NY Times

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Quinta, 30 de abril de 2009, 18h50

Paquistaneses ganham US$ 1 mi anuais com produtos de fetiche

No Paquistão, chibatas são usadas apenas como o chicote predileto do Taleban para espancar aqueles que desafiam os severos códigos do islamismo. Mas na capital comercial do país, Karachi, bem ao lado de uma mesquita e da sede de uma organização islâmica radical, em uma casa sem identificação, dois irmãos paquistaneses descobriram uso mais liberal e lucrativo para esse tradicional instrumento de disciplina: a indústria do fetiche e bondage do Ocidente, que movimenta US$ 3 bilhões ao ano.

A lojinha de roupas que eles operam, chamada AQTH, fatura mais de US$ 1 milhão ao ano fabricando dois mil modelos diferentes de produtos de disciplina e fetiche, entre os quais a chibata Mistress Flogger, para exportação aos Estados Unidos e Europa.

Os irmãos Qadeer -Adnan, 34 anos, e Rizwan, 32 anos- transformaram o seu negócio em uma história de improvável sucesso em um país no qual bares são ilegais e os pobres estão muitas vezes condenados à miséria perpétua.

Se o setor de produtos para fetiche parece uma atividade improvável para dois jovens paquistaneses de origem humilde, contidos, ligeiramente desajeitados e sempre impassíveis, podem ter certeza de que de fato é. Mas a discrição sempre foi sua senha. Os irmãos tomaram medidas extremas para manter oculto um negócio que, em um país profundamente muçulmano como o deles, é não só ousado como arriscado.

Um fator positivo é que as dezenas de operárias de baixo nível educacional que trabalham, veladas, na montagem dos produtos que eles vendem não façam idéia da finalidade a que os objetos servem. Nem mesmo as mulheres dos dois proprietários, ou sua mãe, que é conservadora e segue estritamente as normas muçulmanas, estão cientes do verdadeiro propósito dos produtos que a família comercia.

"Se nossa mãe soubesse, nos expulsaria da família", disse Adnan, sentado em uma cadeira revestida de um tecido com estampa de leopardo.

"Devido a barreiras culturais e religião, as pessoas não discutem essas coisas abertamente", disse Rizwan. "Queremos manter essa informação oculta".

Os funcionários da alfândega paquistanesa também ficaram perplexos e não sabiam como tributar os produtos, por não saberem exatamente de que se tratava, dizem os irmãos.

Recentemente, quando uma funcionária curiosa perguntou qual era o propósito de uma espécie de saco de dormir usado em certas formas de bondage, foi informada que servia para transportar corpos de soldados norte-americanos mortos no Iraque.

Adnan Ahmed, ex-controlador de tráfego aéreo e hoje vice-presidente de operações da AQTH, define os produtos como roupas de baixo. Quando perguntado se considera uma máscara de couro vermelho brilhante como roupa de baixo, sua resposta é direta e honesta: "Não. É um produto para brincadeiras".

Ainda assim, ocasionalmente escapam algumas informações sobre o negócio. No ano passado, quatro "homens poderosos" de um grupo muçulmano conservador ameaçaram queimar a fábrica se ela não fosse fechada dentro de uma semana. Os irmãos explicaram a eles, calmamente, que aquilo era apenas um negócio, e que os itens não eram usados no Paquistão. No dia seguinte, subornaram uma organização política islâmica a fim de garantir sua segurança.

Hoje em dia, o perigo mais grave que existe no Paquistão é a economia precária. Os dois irmãos têm como ídolo o ex-presidente Pervez Musharraf, e creditam seu sucesso às políticas de desregulamentação e abertura de mercado que ele implementou, como a suspensão das licenças de exportação obrigatórias e a proibição à formação de sindicatos. Quando Musharraf renunciou, no ano passado, os dois irmãos passaram "três dias sem comer", conta Adnan.

Desde que o presidente Asif Ali Zardari assumiu o posto, disse Adnan, os sindicatos voltaram a ser permitidos, os preços de algumas das matérias-primas, entre as quais o couro, dispararam, e as taxas de juros não param de subir. O resultado: uma queda de 15% nos lucros da AQTH.

Ecoando os temores generalizados dos empresários de todo o país, os irmãos estão considerando transferir seu negócio a outro país asiático caso o Paquistão se torne mais instável ou eles recebam novas ameaças.

A fábrica desmazelada que operam parece um tributo às suas origens humildes. O banheiro executivo da Adnan não tem papel higiênico. Rizwan não tem escritório. E seu almoço predileto é o fast food do Kentucky Fried Chicken.

A inspiração para o sucesso veio do pai, um funcionário público que sustentava a família de seis pessoas com um salário mensal de US$ 150. Enquanto outras crianças se viam forçadas a procurar empregos, ou passavam o dia brincando, à toa, os irmãos Qadeer eram obrigados a estudar.

Em 2001, quando se formaram na faculdade, o pai lhes emprestou US$ 800, o que bastou para que comprassem seu primeiro computador e pagassem alguns meses de aluguel em um pequeno apartamento. Lá, eles passavam horas pesquisando na Internet sobre produtos têxteis de alto preço e não muito produzidos.

Primeiro tentaram a sorte com produtos convencionais de couro, como jaquetas e calças. Adnan dormia em fábricas infestadas de mosquitos para supervisionar a produção de amostras que terminaram por se provar mais caras do que as fabricadas pelos concorrentes chineses.

"Foi um período muito difícil", diz Adnan. "Não tínhamos dinheiro algum, nem para abastecer nossa moto".

"As pessoas costumavam dizer que é impossível fazer negócios no Paquistão, e que estávamos desperdiçando nosso tempo, e diziam que deveríamos procurar emprego", conta Rizwan. "Mas nosso pai sempre manteve nosso entusiasmo".

Os irmãos declaram que os métodos de produção "da idade da pedra" em uso no Paquistão terminaram por beneficiá-los. Falta ao país, eles alegam, uma visão mais ampla quanto ao desenvolvimento de produtos. "Todo mundo continua a fazer sempre os mesmos produtos", declarou Adnan.

Foi então que, em uma de suas incursões pela internet, eles descobriram uma peça de roupa parecida com uma camisa-de-força. Inicialmente, aliás, eles acreditavam que a peça fosse reservada a pacientes psiquiátricos, mas não demorou para que a descoberta os apresentasse ao lucrativo mundo dos produtos para fetichistas.

Hoje, eles vendem seus produtos a lojas online, a lojas convencionais e diretamente para clientes individuais, por intermédio do eBay. As pesquisas de mercado que conduziram, dizem os irmãos, apontam que 70% de seus clientes são norte-americanos de classe média ou classe alta, e que a maioria desses consumidores vota nos democratas. Holanda e Alemanha respondem pela maior parte das vendas de sua empresa na Europa.

"Nós realmente acreditamos que, caso você seja persistente e trabalhe com afinco, existem oportunidades, por mais adverso que seja o ambiente, e mesmo em um ambiente economicamente deprimido como o do Paquistão", disse Rizwan.

Uma grande vantagem do seu sucesso, dizem, é que ele permite o comparecimento a feiras internacionais de produtos eróticos, para verificar como a linha que a AQTH fabrica funciona em ação.

"Fui a Sin City este ano", diz Rizwan, com um sorriso envergonhado, se referindo a Las Vegas. Mas seu objetivo é estritamente comercial, diz. "Os clientes conhecem nosso país e nossa cultura e não nos convidam a participar de nada. Somos um pouco tímidos".

Tradução: Paulo Migliaci ME

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