; e escreveu artigos para jornais a fim de explicar os esforços envidados pelo FED para combater a crise financeira.

No domingo, ele estabeleceu novo marco em sua evolução de líder do FED para garoto-propaganda, ao participar de uma conversa de uma hora com pessoas comuns, organizada e moderada por Jim Lehrer, o apresentador do programa The NewsHour, na rede de TV pública PBS.

Como um candidato em campanha política - seu primeiro mandato de quatro anos expira em janeiro -, Bernanke respondeu a perguntas de pessoas comuns e tentou refutar as acusações de que o FED estava ou conspirando com os grandes bancos ou sufocando o capitalismo de mercado, ou possivelmente fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

Quando um proprietário de pequena empresa perguntou a Bernanke por que o FED havia ajudado a resgatar os grandes bancos e "deixado na mão" as pequenas empresas, Bernanke respondeu que havia decidido "segurar o nariz", porque tinha medo de que o sistema financeiro inteiro entrasse em colapso.

"Eu me sinto tão repugnado por isso quanto você", disse. "Nada me enraiveceu mais do que ser forçado a intervir, especialmente em alguns casos nos quais as empresas haviam realizado apostas insensatas".

Diante de uma plateia formada por 190 pessoas de origens variadas, entre as quais universitários, assistentes sociais e empresários, Bernenke tentou mostrar a face humana do Federal Reserve.

Esforçou-se por reassegurar as pessoas de que a economia terminaria por reencontrar sua força "dentro de alguns anos", mas acautelou que o índice de desemprego provavelmente superaria os 10% antes que começasse a cair gradualmente, no ano que vem.

Pelo final da conversa, ele havia respondido a perguntas sobre execuções de hipotecas, riscos de inflação e as propostas do presidente Barack Obama para reformular o sistema de regulamentação financeira.

Foi algo que nenhum líder precedente do FED pensaria em fazer, mas na verdade serviu apenas como o mais recente exemplo dos esforços de Bernanke para se comunicar diretamente com o público. Na semana passada, por exemplo, ele publicou um longo artigo no Wall Street Journal, depôs diante de três diferentes comitês do Congresso e presidiu a uma reunião do FED na qual foram anunciadas novas regulamentações quanto à gestão de cartões de crédito.

O FED já tinha se aberto um pouco na década anterior à posse de Bernanke, e seu predecessor no posto, Alan Greenspan, se tornou um astro na sua longa passagem pelo comando da instituição. Mas os funcionários do banco central ainda se envolvem no manto do distanciamento tecnocrático, para isolar tanto as questões de política partidária quanto qualquer envolvimento com o dia-a-dia dos negócios. Quase nunca se pronunciam em público para além de discursos ou audiências legislativas estritamente controladas.

Os dirigentes do FED tomam suas decisões sobre as taxas de juros em reuniões fechadas, e as comunicam por meio de anúncios breves e enigmáticos, que os analistas decodificam avidamente nos dias que se seguem ao anúncio.

Mas esse distanciamento se tornou impossível nos dois anos transcorridos desde que a economia norte-americana foi arremessada à sua pior crise financeira desde a Grande Depressão. Hoje em dia, Bernanke e o FED estão envolvidos no resgate a instituições financeiras, na criação de volumes sem precedentes de instrumentos monetários e em operações com objetivo de preencher as lacunas deixadas pela paralisia dos mercados de capital.

Mesmo em momento econômico melhor, Bernanke, conduzido ao posto pelo presidente George W. Bush em 2006, enfrentaria pressão para difundir a mensagem da instituição. Seu mandato se encerra em janeiro, e Obama terá de decidir nos próximos meses se o aponta para novo mandato ou o substitui por alguém de sua escolha.

O FED jamais exerceu tamanho poder quanto agora, mas a expansão mesma de suas missões o expôs a mais críticas e contestações de sua independência política do que em qualquer momento do passado.

