Frédéric Bobin
Estabelecimento portador de cinco estrelas, o Marriott, em companhia do Serena, é o hotel mais prestigioso de Islamabad e serve de ponto de encontro preferencial à elite paquistanesa e aos mais importantes visitantes estrangeiros do país. O embaixador tcheco em Islamabad, dois militares norte-americanos e um cidadão vietnamita estão entre as vítimas fatais do ataque; um agente do serviço de informações dinamarquês está desaparecido.
Se a analogia com o 11 de setembro de 2001 pode ser justificada pelo fato de que o atentado tomou por alvo um símbolo de poder e prestígio e pelo caráter excepcional do ataque - o caminhão carregado com 600 kg de explosivo criou uma cratera de 8 m de profundidade ao ser detonado -, resta ainda determinar se o paralelo vai se estender à avaliação da estratégia do governo para o combate ao terrorismo do governo paquistanês. Será que passará por revisão radical, como aconteceu nos Estados Unidos?
O tema ocupará posição central no encontro previsto para hoje em Nova York, durante a sessão da Assembléia Geral das Nações, entre os presidentes George W. Bush e Asif Ali Zardari, que acaba de ser eleito como chefe de Estado do Paquistão e ocupa posição política bastante precária.
A questão toda gira em torno de determinar se o atentado contra o Marriott resultará em aproximação maior ou, possivelmente, em afastamento maior entre os dois governos, cujo relacionamento vem atravessando um período de especial turbulência nos últimos meses. Desde o começo de setembro, forças militares norte-americanas vêm multiplicando o número de incursões nas zonas tribais paquistanesas, onde as redes terroristas da Al-Qaeda e grupos vinculados ao movimento Talibã dispõem de verdadeiros santuários, que servem de base para a insurreição afegã.
Zardari, o primeiro-ministro Youssouf Raza Gilani e Ashfaq Pervez Kayani, o chefe de estado-maior do exército paquistanês, não param de denunciar essas "violações da soberania nacional do Paquistão", mas a opinião pública paquistanesa, que ostenta fortes sentimentos de rejeição aos Estados Unidos, considera que a reação das autoridades é temerosa e que os protestos não passam de formalidade.
Nesse contexto, será que o atentado contra o Marriott fará com que Zardari radicalize sua posição de crítica a Washington, sob o raciocínio de que foram as operações militares norte-americanas nas fronteiras do país que desestabilizaram ainda mais a situação de segurança interna paquistanesa? A conexão entre o atentado e as zonas tribais - conhecidas como Fata, acrônimo para áreas tribais sob administração federal, no jargão do governo paquistanês - parece evidente às autoridades de Islamabad. O ministro do Interior paquistanês, Rehman Malik, afirmou que "todas as pistas de que dispomos nos conduzem às Fata".
Sob evidente pressão norte-americana, o exército paquistanês terminou por montar uma ofensiva na região tribal de Bajaur - onde os combates causaram cerca de 800 mortos e deixaram 300 mil pessoas desabrigadas. Outros ataques foram realizados no vale de Swat. "É necessário suspender as ofensivas militares em Bajaur e Swat e entabular negociações de paz", é a análise da situação proposta por Mohammad Inram, jornalista da Dawn - TV e especialista na atuação dos grupos islâmicos paquistaneses.
Zardari compreenderá esse "recado" ou, diante da escalada do terrorismo, se deixará convencer pelos adeptos da linha dura, defensores de um estreitamento maior da cooperação com os norte-americanos? As reações da imprensa paquistanesa ao atentado, na segunda-feira, oferecem um vislumbre da força da corrente de opinião que imputa aos norte-americanos a responsabilidade pelo caos que o Paquistão está vivendo.
"O Ocidente, sob direção dos Estados Unidos, está na raiz daquilo que vem acontecendo em nosso país", afirma um artigo no jornal "Pakistan Observer". "E não haverá paz ou tranqüilidade no Paquistão enquanto os Estados Unidos continuarem sua ocupação militar do nosso vizinho Afeganistão". Já The News afirma, de sua parte, que Zardari deveria defender de maneira mais aberta os interesses paquistaneses.
O chefe de Estado paquistanês, recomendou o jornal, deveria exigir que Bush "deixasse o Paquistão em paz", porque caso não o faça, "pareceria um governante sem coragem". A maior parte dos analistas paquistaneses demonstra ceticismo, ainda assim, quanto à capacidade dos dirigentes de Islamabad para resistir às pressões norte-americanas.
O acordo recentemente concluído quanto ao envio ao Paquistão de dezenas de especialistas norte-americanos em combate a insurreições, com a tarefa de treinar o exército paquistanês, sublinha a baixa margem de manobra de que Zardari dispõe com relação a Washington.
Depois de passar meses rejeitando a oferta norte-americana de enviar esses agentes com o objetivo de auxiliar as forças paquistanesas, o governo em Islamabad se viu forçado a ceder à pressão exercida por Washington. Essa concessão teria sido obtida, especulam alguns comentaristas, por meio de um compromisso norte-americano de que as operações militares contra as zonas tribais paquistanesas seriam suspensas.
Tradução: Paulo Miglicci
Le Monde