NY Times

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Segunda, 31 de março de 2008, 12h20

Mestiços vêem Obama dar voz a seus questionamentos

Jenifer Bratter um dia vestiu uma camiseta que dizia "100% negra", mas seus amigos zombaram dela por isso. "Lembro que as pessoas me aporrinhavam porque eu não sou 100% negra", conta Bratter, 34 anos, relembrando seus anos de estudo na Universidade Estadual da Pensilvânia.

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"Eu ficava magoada", disse Bratter, filha de mãe negra e pai branco. "Lembro de pensar que afinal era aquilo que todo mundo esperava que eu pensasse".

Encontrar aceitação e provar lealdade. Navegar entre os limites aguçados das fronteiras raciais. Os norte-americanos de raça mista afirmam que essas são questões que eles precisam enfrentar há muito tempo e, quando o senador Barack Obama fez o seu recente discurso sobre a questão racial, em Filadélfia, as palavras dele os atingiram de maneira especialmente intensa, por verem paralelos entre o percurso de Obama e os seus.

Eles lembraram de amigos que, como no caso de Bratter, acreditavam que não fossem negros o bastante. Ou que os desafiavam a se rotular perguntando "mas o que você é?" ou parentes de raças diferentes que muitas vezes se provavam insensíveis uns para com os outros.

"Creio que Obama vá dar destaque a essas histórias tão profundamente americanas", disse Esther John, 56 anos, funcionária do Northwest Indian College, em Washington, e que tem ancestrais brancos, negros e indígenas. "Talvez avancemos um pouco no diálogo quanto à raça", ela afirmou. "O fator culpa pode se reduzir um pouco porque Obama facilitou a vida de quem é negro e ainda assim ama seus parentes brancos, ou de quem é branco e ainda assim ama seus parentes negros: amar a despeito da aparência racial alheia".

Os norte-americanos mestiços dizem que as questões sobre Obama, filho de uma mãe branca do Kansas e de um pai negro do Quênia, "ser negro demais ou não ser negro o bastante", como ele declarou em seu discurso, em 18 de março, demonstram até que ponto o país ainda continua preso às antigas categorias.

"Existe esse conceito de que há uma raça autêntica e que você deve se enquadrar a ela", disse Bratter, hoje professora assistente de sociologia na Universidade Rice, em Houston, e pesquisadora sobre famílias multirraciais. "Temos de enfrentar essa questão de falta de encaixe".

As velhas categorias estão decaindo, no entanto, à medida que a imigração e a idade de casamento avançam nos Estados Unidos, alimentando número crescente de casamentos inter-raciais. O censo de 2000 registrou 3,1 milhões de casais inter-raciais, ou cerca de 6% do total de casais do país. O censo daquele ano pela primeira vez permitiu que os respondentes se identificassem como membros de duas ou mais raças, categoria que hoje inclui 7,3 milhões de norte-americanos, ou cerca de 3% da população.

Muita gente ainda se apega a um rótulo racial definido ainda que tenha ancestrais mistos, às vezes por forte identificação com um grupo racial ou por esforço consciente de não diluir os números do grupo com o qual mais se identifiquem, dizem pesquisadores.

As pessoas multirraciais declaram em entrevistas que sua decisão sobre como se identificar é profundamente pessoal, e não política; influenciada pelo lugar e maneira de sua criação, pela percepção alheia sobre elas, pela aparência que elas tenham e por seu caminho pessoal para a aceitação de uma identidade.

James McBride, que cresceu em um conjunto habitacional de Brooklyn ocupado quase que exclusivamente por negros, ainda que sua mãe fosse judia, disse que, como Obama, ele se identifica como homem negro de raça múltipla. Como filho de um pai negro, "o que eu realmente queria era ser como os outros meninos negros". E, ao longo da vida, a sociedade mesma impôs certos rótulos: "Se a polícia me vê, vê um homem negro sentado em um carro", afirma.

Mas o orgulho por ser negro, diz McBride, 50 anos, não nega sua conexão com o que ele chama de "lado judaico", o legado de sua mãe. Perguntado sobre que parte ele via como dominante, McBride respondeu que "é como tentar segurar gelatina na mão". "E, de qualquer forma, que diferença isso faz?", disse. "Quando você tem origens mistas, percebe o quanto esse negócio de raça é absurdo".

McBride e outros norte-americanos de origem mista afirmam que estão orgulhosos da maneira pela qual Obama vem apresentando esse fator em sua vida como vantajoso para um presidente. Ainda que se defina como negro e que tenha dado papel central em sua biografia de campanha ao esforço de assumir a identidade que lhe foi legada por seu pai, os observadores vêem que Obama empresta igual importância em sua história à sua mãe e avós brancos.

"Ele está tendo de cobrir todo o campo, e conhece muito bem sua audiência", disse Phillip Handy, 21 anos, aluno da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, e filho de mãe branca e pai negro. "No fim, quando ouço sua mensagem, não creio que ele esteja rejeitando qualquer dos dois lados".

Muitas pessoas de origem racial mista descreveram seus esforços para definir uma identidade racial, muitas vezes sob pressão alheia para que se rotulassem. McBride, que escreveu um livro sobre suas experiências como criança de raça mista em um bairro negro, diz que seu trabalho era sempre exposta na seção de literatura negra das livrarias. "Por que não posso ser considerado autor branco?", ele pergunta. "Afinal, sou meio branco".

Shafia Zaloom, 36 anos, professora em San Francisco e filha de asiática e branco, diz que muitas vezes as pessoas lhe perguntam se seus dois filhos, cuja aparência puxou a de seu marido branco, são adotados. "Às vezes, no parquinho, acham que eu sou a babá", diz.

Zaloom, cuja aparência é mais próxima à de sua mãe chinesa, diz que sofreu muitas declarações e gestos raciais insensíveis com relação ao seu lado asiático. Mas ainda assim se orgulha de sua origem mista. "É realmente injusto esperar que as pessoas escolham", disse. "É como pedir que sejam leais ao pai de preferência à mãe, ou vice-versa".

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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The New York Times Shafia Zaloom, filha de asiática e branco, já foi questinada se seus dois filhos são adotados Shafia Zaloom, filha de asiática e branco, já foi questinada se seus dois filhos são adotados

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