Uma maioria substancial dos americanos acredita que o presidente Barack Obama não tenha desenvolvido uma estratégia para enfrentar o déficit orçamentário, de acordo com a mais recente pesquisa de opinião pública do New York Times e da rede de TV CBS, a qual constatou igualmente que o apoio aos seus planos de reforma do sistema de saúde, resgate à indústria automobilística e fechamento da prisão da Baía de Guantánamo, em Cuba, fica bem abaixo do índice geral de aprovação ao seu desempenho pelos eleitores.
Existe uma divergência clara entre a avaliação mais ampla de Obama e a maneira pela qual algumas de suas principais iniciativas estão sendo recebidas, já que menos de metade dos americanos afirma aprovar a forma pela qual ele está conduzindo a questão da saúde e o esforço para salvar a General Motors (GM) e a Chrysler.
A maioria dos entrevistados afirma que ou suas políticas ainda não tiveram efeito de melhora sobre a economia ou pioraram ainda mais a situação, o que sublinha até que ponto a força política do presidente deriva mais da fé em sua liderança do que de resultados concretos.
Enquanto Obama conclui seu quinto mês no posto e assume responsabilidade maior pelos problemas que herdou da passada administração, os americanos se sentem alarmados com os dispêndios de centenas de bilhões de dólares para estimular a economia. A maioria dos entrevistados disse que o governo deveria se concentrar, em lugar disso, na redução do déficit federal.
Com índice de aprovação de 63%, Obama mantém apoio pessoal considerável entre os eleitores democratas e independentes. Entre os republicanos, sua aprovação caiu de 44% em fevereiro a 23% este mês, um sinal de que seus esforços para superar as divisões partidárias pode se tornar uma meta inatingível.
A pesquisa foi conduzida depois que Obama concluiu sua quarta viagem internacional como presidente. Ele recebeu avaliações muito positivas pelo seu desempenho externo, com 59% dos entrevistados afirmando que apoiam suas abordagens de política estrangeira. E mesmo depois de semanas de intensas críticas de parte do antigo vice-presidente Dick Cheney e de outros líderes republicanos, 57% dizem aprovar a forma pela qual Obama vem enfrentando a ameaça de terrorismo.
A Casa Branca está iniciando um verão frenético, no qual muita coisa estará em jogo para a liderança do país. Obama promete levar adiante seus planos de reforma da saúde e da regulamentação do sistema financeiro, no Legislativo, e o Senado está se preparando para audiências quanto à nomeação de sua primeira indicada para a Corte Suprema.
A pesquisa sugere que os americanos continuam pacientes, ainda que uma forte maioria deles expresse forte preocupação quanto a possibilidade de que eles mesmos ou alguns de seus familiares próximos percam o emprego nos próximos 12 meses.
"Minha impressão é a de que Obama simplesmente está jogando dinheiro na parada, para resolver as questões, mas sem metas específicas", disse Lynn Adams, 62, republicana de Troy, Michigan, em entrevista posterior à pesquisa. "Mas eu continuo a lhe conceder o benefício da dúvida, porque ele não está no posto há tempo suficiente".
A juíza Sonia Sotomayor, indicada por Obama para a Corte Suprema três semanas atrás, continua em larga medida desconhecida do público, de acordo com a pesquisa. A maioria dos entrevistados, 53%, declarou não saber o bastante sobre Sotomayor, que seria o primeiro juiz de origem hispânica na Corte Suprema, para dizer se ela deve ou não ser confirmada. Mas 74% afirmam que é muito importante ou consideravelmente importante que a composição do tribunal reflita a diversidade do país.
Antes que o Senado vote sobre sua indicação, 48% das pessoas informam que era importante que estivessem informados sobre as posições da juíza sobre questões como o aborto e ação afirmativa.
A pesquisa nacional foi conduzida por telefone entre a sexta e a terça-feira, e envolveu 895 adultos. A margem de erro, nessa amostra, é de mais ou menos 3%.
