Le Monde

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Terça, 26 de fevereiro de 2008, 15h56

Raúl assume Cuba após uma vida à sombra de Fidel

Raúl Castro esperou pacientemente durante 49 anos e chegou ao seu 76° aniversário, antes de suceder ao seu irmão mais velho, Fidel, como chefe de Estado em Cuba. Eterno número dois, "herdeiro natural" do poder por meio século, será que ele realmente desejava essa promoção, no crepúsculo de umas vida passada à sombra do pai da revolução cubana? Difícil dizer, no que tange a esse homem sempre reservado.

Nos 19 meses em que ocupou interinamente o posto depois que uma hemorragia intestinal afastou Fidel do poder, ele concedeu apenas uma entrevista, ao Granma, jornal oficial do Partido Comunista cubano. "Vou morrer sem conseguir ler as centenas de livros que me esperam", ele disse, apontando para um de seus arrependimentos durante a cerimônia de abertura da Feira do Livro de Havana, algumas semanas antes de assumir oficialmente o posto de Chefe de Estado.

Pessoas que o conhecem bem dizem que dá mais importância que o irmão à vida em família. Com certeza vai querer passar mais tempo com os quatro filhos que teve com sua mulher, Vilma Espin, morta em junho de 2007, e com os oito netos. O apego de Raúl ao seu irmão mais velho remonta à infância dos dois em Biran, no sudeste da ilha, onde seu pai, nascido na Galícia, supervisionava uma vasta plantação.

Nascido em 3 de junho de 1931, cinco anos depois de Fidel, Raúl seguiu os passos dele no colégio jesuíta, na Universidade de Havana e na luta revolucionária contra o regime de Fulgencio Batista. Foi seduzido pelo marxismo aos 22 anos, antes de Fidel, o que viria a contribuir para sua reputação de ortodoxia. Em 26 de junho de 1953, participou com o irmão no ataque ao quartel de Moncada, em Santiago de Cuba. A operação fracassada se transformaria no mito de origem da revolução.

Aprisionados e depois anistiados, os dois irmãos se exilaram no México, onde conheceram Ernesto "Che" Guevara. Em novembro de 1956, os três embarcaram para Cuba à bordo do Granma, um barco de cruzeiro, no comando de um pequeno grupo de combatentes que terminaria dizimado pelas tropas de Batista. Fidel Raúl e Che sobreviveram e criaram o exército rebelde, que conseguiria derrubar o regime de Batista em janeiro de 1959.

As execuções promovidas depois da vitória dos barbudos reforçariam a imagem de Raúl como homem impiedoso, e o mesmo se aplica à sua atitude inflexível com relação ao processo contra o general Arnaldo Ochoa, o popular comandante das forças cubanas em Cuba, acusado de tráfico de drogas e fuzilado em 1989.

A primeira tarefa de Raúl foi transformar as colunas de guerrilheiros em um poderoso exército, do qual sempre esteve no comando e que continua ferozmente leal a ele. Ministro da Defesa, Raúl desempenhou papel crucial na negociação dos acordos militares com Moscou e no envio de corpos expedicionários cubanos à África nos anos 70.

Depois do colapso do bloco soviético, nos anos 90, ele se provou pragmático, defendendo mercados livres de produtos agrícolas para aumentar a produção de alimentos. "Feijão importa mais do que canhões", disse, na época. Promover uma expansão da produção agrícola, cerceada pela burocracia e pela falta de incentivos, continua a ser uma de suas metas primordiais.

O exército que ele comanda se tornou uma força das mais dinâmicas na economia, em setores como o turismo e os transportes. A população espera que as "mudanças estruturais" prometidas em seu discurso de 26 de julho de 2007 permitam melhorar a vida cotidiana, especialmente em termos de habitação e transporte.

Desprovido do carisma e dos dons oratórios de seu irmão mais velho, Raúl Castro se apressou a repetir que as reformas serão graduais. Mas sua franqueza e o fato de que ele parece escutar suas queixas foram bem recebidos por muitos cubanos.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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Reuters Raúl Castro acena após ser confirmado como o sucessor de Fidel no poder cubano Raúl Castro acena após ser confirmado como o sucessor de Fidel no poder cubano

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