Quando se acomodou no Gabinete Oval para uma conversa pelo telefone com delegação de legisladores de Michigan ao Congresso Federal, o presidente Barack Obama já havia tomado a sua decisão. Alguns dias antes, ele havia decidido que queria a demissão do presidente-executivo da General Motors (GM), e que a daria a ela e à Chrysler um prazo de apenas algumas semanas para preparar planos que permitissem sua recuperação. Caso as duas montadoras se provassem incapaz de fazê-lo, Obama estava disposto a permitir que caíssem em concordata, uma perspectiva que acarretaria sérias conseqüências políticas e econômicas.
Alguns dos legisladores que participaram da conversa telefônica, em uma noite de domingo em março, imaginaram que o presidente estivesse blefando. Presidente algum jamais permitira que uma das três grandes montadoras de automóveis dos Estados Unidos quebrasse, e Obama certamente não gostaria de quebrar esse precedente.
"O senhor precisa fazer afirmações como essa para forçar as pessoas a aceitar a negociação, e nós compreendemos", disse o deputado Sander Levin, democrata do Michigan, ao presidente, de acordo com duas pessoas que ouviram a conversa.
Obama imediatamente corrigiu a afirmação: "Não quero que vocês deixem essa conversa levando uma impressão errada", disse o presidente. "Se fiz essa afirmação, é porque a possibilidade de que isso venha a acontecer é real".
A crise no setor automobilístico vem testando os limites quanto à abordagem ativista adotada pelo novo presidente, e quanto à precisão de seus instintos políticos. Como no caso de muitas outras das questões que surgiram durante seus primeiros e movimentados 100 dias de governo, Obama teve de enfrentar escolhas que poucos de seus predecessores se viram forçados a encarar.
A intervenção que o governo vem empreendendo sob seu comando em um dos setores que simboliza de maneira mais intensa a história econômica dos Estados Unidos oferece um bom exemplo quanto à educação, o estilo de gestão e o processo decisório do novo presidente.
Instruído por veteranos de passados governos, Obama muitas vezes dedica as horas posteriores ao jantar com sua família à leitura de documentos de instrução, e é comum que à meia-noite ainda esteja acordado, lendo tudo que puder para se familiarizar com as complexas questões da indústria automobilística.
No entanto, ele encarregou seus assessores de conduzir os contatos com as montadoras de automóveis, e jamais conversou em pessoa com o presidente-executivo da GM que terminou demitido, na prática, por decisão de Obama.
Metódico e extremamente racional, Obama causou irritação a muitos dos poderosos líderes do Congresso e entre os sindicatos que ajudaram a elegê-lo, mas sempre agiu de maneira a atenuar esses conflitos. Ele encoraja o debate interno, mas se viu forçado a agir de maneira a reduzir as tensões de um potencial confronto entre seu secretário de Tesouro e seu principal assessor econômico. No fim, ele enfrentou dificuldades para encontrar o equilíbrio correto entre o poderio do governo e as forças de mercado, exatamente o tema que parece definir seus primeiros meses de mandato.
"As questões eram óbvias - equilibrar seu interesse em que as companhias sobrevivessem e prosperassem, em benefício de seus operários e das comunidades em que elas atuam, e de todos os negócios secundários a elas vinculados, por um lado, e os interesses dos contribuintes norte-americanos como um todo, por outro", disse David Axelrod, o principal assessor de Obama. "E, sobreposta a tudo isso, havia a questão quanto ao momento certo de o governo intervir".
Mas apesar de toda a confiança de Obama - alguns amigos chegam a defini-la como empáfia-, existe um presidente que quatro anos atrás era apenas um deputado estadual no Illinois, e está aprendendo ao fazer. Os instintos de Obama favorecem soluções de compromisso, como seu relacionamento com o Congresso parece provar regularmente, mas isso faz com que existam dúvidas quanto à sua disposição de encarar interesses poderosos.
Agora que a GM e a Chrysler estão se reestruturando como Obama exigiu, o sucesso final de sua estratégia dependerá, em parte, de até que ponto ele esteja disposto a ir para enfrentar grupos de interesses como os sindicatos, que têm importância vital para sua posição política.
Obama fez com que o governo avançasse ainda mais por uma estrada na qual o país controla participações substanciais nos setores bancários e de seguros e agora pode se tornar acionista majoritário da GM.
Os críticos advertem que ela pode estar exagerando. "Estamos cruzando limites que não são normais neste país", disse o senador Bob Corker, republicano do Tennessee.
Tradução: Paulo Migliacci ME
The New York Times