Andy Robinson, em Londres
Em janeiro de 1974, Wynne Godley e Francis Cripps publicaram no Times, de Londres, um artigo histórico que serviria como manifesto econômico da Nova Escola de Cambridge. No rádio, o sucesso era a canção "Waterloo", do Abba; "Chinatown", de Polanski, era o filme do ano; e a economia mundial atravessava sua pior crise desde os anos 30.
O bloqueio da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) às vendas de petróleo cru destinado aos Estados Unidos e Europa levou o preço da variante Brent dos US$ 3 a US$ 11 por barril, e isso resultou em duplicação do preço da gasolina no mercado norte-americano. A bolsa de Nova York estava em queda, e os petrodólares inundaram os mercados europeus. Em Washington, o presidente Jimmy Carter decretou racionamento, com o fechamento de escolas e escritórios, para economizar energia.
Ted Heath, o primeiro-ministro britânico, restringiu a velocidade máxima dos automóveis, com o mesmo propósito, e as imensas filas da gasolina causavam briga nos postos entre os fleumáticos britânicos. Logo surgiria o fenômeno simultâneo de hiperinflação e crescimento raquítico - com recessão em 1975, o que resultaria na criação do termo "estagflação" - estagnação e inflação combinadas. Depois da disparada dos preços do petróleo importado, o Reino Unido sofreu uma crise estrutural em seu balanço de pagamentos, e isso causou um colapso da libra e um humilhante pedido de assistência ao Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1977.
Passados 30 anos, o preço por barril de petróleo está próximo dos US$ 100, existe certa dose de estagflação nas mais recentes projeções econômicas norte-americanas e, para complementar o revival dos anos 70, "Mamma Mia!", um musical com canções do Abba, está estreando em Barcelona.
"Foram dias terríveis, aqueles; no que tange à inflação, a gestão macroeconômica era muito mais difícil do que hoje", diz Godley, antigo assessor do Tesouro britânico e hoje, aos 82 anos, analista da economia norte-americana para o Levy Institute, em Nova York. "Mas no que se refere à recessão, eu diria que estamos em posição pior do que então - consideravelmente pior", ele explicou em entrevista ao La Vanguardia.
Godley tem advertido, desde os momentos de euforia dos anos 90, que os desequilíbrios na economia norte-americana - cujo consumo supera a renda disponível, com índice negativo de poupança e uma perigosa propensão a consumir importados, dada a força do dólar - acabariam gerando uma crise. "Ninguém gosta de relembrar, porque o ambiente na época era de autocongratulação", ele afirma. Agora, de acordo com um modelo quantitativo, semelhante ao que Godley e Cripps elaboraram nos anos 70 para avaliar a seriedade da crise britânica, a economia norte-americana está a ponto de entrar em uma recessão que, de acordo com o cenário mais pessimista, poderia durar dois anos.
A expansão incontrolável do consumo - o principal propulsor da economia desde o colapso dos mercados em 2000/1 -, "é conseqüência do frenesi histérico surgido no mercado da habitação", diz. Por isso, a queda nos preços das residência, que já está em curso, servirá como precursor, segundo Godley, de uma forte contração no crédito ao consumidor, que pode se reduzir a zero, no cenário mais pessimista.
Uma avaliação mais otimista prevê que a depreciação do dólar, e uma alta nas exportações, amortizará o impacto do consumo, mas, ainda assim, resultará em crescimento inferior a 1%.
"Existe uma possibilidade real de recessão de grande gravidade", diz Godley. "A explosão de crédito nesta década é difícil de acreditar - existe US$ 1,5 trilhão em crédito hipotecário de risco, por exemplo; trata-se de uma soma espantosa, e o setor está em colapso", ele diz. Enquanto isso, o preço do petróleo cru e de outras matérias-primas, por exemplo, os alimentos, geram pressões inflacionárias.
A estagflação dos anos 70 foi o golpe final contra a hegemonia da doutrina keynesiana nas faculdades de Economia e ministérios de finanças. Três anos depois que Nixon afirmou que "hoje somos todos keynesianos", os monetaristas chegaram ao cenário. Mas Godley, então diretor do departamento de economia aplicada da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, elaborou um novo modelo keynesiano que advertia sobre o impacto de políticas que contrariam o ciclo econômico, em termos de balanço de pagamentos, e chegava a defender tarifas alfandegárias. Agora, como há 30 anos, ele insiste na importância crítica do balanço de pagamentos.
"O problema do balanço de pagamentos nos Estados Unidos já era evidente nos anos 90; nós alertamos a respeito, mas ninguém agiu, e o grau de dívida externa atingido se tornou insustentável", afirma. Economistas ortodoxos como Glenn Hubbard, ex-assessor econômico do presidente George W. Bush, alegavam que o déficit em conta corrente não era relevante no caso dos Estados Unidos, porque o dólar era a divisa de reserva mundial e por isso a dívida externa do país seria sempre financiável. "Não gosto de parecer bairrista, mas os Estados Unidos são especiais", disse Hubbard no ano passado.
Agora, diante do perigo de recessão, tudo parece indicar que os Estados Unidos pretendem combater a desaceleração por meio de um dólar baixo e de um forte ajuste do balanço de pagamentos, o que, por sua vez, poderia estar colocando em perigo o papel do dólar como moeda de reserva mundial. Godley apóia a depreciação do dólar, ainda que reconheça que seu impacto sobre a economia européia pode ser grave.
"Na realidade, há uma falta de coordenação nas políticas mundiais de reativação da demanda", diz. Caso a recessão venha a ser grave, outra ferramenta keynesiana - os incentivos fiscais, que foram desdenhados durante 30 anos, se tornará "necessária", alega. E, em um indício do grau de mudança sofrido nos últimos meses, Larry Summers, ex-secretário do Tesouro no governo Bill Clinton, concorda com o keynesiano Godley e pede "a preparação de incentivos fiscais caso a situação se deteriore".
Tradução: Paul Migliacci
La Vanguardia
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