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Domingo, 4 de maio de 2008, 10h54 Atualizada às 10h53

China: carro barato perde espaço para sofisticados

Li Rifu atribuía grande significado emocional ao seu primeiro carro. Li, 46 anos, fazendeiro e relojoeiro, e sua mulher secretamente esperavam que um carro fosse melhorar as chances de seus filhos, então com 22 anos e 24 anos, de encontrar namoradas, casar e gerar netos.

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Um ano e meio depois, os planos parecem estar funcionando. Depois que Li comprou seu Geely King Kong pelo equivalente a US$ 9 mil, os dois filhos rapidamente encontraram namoradas. Seu filho mais velho já casou, depois de um rápido namoro que incluiu muitas voltas no carro da família, onde o casal roubou seus primeiros beijos furtivos.

"É mais fechado, mais clandestino", disse Li Fengyang, o filho mais velho de Li, durante um recente jantar em família, enquanto sua noiva enrubescia.

A atenção ocidental para o crescente apetite da China por automóveis geralmente se concentra na relação entre esse fator e o crescimento da dependência por petróleo estrangeiro e a escalada da demanda por recursos naturais como minério de ferro, bem como às crescentes emissões de gases que causam aquecimento global.

Mas milhões de famílias chinesas não fazem essas conexões. Para eles, um carro é algo ao mesmo tempo simples e mais complicado.

A J.D. Power and Associates, uma empresa global de informações de mercado, calcula que 80% dos carros novos vendidos na China sejam comprados por pessoas que nunca compraram um carro antes - nem mesmo usaram um carro. Esse número ficou no mesmo nível em cada um dos últimos quatro anos.

O crescimento do número de compradores de primeira viagem na China é a força motriz por trás dos recordes de vendas de carro, que se multiplicaram em mais de oito vezes desde 2000. É o motivo pelo qual a China ultrapassou o Japão para se transformar no segundo maior mercado automobilístico do mundo, atrás dos Estados Unidos.

Uma mudança no comportamento dos chineses já está clara e deve trazer grandes implicações ao redor do mundo: até mesmo compradores de primeira viagem estão ficando mais sofisticados e querem melhores carros.

Produtores nacionais de carros da China, como a Geely e a Chery, antes temidas pelos fabricantes de automóveis de Detroit e da Europa como eventuais exportadores para mercados ocidentais, observaram suas vendas crescerem modestamente, estagnarem ou caírem no último ano - mesmo enquanto o total do mercado chinês continuou a crescer cerca de 20% por ano.

Os beneficiados foram as joint ventures de multinacionais que vendem carros com design feito no exterior, como o Buick Excelle, o Volkswagen Jetta e o Toyota Camry. Praticamente todo especialista em carros esperava que as multinacionais perdessem fatias de mercado rapidamente para os fabricantes nacionais de baixo custo.

Ao invés disso, os compradores chineses de carros, inclusive os que estavam fazendo isso pela primeira vez, se tornaram mais exigentes em termos de conforto, design e confiabilidade dos carros que compram. Como resultado disso, ao invés de planejar conquistar mercados no exterior, os fabricantes locais estão tendo que redobrar seus esforços nesse mercado.

"Os clientes estão se sofisticando, eles querem as marcas maiores e mais estabelecidas", disse Michael Dunne, o diretor executivo da J.D. Power na China. "Eles preferem esperar, economizar e comprar carros em faixas de preço mais altas ao invés de comprar carros menores".

No final de 2006, a família Li não queria mais esperar - Li Rifu especialmente.

Entrevistas com os membros da família Li, que vivem em Shuang Miao, uma aldeia rural em Zhejiang, uma província no centro-leste da China, oferecem um retrato fascinante quando à rápida expansão do papel dos automóveis na determinação do ritmo de mudança dos costumes chineses relativos a casamentos, contatos sociais e, possivelmente, falecimento.

Quando comprou seu primeiro carro, em setembro de 2006, Li Rifu estava tão animado que acordou antes de o dia nascer. Preparou café da manhã para a família e depois tomou sua moto branca para um curto trajeto que o levaria à realização de um sonho que tinha há anos.

Li desejava um carro preto, mas se deixou convencer pelos filhos de que branco era uma escolha mais popular entre a geração deles. "Sem o carro, meus filhos não conseguiriam encontrar noivas - nenhuma garota se casaria com eles", ele afirmou, relembrando que, quando estava cortejando sua mulher, nos anos 80, bastou uma bicicleta.

Ele testou um compacto Geely King Kong em um passeio curto, e depois voltou à concessionária e subiu três andares até o caixa. Lá, pagou em dinheiro o equivalente a US$ 9 mil pelo carro; ele posteriormente teria de pagar mais US$ 1 mil em licenças e emplacamento.

Ter um carro ajudaria Li a obter mais clientes para as flores que sua família vende. "Meus clientes vêem que chego para visitá-los de carro, e isso coloca a negociação em nível muito mais elevado", disse.

Meses depois de adquirir o carro, o filho mais velho de Li, Fengyang, conseguiu arranjar namorada, Jin Ya, uma jovem e bonita vendedora da operadora de telefonia móvel China Mobile. Em apenas cinco meses, eles se casaram, e agora estão planejando seu primeiro filho.

Jin Ya, em um jantar da família, se irritou com a menção ao fato de que as jovens chinesas atuais só desejam se casar com homens que tenham carros. "Não eu, não eu", ela afirmou, com veemência, antes de admitir, relutantemente, que "outras moças podem achar que ele precisa de um carro".

Infelizmente, apesar das alegrias que o carro estava trazendo à família, Li e sua mulher, Chen Yanfe, receberam diagnósticos de câncer em intervalos de poucos meses. Para cobrir os elevados custos de tratamento, ele teve de vender o Geely King Kong por cerca de US$ 8 mil, no ano passado, e por enquanto não conseguiu juntar dinheiro para comprar outro carro.

Tradução: Paulo Migliacci ME

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