Stephanie Rosenbloom
Qualquer um que tenha conseguido se esquecer dos preços dos combustíveis para aproveitar um pouco de terapia consumista sabe que poderá encontrar muitos descontos atualmente.
» Confira mais notícias econômicas
"Reparei que muitas coisas estão em liquidação," disse Barbara Friedman, que fazia compras na quinta-feira acompanhada de uma amiga, Evelyn Hatfield, na Lord & Taylor, próxima ao centro de Manhattan. Elas estavam maravilhadas com os descontos acima de 50% nas lojas que visitaram.
Os lojistas negam que o cenário econômico nebuloso dos EUA tenha incitado o mercado a oferecer descontos maiores e antecipados neste verão americano em comparação com anos anteriores.
Mas, analistas industriais e pesquisadores de marketing e comportamento do consumidor dizem que as lojas têm um incentivo para fingirem não haver nada de errado, embora estejam colocando anúncios de liquidação enormes para movimentar as vendas.
"As liquidações são muito agressivas", disse Marshal Cohen, chefe de análise industrial do Grupo NPD. "Os lojistas estão tentando ganhar qualquer dólar disponível o mais rápido possível".
Visto que a confiança do consumidor é a mais baixa dos últimos 16 anos, os lojistas estão mesmo sob pressão. Um quadro mais realista da situação do varejo deverá sair na semana que vem, quando as grandes redes varejistas divulgarem os números das vendas de junho.
Por enquanto, Kathy Grannis, porta-voz da Federação Nacional do Varejo americano, um grupo comercial, reconhece apenas que as liquidações de verão que antecedem a chegada das mercadorias para o outono estão "ocorrendo um pouco mais cedo" do que no passado.
"Ainda é tão cedo," disse Kit Yarrow, uma psicóloga de consumidores em São Francisco que tem notado uma proliferação de liquidações nas lojas de departamento e lojas especializadas. "Os lojistas ficam de olho uns nos outros. Este ano, todos entraram em pânico e quiseram ser os primeiros a liquidar", disse ela.
Os consumidores nunca economizaram tanto. A porcentagem de dinheiro poupado em relação à renda mensal pessoal saltou para 5% em maio, em relação a 0,4% em abril.
Se os compradores resolverem esbanjar neste verão, será só em um produto, Yarrow disse, em vez de três ou quatro.
Metade dos produtos da Ann Taylor Loft está em liquidação e os compradores ainda levam mais 20% de desconto em cima do valor total da compra. As mercadorias da J. Crew, Banana Republic, Old Navy e The Body Shop estão com 50% de desconto.
Na Macy's, as camisas masculinas da grife Ben Sherman baixaram de US$ 89,50 para US$ 59,99. Na Bergdorf Goodman, esta semana, um vestido Chloe baixou de US$ 1275 para US$ 625. E um vestido preto de bainha plissada da Dolce & Gabbana baixou de US$ 1450 para US$ 711.
Os preços mais baixos na liquidação de verão da J.C. Penney's terminaram antes da queima de fogos do Dia da Independência americana. Os clientes que compravam uma toalha ou camiseta podiam levar a segunda por apenas 88 centavos de dólar.
"A Zara está com uma enorme liquidação," disse Stephanie Kinlock, 25, enquanto caminhava pela 5º Avenida, em Manhattan. "A loja inteira está em promoção", disse. Kinlock, que carregava uma bolsa da Macy's, disse que as promoções deste ano parecem melhores do que as do ano anterior. Ela estava procurando um vestido na mesma loja com sua irmã, Camille, 27.
"Eu vim ajudá-la, mas acabei comprando também," afirmou ela.
David Wyss, economista chefe da Standard & Poor's, disse que muitos lojistas ainda esperam vender oferecendo promoções tentadoras aos consumidores que estão recebendo a restituição do imposto de renda. A última onda de restituições ocorrerá até o fim da próxima semana. Em maio, varejistas fora do mercado de combustíveis e alimentos sequer sentiram os efeitos das restituições de imposto, com exceção do mercado de eletrônicos.
"Isso porque quando o americano médio recebe sua restituição de US$ 800, ele logo pensa em comprar uma televisão enorme," disse Wyss.
Quando as vendas de junho das lojas com pelo menos um ano no mercado, conhecidas como referências na comparação de vendas e barômetro da saúde do varejo, forem anunciadas na semana que vem, analistas esperam resultados mistos, embora certamente não de todo pessimistas.
Eles acreditam que o consumismo reprimido, o clima quente e a enchente de promoções darão uma reanimada nas vendas de algumas lojas, mesmo que seja apenas para fazer com que números negativos fiquem menos negativos.
Ken Perkins, fundador da Retail Metrics, um grupo de pesquisa, disse que analistas esperam uma alta de 2% nas vendas de junho. Ele caracterizou a estimativa modesta frente ao pacote de estímulos, prevendo que o aumento chegue próximo de 3%. "Nada formidável, nem tão ruim", afirmou, "e também encorajado pela restituição do imposto de renda."
Kimberly Greenberger, analista do Citigroup, espera que os números comparativos das vendas de junho subam de 2 para 3% em relação a maio, que foi negativo em 3%. Agora, muitos lojistas têm um controle melhor de seus estoques, ela disse, e as altas temperaturas ajudam a tirar os shorts e as regatas das prateleiras.
Cohen, do Grupo NPD, disse que os segmentos de moda feminina e de sapatos de luxo provavelmente terão o pior desempenho. Já partes do setor de artigos para casa se sairão melhor, explicou ele, porque no momento as pessoas preferem fazer melhorias em seus lares ao invés de comprar novos imóveis.
As vendas de vídeo games e brinquedos também deverão ter bom desempenho, visto que os pais deixam de comprar para si para comprar para os filhos, segundo Cohen.
Quanto às restituições de imposto, mesmo que elas levantem as vendas, analistas prevêem que o efeito não será duradouro.
Lynn Franco, diretora do Centro de Pesquisa do Consumidor da Conference Board, uma associação do comércio e organização de pesquisa, disse que o cenário atual lembra a época de restituição de imposto de 2001. "O impacto foi de 25%. E também houve uma redução nos gastos", afirmou.
Claro que isso só se aplica aos americanos. Os compradores internacionais continuam gastando.
"Vimos muitos compradores italianos e espanhóis," disse Hatfield, de Tulsa, na Lord & Taylor. "E isso diz muito sobre a desvalorização do dólar americano." Com o dólar caindo, os produtos americanos estão mais baratos para os estrangeiros.
Na Gucci, Friedman ligou para seu marido contando que estrangeiros estavam comprando bolsas de milhares de dólares "como se fossem dá-las de brinde".
Segundo Yarrow, a psicóloga de consumidores: "Viramos a matriz de pechinchas do mundo".
Tradução: Amy Traduções
The New York Times
Busca
Busque outras notícias no Terra: