Em um momento no qual Sergio Marchionne, o presidente-executivo da Fiat, vem sendo visto como potencial salvador da Chrysler, nos Estados Unidos, políticos, executivos e líderes sindicais alemães encaram com muito mais ceticismo a oferta dele pela Opel e pelas demais operações europeias da General Motors.
Conquistar uma vasta proporção do império ultramarino da GM, com ajuda do governo alemão, seria um passo importante nos esforços de Marchionne para criar uma gigante mundial do setor automotivo mas sem recorrer às reservas de caixa de sua empresa.
Na Alemanha, a necessidade de proteger a Opel e os 25 mil empregos que a montadora gera se tornou uma importante questão política à medida que começa a esquentar a campanha para as eleições gerais marcadas para setembro.
Logo depois de confirmar seu sucesso na aquisição de uma participação de 20% na Chrysler, bem como na obtenção de mais bilhões de dólares em empréstimos do governo norte-americano para a montadora agora concordatária, Marchionne viajou à Alemanha, na semana passada, para tentar promover um acordo semelhante envolvendo a Opel e as demais operações européias da GM.
Líderes alemães, executivos da Fiat e os dirigentes da GM estão tentando chegar a um acordo antes de 1° de junho, quando se esgota o prazo que a Casa Branca concedeu à GM para que ela chegue a um acordo com seus credores e seus sindicatos, e evite uma concordata. Mas funcionários do governo e representantes dos sindicatos da Alemanha parecem encarar Marchionne com mais desconfiança do que seus colegas americanos.
Marchionne está solicitando até sete bilhões de euros em assistência financeira a fim de ajudar a Opel a superar a atual baixa nas vendas, reorganizar suas operações industriais e reduzir sua força de trabalho -propostas que são dispendiosas na Europa continental, onde as vendas de automóveis despencaram e as normas governamentais e sindicais tornam difícil demitir.
Mas representantes dos sindicatos e do governo afirmaram que as reuniões que realizaram com a Fiat não os convenceram, e acrescentaram que o plano, o chamado Projeto Fênix, não havia sido apresentado com detalhes suficientes para satisfazê-los, apesar das promessas de Marchionne de que limitaria ao mínimo as demissões e fechamentos de fábricas na Alemanha.
"Tenho mais perguntas que respostas, e as respostas que tenho não convencem", disse Klaus Franz, principal dirigente sindical da Opel e vice-presidente do conselho da companhia. "Não digo que esteja recusando a idéia, nessas circunstâncias, mas acredito que ela seja um conceito para salvar a Fiat, e a não a Opel ou a GM na Europa". Um porta-voz da Fiat se recusou a discutir o Projeto Fênix ou as negociações na Alemanha.
Na segunda-feira, Fritz Henderson, presidente-executivo da GM, disse que apelaria ao governo alemão por financiamento às operações européias da montadora, quer seja, quer não seja fechado o acordo de venda da Opel à Fiat. "Temos necessidade de recursos financeiros para as nossas operações na Europa, e ela é importante e urgente", disse Henderson em coletiva telefônica. "Precisamos do apoio deles na forma de verbas".
Ele afirmou que a GM poderia trabalhar com um parceiro por meio de uma "estrutura de divisão de poder", e mencionou o sucesso das joint ventures que a companhia opera na China e na Coréia do Sul.
Não é provável que a GM inclua suas tradicionalmente lucrativas subsidiárias latino-americanas como parte de qualquer transação que envolva suas operações européias - e elas seriam uma das presas mais importantes para a Fiat, que já mantém operações importantes na região.
"Nossos negócios na América Latina vêm contribuindo de maneira sólida para a empresa nos últimos anos", afirmou Henderson. "Trata-se de um negócio que conhecemos bem, que temos mantido por um longo tempo e que apreciamos muito".
A GM está exigindo uma participação acionária no novo grupo automobilístico que a Fiat deseja criar, em troca de suas operações na Europa e América Latina, mas os dois grupos continuam muito distantes de um acordo. A GM deseja pelo menos 30% de participação na nova companhia, e Marchionne está disposto a oferecer menos de 10%.
O presidente da Fiat vem argumentando há muito que a consolidação é vital para restaurar a lucratividade do setor automobilístico mundial, em longo prazo.
De acordo com um resumo do Projeto Fênix apresentado por executivos da Fiat e obtido pelo New York Times, a nova empresa seria comandada pelo grupo automobilístico da Fiat e incluiria as marcas Opel e Vauxhall, que a GM opera na Europa, e as operações da montadora na América Latina e na África do Sul.
A Fiat reteria o controle da Ferrari e da Maserati, suas marcas de alto luxo, bem como de sua produtora de equipamentos agrícolas, e seria acionista majoritária da nova em presa.
Caso a Fiat venha a conquistar o controle da GM na Europa e na América Latina, além de sua nova participação na Chrysler, a companhia combinada produziria 6,4 milhões de automóveis ao ano. Isso a deixaria ainda atrás da Toyota, mas à frente de Volkswagen, Renault, GM e Ford.
O presidente da Fiat abordou Franz com uma promessa de que, unidos, poderiam enfrentar a Volkswagen, hoje a maior montadora de automóveis da Europa. "Ele veio bem preparado", acrescentou Franz.
Na sexta-feira, Marchionne se reuniu com Roland Koch, governador do Estado alemão de Hesse, que abriga a sede da Opel, bem como com Kurt Beck, governador do estado da Renânia-Palatinado, onde a montadora opera uma grande fábrica de motores na cidade de Kaiserslautern.
Marchionne defendeu vigorosamente o Projeto Fênix, nas reuniões, mas isso só gerou temores de novas demissões profundas no futuro, de acordo com um dirigente presente. "A Fiat não ofereceu detalhes suficientes, e temos mais questões", ele afirmou, pedindo que seu nome não fosse revelado porque as negociações continuam.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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