NY Times

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Terça, 12 de maio de 2009, 19h30

Rússia forma estoques de diamantes, à espera de demanda

A recessão mundial abateu a demanda por toda espécie de commodity - por exemplo aço ou cereais -, mas pequenos sacos de aniagem continuam a chegar em aviões lotados à estatal de diamantes da Rússia.

A cada dia, o conteúdo dos sacos é despejado em baias de aço inoxidável na sala de recepção. Os diamantes são lavados e separados com base em seu tamanho, claridade, forma e qualidade. Depois, em lugar de serem vendidos em todo o mundo, são embrulhados em papel e guardados em um cofre - cerca de três milhões de quilates de pedras preciosas a cada mês.

"Cada um deles é tão incomum", disse Irina Tkachuk, uma das poucas centenas de pessoas, a maioria das quais mulheres, empregadas na separação de diamantes - milhares deles a cada dia.

"Não sou um robô. De vez em quando penso que um daqueles diamantes é muito bonito, e que gostaria de tê-lo. São todos tão bonitos", ela diz. Mas pode levar anos para que outra mulher tenha a oportunidade de admirar a pedra preciosa.

A Rússia este ano estabeleceu discretamente um marco histórico: sobrepujou a De Beers como maior produtora mundial de diamantes. Mas o mercado mundial para esse produto anda tão desanimador que a ALROSA, a empresa de diamantes na qual o governo russo detém 90% das ações, decidiu suspender as vendas de diamantes brutos ao mercado desde dezembro. Em lugar disso, optou por formar um estoque.

Como resultado, a Rússia se tornou o árbitro dos preços mundiais dos diamantes. As decisões do país sobre produção e vendas determinarão o valor dos diamantes em anéis e joalherias, nos próximos anos, em uma das mais surpreendentes consequências da recessão.

Em larga medida devido ao desânimo no mercado de joias, o desempenho da De Beers despencou. Desprovida de reservas de caixa, a empresa teve de apelar aos seus acionistas por US$ 800 milhões em aportes de capital, nos últimos seis meses.

A recessão também coincidiu com um acordo entre a empresa e as autoridades antitruste europeias, para por fim á já antiga prática da De Beers de formar estoques de diamantes para, em cooperação com a ALROSA, manter os preços das pedras elevados.

Ainda que seja uma importante produtora de commodities, a Rússia tradicionalmente não adere a manobras políticas para manter preços elevados. No caso do petróleo, por exemplo, o país se beneficia dos cortes de produção ditados pelo cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), mas não é parte dele. Os diamantes constituem uma exceção.

"Se você não tomar medidas de sustentação dos preços", disse Andrei Polyakov, porta-voz da ALROSA, "um diamante se torna um simples pedaço de carbono".

Para sua tentativa de calibrar sua reentrada no mercado mundial sem forçar baixa ainda maior de preços, a Rússia depende de duas coisas: o depósito de pedras preciosas criado na era soviética para abrigar joias confiscadas dos aristocratas depois da revolução de 1917, e investidores capitalistas, que a ALROSA espera venham a adquirir diamantes para investimento, como fazem com o ouro. A Rússia também está assumindo papel de liderança em outros campos.

Sergei Vybornov, presidente-executivo da ALROSA, disse ter ajudado a persuadir o banco central de Angola - um país que, como a Rússia, continua a reter reservas consideráveis geradas pelo boom do petróleo - a adquirir 30% dos diamantes produzidos nas minas do país e manter as pedras fora do mercado.

No final do ano passado, a ALROSA adotou a chamada Iniciativa de São Petersburgo, em companhia da De Beers e de outros grandes produtores, para promover campanhas de publicidade genéricas sobre os diamantes, exemplificadas pela campanha "os diamantes são para sempre", concebida pela De Beers. A Rússia passou a se encarregar dessa tarefa porque a De Beers agora está concentrada em promover as pedras vendidas sob sua marca.

Depois do colapso da União Soviética, o setor russo de diamantes criou uma aliança formal com a De Beers, vendendo à empresa sul-africana metade de sua produção a cada ano, por um preço inferior ao do mercado. A diferença de preço servia para subsidiar a publicidade genérica de diamantes que a De Beers começou a realizar em diversos mercados, especialmente o dos Estados Unidos, nos anos 90. Agora, cabe aos russos comandar esses esforços.

Charles Wyndham, ex-avaliador de diamantes da de Beers e co-fundador do grupo Polished Prices, diz que a Rússia até o momento vem apresentando um bom desempenho nessa posição, ao optar por manter as pedras e lucrar mais no futuro em lugar de deprimir ainda mais o mercado atual.

"Não importa o que mais se diga sobre os russos, uma coisa é certa: eles não são estúpidos", disse Wyndham.

Para promover a retomada da demanda, a ALROSA está vendendo diamantes sob contratos de longo prazo a atacadistas na Bélgica, Israel, Índia e outros países. Os seis contratos assinados até agora fixam preços a meio do caminho entre o pico do mercado, em agosto, e a cotação deprimida do começo deste ano, e serão válidos por um período de diversos anos.

Tradução: Paulo Migliacci ME

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