A pesquisa destaca os desafios políticos e de governo que Obama terá de enfrentar no futuro próximo, entre os quais o imenso déficit público federal, que deve conduzir a dívida nacional a níveis que muitos economistas afirmam poderiam ameaçar a vitalidade econômica do país em longo prazo.
Cerca de 60% dos pesquisados afirmaram que o governo parece não ter desenvolvido ainda um plano claro para reduzir o déficit, e esse total sobe a 65% entre os eleitores independentes.
Obama, em entrevista na terça-feira à CNBC e New York Times, disse que o déficit orçamentário "é algo que me faz perder o sono".
Embora os republicanos venham reforçando fortemente suas críticas a Obama, especialmente quanto ao déficit, a pesquisa constatou que o Partido Republicano é visto de forma favorável por apenas 28% dos entrevistados, o menor total que a agremiação já registrou em uma pesquisa do New York Times e CBS. Em contraste, o estudo aponta que 57% dos eleitores têm opinião favorável sobre o Partido Democrata.
A indicação de uma nova juíza para a Corte Suprema, bem como o assassinato de um médico que realizava abortos no Kansas, no mês passado, geraram uma nova dinâmica no debate nacional sobre o aborto. Mas a pesquisa constatou que não existe mudança no que tange às posições mantidas sobre o aborto já há duas décadas, com 36% dos entrevistados afirmando que ele deveria ser usado de forma irrestrita, 41% dizendo que deveria ser usado com limites mais severos do que os hoje existentes e 21% dizendo que deveria ser proibido.
A indicação de Sotomayor também renovou a discussão sobre a questão da ação afirmativa. Metade dos pesquisados disseram apoiar programas que realizem esforços especiais para ajudar no avanço das minorias, e essa proporção sobe entre os entrevistados não caucasianos e as mulheres. Proporção muito superior, 80%, diz favorecer programas que ajudem os norte-americanos de baixa renda em geral a progredir, não importa seu sexo ou etnia.
As questões do aborto e da ação afirmativa mostram forte divisão entre os eleitores dos dois grandes partidos. Entre os democratas, 71% se opõem à reversão da decisão judicial que permitiu o aborto no país, enquanto os republicanos estão divididos praticamente ao meio quanto à questão. E 67% dos democratas apoiam a ação afirmativa para as minorias, enquanto 60% dos republicanos se opõem a esse tipo de programa.
Para além dessas questões, que Obama vem tentando evitar, o presidente enfrenta um público dividido, em seus esforços para executar a ordem executiva de fechar a prisão que abriga suspeitos de terrorismo na Baía de Guantánamo. A pesquisa constatou que 80% dos entrevistados expressaram preocupação quanto à possibilidade de que suspeitos entregues à custódia de terceiros países se envolvam em futuros ataques contra os Estados Unidos.
Metade dos respondentes afirmaram que fechar a prisão não influenciaria na proteção do país contra ameaças terroristas, mas 30% afirmam que consideram que a medida reduziria a segurança dos Estados Unidos. Muitos dos suspeitos detidos não foram acusados, e cerca de 70% dos entrevistados afirmaram que apoiavam a ideia de ou acusá-los ou devolvê-los aos países em que foram capturados. Apenas 24% consideram que os detentos devam continuar presos sem acusação pelo tempo que o governo venha a considerar necessário.
A pesquisa constatou que uma ampla maioria das pessoas que apoiam o fechamento da prisão afirma que sua posição não mudaria mesmo que os detentos fossem enviados a prisões de segurança máxima nos Estados Unidos.
"É um mau símbolo para o nosso país: dizer uma coisa e fazer outra", afirmou Roberta Hall, 73, eleitora democrata de Barboursville, Virgínia Ocidental. "Nós podemos transferi-los para cá. Somos bons em manter prisioneiros. É uma das coisas que fazemos melhor".
Tradução: Paulo Migliacci M.E.
The New York Times
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