Em uma pequena sala de reuniões sem janelas, os nove membros da diretoria executiva da Ram Tool estavam discutindo que funcionários deveriam ser demitidos, na mais recente rodada de cortes da empresa. Debateram a lista nome a nome, e ponderaram questões como senioridade e capacitação. O funcionário era capaz de realizar mais de uma função? E sua assiduidade, era boa?
Por fim, depois de três dias de discussões, eles finalizaram uma lista, e coube a Shelly Polum, a vice-presidente de administração dessa pequena companhia familiar fabricante de ferramentas e gabaritos, sediada em Grafton Wisconsin, informar aos quatro operários que seriam demitidos. Ela compôs uma expressão que seu marido define como "cara gélida" e entrou na fábrica para conversar com o pessoal.
Ao final da conversa, ela correu de volta para seu escritório e fechou a porta, tentando manter a compostura. Mas não conseguiu e caiu ao chão, chorando.
"Foi o acúmulo de emoções", ela revelou mais tarde. "Creio que o que realmente me abalou foi o fato de que eu desejava que aquela fosse a última vez. Eu não sabia se os cortes eram suficientes, se tínhamos chegado ao fim disso. Acho que esperava acima de tudo nunca mais ter de passar por isso".
Desde que a economia entrou em queda livre, em setembro passado, coube a Polum a tarefa de demitir 26 trabalhadores. É uma missão delicada e muitas vezes dolorosa, que vem sendo realizada em todo o país por proprietários de empresas, executivos de recursos humanos e outros dirigentes, e seu custo emocional é elevado. Isso é especialmente verdade em empresas pequenas e médias com menos de 500 funcionários como a Ram Tool, que empregam metade dos trabalhadores do setor privado norte-americano e nas quais os cortes são muitas vezes assunto bastante pessoal.
Charlie Thomas, vice-presidente da Shuqualak Lumber, em Shuqualak, Mississipi, teve de demitir quase um quarto de sua força de trabalho, que costumava ser formada por 160 pessoas, no final de outubro. Em janeiro, ele demitiu mais alguns funcionários.
Para as demissões de outubro, ele escreveu um discurso para o pessoal, que convidou a se reunir no pátio da serraria. Pela metade do texto, ele perdeu o controle de suas emoções e teve de voltar ao escritório para se recompor. "Não conseguia mais falar", diz. "Fiquei arrasado".
A Ram Tool, fundada cerca de 30 anos atrás por Roy Kannenberg, pai de Polum, na garagem de sua casa, tinha quase 100 funcionários, poucos anos atrás, mas o total agora se reduziu a cerca de 50.
Os clientes da empresa vêm de setores como o petróleo e gás natural, construção e indústria automobilística, todos os quais fortemente prejudicados pela crise econômica. As vendas, que começaram a perder o ímpeto na metade do ano passado, caíram à metade, e a empresa está enfrentando dificuldades para sobreviver. Depois de reduzir as jornadas de trabalho e realizar outros cortes de despesas, foi necessário iniciar o processo de demissões em outubro, com uma primeira rodada de cortes.
Nas reuniões da diretoria, cada membro, equipado com uma lista de funcionários divididos por departamento, sugeria cortes. Cada nome era votado; alguns escapavam ao corte, e outros terminavam acrescidos à lista.
Os funcionários com capacitações diversificadas eram privilegiados. Um deles foi salvo da demissão porque tinha carteira de motorista comercial, e por isso também podia fazer entregas.
Mas havia dilemas impossíveis - o que fazer quando a dois funcionários igualmente apreciados quando um deles era solteiro e o outro tinha família a sustentar; ou como ponderar o equilíbrio entre o talento de um funcionário e seu custo.
Assim que uma lista inicial de nomes foi preparada, o pequeno grupo de familiares que controla e dirige a empresa se reuniu de novo para finalizar os cortes. Nos últimos meses, eles aprovaram até a demissão de dois de seus parentes.
Na manhã dos mais recentes cortes, no final de março, Polum convocou uma reunião de funcionários no refeitório. Explicou a deterioração na situação financeira da companhia e informou que algumas pessoas teriam de ser cortadas.
Em lugar de chamar os demitidos ao seu escritório, como fazia no passado, Polum tem comunicado as demissões a eles quando lhes entrega seus cheques-salário.
Antes de entrar na fábrica, ela escreveu na palma da mão os nomes dos trabalhadores a quem teria de comunicar a má notícia. "Quero garantir que eu informe as pessoas certas", explicou.
Foi depois de conversar com o último nome da lista que ela não conseguiu mais conter a emoção. O funcionário demitido e sua mulher cuidam de diversas crianças adotivas. Mesmo que o departamento dele venha apresentando maus resultados há meses, a direção o poupou deliberadamente em rodadas anteriores de cortes.
"Nós todos estávamos evitando essa questão", disse Mike Kannenberg, irmão de Polum e encarregado da parte industrial da companhia.
Mas na mais recente rodada de cortes, os dirigentes chegaram à conclusão de que não lhes restava escolha. O trabalhador perdeu a calma com Polum, perguntando como ela esperava que sustentasse sua família.
Polum murmurou um pedido de desculpas, com uma expressão de profunda culpa. Os funcionários da Ram, ela disse depois, "são como parte da minha família. Estamos juntos há muito. Protegê-los era meu dever".
Ela tenta ter em mente que está fazendo o necessário para manter a empresa à tona. Mas há momentos em que isso não oferece grande consolo.
Ao correr de volta ao seu escritório naquela manhã, Polum ignorou um colega que perguntou se estava tudo bem. Ela fechou a porta e caiu ao chão, chorando.
"Espero que tenhamos chegado ao fundo do poço", disse. "Sinto que podemos ver a luz. Talvez a crise tenha acabado. Talvez tenhamos passado pelo pior. É o que espero".
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times
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