NY Times

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Terça, 12 de maio de 2009, 20h06

Franceses procuram investimentos seguros nos pastos

Os franceses, conhecidos por sua desconfiança com relação aos bancos, não estão se limitando a guardar dinheiro embaixo do colchão, nesses ansiosos dias de recessão e de taxas de juros minúsculas. Também estão investindo em vacas.

Para Pierre Marguerit, 60, vacas representam um investimento seguro e garantido, que permite crescimento em longo prazo com um recurso natural renovável. Os contratos futuros de investimento no mercado bovino não representam novidade alguma, aliás; na era de Ricardo, Coração de Leão, a palavra francesa usada para designar gado, "cheptel", viria a resultar no moderno termo "capital".

Não estamos falando exatamente de vacas dos ovos de ouro. Mas o investimento de Marguerit em gado holstein propiciará retorno anual de 4% a 5% depois dos impostos, ele disse, com base no "crescimento natural", ou seja, a venda das crias. Isso se compara ao juro básico de 0,75% pago agora sobre os depósitos em conta-corrente na França.

No ano passado, o mercado de investimento bovino cresceu em 40%, e até agora este ano "praticamente dobrou", disse Marguerit, diretor executivo da Élevage et Patrimoine, uma empresa de investimento bovino localizada em St.-Victor-de-Cessieu, uma cidadezinha do leste da França, próximo aos Alpes. Marguerit também é presidente da Gestel, uma organização que trabalha com pecuaristas e investidores.

"As pessoas que economizaram dinheiro não desejam desperdiçá-lo", ele afirma. "As ações caíram muito, e as pessoas estão vendo. Precisamos de algum lugar em que investir nosso dinheiro em longo prazo, algo de estável".

No momento, existem 37 mil vacas cuja propriedade cabe a investidores, em cerca de 800 fazendas na França, de acordo com a Associação Francesa de Investimento em Gado. Mas o mercado potencial é imenso, insiste Marguerit, e pode envolver até um milhão de cabeças de gado na França e um total de seis milhões na Europa.

Um casal típico poderia comprar entre 10 e 20 vacas leiteiras ao preço de US$ 1,7 mil por animal, e decidir vender as crias a cada ano ou mantê-las na forma de "capital" adicional.

"Em um momento difícil como o atual, isso é um investimento muito mais seguro que os imóveis e muito mais tangível do que o mercado de ações", afirma Margerit. Ele prosseguiu elogiando o interesse que a sociedade vem demonstrando por "coisas naturais, orgânicas e duradouras", na França. Os franceses sempre fizeram uma imagem romântica do campo, e gostam de se imaginar como camponeses astutos. "Isso é parte de nosso patrimônio nacional", ele diz.

Em meio ao severo colapso financeiro, "estamos passando por um momento de compreensão -a queda foi dolorosa e as pessoas estão se fazendo perguntas difíceis", afirma. E por que não diversificar uma carteira de investimentos optando pelo gado?

Para Richard Durand, o arranjo libera capital para melhorias em sua pequena fazenda de pecuária em St.-Victor-de-Cessieu, uma área de cerca de 200 hectares em uma região bastante rural cerca de 56 kms ao sudeste de Lyon.

Ele fornece às suas 100 vacas holstein o melhor que pode em todas as categorias de insumos, o que inclui uma bela vista das montanhas e pradarias nas quais elas passam os meses de verão. Elas podem até recorrer a uma massagem - uma escova redonda e grande afixada a uma cerca, contra a qual podem se esfregar quando desejam.

Durand deu à sua propriedade o nome "fazenda das vacas felizes", e elas realmente parecem satisfeitas, até onde se pode determinar. Ele "aluga" 37 dos seus 100 animais, aos quais conhece pelos nomes, e não apenas pelas etiquetas numeradas afixadas às orelhas como grandes brincos plásticos. Sua favorita parece ser Tartine, uma vaca holstein marrom e branca que gosta de cafunés.

Durand, 48, subiu na vida recentemente. "Até os 42 anos, eu ainda cheirava a vacas", ele afirma, descrevendo como limpava os cascos com as mãos e exibindo o moderno carrinho sobre trilhos que opera em seu novo paiol para varrer os excrementos e a palha suja deixados por todas aquelas vacas felizes. Agora ele se limita a produzir queijo, enquanto outros funcionários cuidam de limpar a sujeira e realizar as duas ordenhas diárias. O fromage blanc excelente que produz, bem como sua manteiga e iogurte, são vendidos em mercados locais de produtos artesanais, e a maior parte dos quase 800 mil litros de leite que obtém ao ano é vendida à cooperativa local.

Criar vacas que são propriedade de terceiros lhe propicia mais deduções tributárias e libera até 17% de seu capital para melhorias e investimentos, diz Durand, cujos três filhos deixaram a fazenda e não querem trabalhar em pecuária. Os animais são simpáticos, mas ele admite que um tanto tediosos. "Passam oito horas por dia dormindo, oito horas comendo e oito horas ruminando", afirmou. Já ele trabalha das 5h30 às 19h.

Em uma pequena oficina anexa ao paiol, ele tem uma lista de expressões idiomáticas francesas que se relacionam a vacas. Ele aponta para uma: "época de vacas magras" - um período que requer apertar os cintos.

Tradução: Paulo Migliacci ME

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