Trata-se de uma posição desconfortável para o FED, que sempre apreciou sua independência mas se viu forçado pela crise a colaborar intimamente com presidente e líderes políticos de ambos os partidos.

"O Federal Reserve, em colaboração com os gigantes bancários, criou a maior crise financeira que o mundo já viu", declarou o deputado federal Ron Paul, republicano do Texas, em audiência na Câmara uma semana atrás.

Os legisladores republicanos retratam o FED como a personificação do governo pesado, e apelaram por uma redução do poder regulatório do banco central.

Mas democratas de esquerda como o deputado federal Dennis Kucinich, do Ohio, acusaram o FED de ceder às exigências dos bancos por imensas injeções de capital de resgate, e de fracassar em proteger os consumidores contra produtos financeiros de riscos e manter excessivo sigilo quanto aos seus programas de resgate de emergência.

Cerca de 250 legisladores assinaram um projeto de lei apresentado por Paul que permitiria que o Serviço de Auditoria do Governo "auditasse" as decisões do FED sobre política monetária - proposta que os dirigentes do banco central consideram como ameaça direta à sua independência política para executar a missão primordial do banco, a de definir as taxas de juros.

Até mesmo os observadores mais simpáticos dos hercúleos desafios que Bernanke enfrenta reconhecem que o banco central perdeu ao menos parte de sua aura de infalibilidade.

"Quando acontece uma terrível confusão como essa, é improvável que aqueles que estão tentando aliviar os perigos causados por ela saiam da situação imaculados", disse o deputado federal Barney Frank, democrata de Massachusetts e presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara.

O chairman do FED e o banco central também se viram apanhados em meio a um tiroteio político sobre como reformar o sistema de regulamentação financeira dos Estados Unidos.

Obama propôs um plano abrangente que ampliaria os poderes do FED quanto a determinadas funções mas os reduziria com relação a outras. O plano anunciado pelo presidente atribuiria ao banco central a responsabilidade por regulamentar o risco sistêmico, exemplificado pelo acúmulo de hipotecas perigosas durante a bolha da habitação, e daria ao Fed poderes para impor regulamentação mais severa às instituições financeiras consideradas como grandes demais para falir.

Ao mesmo tempo, a proposta o governo privaria o FED da autoridade que este detém atualmente para regulamentar hipotecas e outras formas de empréstimos ao consumidor, entre as quais as práticas referentes a cartões de crédito. Esses poderes seriam atribuídos a uma nova agência regulatória, que teria como atribuição ampla a regulamentação dos produtos financeiros ao consumidor.

Bernanke apoia vigorosamente a ideia de atribuir ao FED a responsabilidade por regulamentar os riscos sistêmicos, mas tanto ele quanto outros dirigentes do banco central estão combatendo silenciosamente os planos do governo para a criação de uma nova agência de regulamentação do crédito ao consumidor. Isso o coloca em uma posição potencialmente desconfortável, porque sua postura corre o risco de alienar o mais importante dos apoios ao FED - o do presidente.

Sob o comando de Bernanke, o FED vem sendo de longe o mais poderoso agente do governo no combate à crise financeira. O banco central reduziu suas taxas de juros de curto prazo a virtualmente zero, e tentou causar uma queda nos juros de longo prazo por meio da compra de imensos volumes de títulos do Tesouro americano.

O FED também emprestou centenas de bilhões de dólares para escorar instituições financeiras ameaçadas, e assumiu os ativos problemáticos de empresas falidas como o Bear Stearns e a AIG. Por fim, o banco central começou a realizar empréstimos de forma direta, formando uma parceria com o Departamento do Tesouro para financiar imóveis comerciais, empresas de arrendamento mercantil de equipamentos, concessionárias de automóveis e pequenas empresas.

A vasta expansão das missões do FED, que Bernanke insiste em definir como temporária, atribuiu papel mais crucial que nunca ao banco central, mas também deixou a instituição mais exposta a dúvidas e críticas.

Tradução: Paulo Migliacci M.E.

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