NY Times

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Quinta, 24 de abril de 2008, 23h32

Empresa faz sucesso com mensagens "desmotivacionais"

Algumas semanas atrás, uma amiga de um amigo, Jennifer, ficou impressionada com uma imagem que recebeu em uma mensagem de e-mail. "VALOR", a mensagem afirmava, em letras grandes e reconfortantes como aquelas que os cartazes de motivação de funcionários costumam empregar. E depois, abaixo, em letras menores: "Só porque você é necessário, não quer dizer que seja importante". A imagem que ilustrava a mensagem era a de uma série de molas interligadas.

Jennifer, uma executiva de médio escalão que estava enfrentando jornadas semanais de trabalho de 75 horas para concluir um grande projeto e ao mesmo tempo uma onda generalizada de boatos de que ela e todas as outras pessoas de seu escritório estariam a ponto de ser demitidas, considerou que a mensagem era a um só tempo oportuna e divertida. Pediu que sua assistente imprimisse cópias do texto e os distribuísse ao pessoal. Não demorou para que os funcionários colassem cópias da mensagem nas paredes do escritório. "As pessoas pareciam realmente ter curtido, devo dizer", ela relembra.

O grande projeto foi concluído, e a empresa para a qual Jennifer trabalha logo depois confirmou o fechamento de seu escritório. O cartaz que ela recebeu é uma das muitas peças de "desmotivação" criadas e vendidas pela Despair, uma empresa do Texas que produz e vende dezenas de modelos de cartazes que satirizam as banalidades do setor de motivação (entre os quais a inevitável imagem de um lindo gatinho agarrado a alguma coisa, ainda que, no caso do cartaz da Despair, a legenda seja "desista: a certa altura, tentar continuar agarrado a isso só vai te fazer parecer um coitado ainda maior". A Despair produz também calendários, camisetas, publicou um livro e vende xícaras de café com marcas que demonstram exatamente em que ponto ela está meio vazia.

A companhia ganhou fama inicialmente na Internet, cerca de uma década atrás, mas o negócio se provou notavelmente duradouro, e no ano passado suas vendas subiram a US$ 4,5 milhões. E é possível que a visão de mundo que seus produtos promovem ecoe de maneira especialmente intensa em escritórios e baias de todo o país, em um momento como o atual. O Serviço de Estatísticas do Trabalho recentemente calculou que os empregadores norte-americano reduziram em 80 mil vagas os seus postos de trabalho em março. Enquanto isso, as vendas da Despair subiram em 15% até agora no ano.

"Nós percebemos que algumas pessoas estão comprando porque as coisas estão começando a correr mal", diz Justin Sewell, um dos co-fundadores da empresa. "Palavras como 'desespero' e 'fracasso' estão sendo cada vez mais procuradas no Google, e com isso ganhamos destaque".

Não que ela pareça satisfeito quanto à tendência. Afinal, a existência da Despair deriva das experiências de Sewell como um funcionário insatisfeito. Na época do primeiro boom da Internet, Sewell e seu irmão gêmeo, Jef, em companhia do amigo Lawrence Karsten, se sentiam "sacaneados" pela empresa de tecnologia para a qual trabalhavam, e começaram a sonhar sátiras de cartazes de motivação como uma espécie de piada pessoal. (Mas não de maneira que os patrões pudessem ver -era uma questão menos de falar a verdade diante do poder do que de resmungar a verdade pelas costas do poder.) Não importa se a situação é boa ou ruim, com certeza parece existir uma certa consistência nos locais de trabalho norte-americanos.

"Os comentários que as pessoas fazem ao encomendar produtos, agora, são as mesmas coisas que dizíamos quando criamos a Despair", afirma Sewell.

Como empresa, a Despair começou de maneira hesitante. Imagens de suas criações eram distribuídas por toda a rede, para e por funcionários determinados a desperdiçar o tempo de seus patrões, mas os fundadores esqueceram de incluir o endereço do site da empresa nas suas produções. O lado positivo disso é que a Despair vem construindo aos poucos uma audiência cada vez maior, e há pessoas que continuam a descobrir a empresa 10 anos depois que ela foi fundada. Sewell define sua companhia como "uma marca de visão de mundo", e não é difícil perceber de que maneira ela atende à mesma necessidade de ver algo de divertido quanto à vida em escritório que produções como a tira de quadrinhos Dilbert ou o seriado humorístico "The Office" atende.

Kersten, que no passado chegou a dar aulas de administração de empresas, escreveu um livro chamado "The Art of Desmotivation". Ainda que as intenções fossem o humor e a sátira, o trabalho lhe valeu uma entrevista com a Harvard Business Review na qual ele discutia temas como "a distância conceitual entre os conceitos hedonistas... que embasam a psicologia positiva e a busca de sabedoria e maturidade, que requer que não ajamos apenas em busca da satisfação pessoal". O mais engraçado é que Kersten se tornou o astro de uma série de podcasts em vídeo no site da empresa, uma extensão daquilo que Sewell define como "contexto narrativo" da visão de mundo da companhia.

Sewell se mostrou notavelmente otimista quando mencionei um detalhe importante da história de Jennifer, o fato de que ela na verdade não comprou coisa alguma da Despair. Ele diz que uma atitude positiva quanto à propaganda de pessoa a pessoa sobre os produtos da empresa, mesmo da parte de gente que não os compre, ajudou a marca a sobreviver. E Jennifer (que agora esta à espera de uma transferência) terminou por levar muitas das pessoas a quem distribuiu sua mensagem de desmotivação a refletir mais sobre a vida profissional. As imagens não são apenas engraçadas, mas honestas, e oferecem uma forma de escape ao otimismo que as empresas gostam de empregar para mascarar a mais recente rodada de demissões. Essa duplicidade, ela observa, é o que mais a desanima no trabalho.

Tradução: Paulo Migliacci ME

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