NY Times

NY Times

Sexta, 30 de novembro de 2007, 23h54

Companhia se desculpa por brinquedos contaminados

A empresa de Hong Kong que produziu milhões de contas de brinquedo contaminadas na China continental divulgou um pedido público de desculpas na quinta-feira, e o presidente de seu conselho afirmou que não havia ocorrido a ninguém verificar se um ingrediente de baixo custo usado como cola nas peças poderia ser perigoso caso as crianças o ingerissem.

As peças, contas de bijuteria comercializadas com a marca Aqua Dots nos Estados Unidos e como Bindeez na Europa e Ásia, foram recolhidas este mês depois que 14 crianças adoeceram ao colocá-las na boca; algumas das crianças chegaram a ficar em coma por breves períodos. Pesquisadores austrialianos descobriram que os ingredientes usados na cola se decompõem, no organismo, em forma de GHB, um medicamento proibido nos Estados Unidos e capaz de causar inconsciência e morte.

"Pedimos desculpas às crianças que engoliram as contas pelo acidente, e aos seus pais, e aos nossos consumidores internacionais", afirmou em comunicado a JSSY, responsável pelo produto.

"Pedimos desculpas a todos pelo efeito negativo que esse incidente causou sobre a indústria da China. Pedimos desculpas pelo efeito negativo sobre o rótulo 'made in China'".

O caso das peças contaminadas atraiu atenção renovada às debilidades da regulamentação de segurança na China, em especial no que tange a brinquedos. Funcionários do governo chinês responderam a casos que envolveram o recolhimento em larga escala de brinquedos fabricados no país, há alguns meses, prometendo fiscalização mais severa.

Mas Carter Keithley, presidente da Associação da Indústria de Brinquedos dos Estados Unidos, disse em conferência sobre brinquedos realizada duas semanas atrás em Guangzhou que o caso das contas tornava ainda mais difícil para os vendedores norte-americanos de brinquedos garantir aos consumidores que a China estava reforçando sua vigilância.

"O mais recente incidente torna incômodo, para nós, persistir nessa linha de defesa", ele afirmou.

Liao Chu-Yuan, o presidente do conselho e proprietário da JSSY, disse que a empresa se havia preocupado com a possibilidade de que crianças engolissem as peças e engasgassem, mas não havia considerado a possibilidade de que os produtos químicos usados na fabricação das contas fossem venenosos.

"Nós realmente não consideramos a parte da FDA, a parte dos alimentos", disse Liao em entrevista por telefone, se referindo à Food and Drug Administration (FDA), a agência norte-americana que fiscaliza alimentos e remédios. Ele afirmou que, quando a JSSY verificou os regulamentos da FDA, depois que surgiram problemas nas últimas semanas, descobriu rapidamente que o uso dos produtos químicos em questão era terminantemente proibido em qualquer produto que pessoas pudessem ingerir.

Liang Shuhe, diretor assistente do Ministério do Comércio chinês, disse que os fabricantes chineses de brinquedo estavam enfrentando uma queda em suas margens de lucros ¿devido à alta dos salários e à valorização do yuan diante do dólar-, mas que ainda assim respeitariam as normas de segurança.

"A segurança dos brinquedos é a maior prioridade, como a saúde das crianças", ele disse.

As contas vendidas como Aqua Dotz e Bindeez têm cores brilhantes e tamanho um pouco menor do que jujubas. As crianças as montam formando padrões, e as molham com água, o que gera adesão permanente entre as contas no padrão criado.

Liao disse na quinta-feira que a JSSY havia escolhido para as contas um ingrediente de cola com custo equivalente à metade daquele que a principal distribuidora do produto, a Moose Enterprise, da Austrália, acreditava estivesse em uso. Mas ele afirmou repetidamente que o ingrediente barato perigoso não havia sido usado por motivos de custo. O ingrediente também serve para amaciar as contas plásticas.

A JSSY testou o ingrediente mais dispendioso durante o desenvolvimento inicial do produto e encontrou dois problemas, de acordo com Liao. Um era que as contas produzidas com ele tendiam a inchar quando borrifadas com água, o que poderia gerar risco de sufocação.

O outro era que a mistura do plástico com o ingrediente mais dispendioso requeria seis horas de rotação em uma máquina, e produzia um material viscoso e oleoso que era difícil usar na fabricação de contas. O ingrediente mais barato requeria apenas duas horas para mistura e resultava em combinação mais maleável, disse Liao.

Ele afirma ter sido procurado pela Moose Enterprise quase dois anos atrás. A empresa exibiu amostras de contas produzidas como brinquedos no Japão, que aderem umas às outras quando borrifadas com água.

As contas, comercializadas na Europa e Japão como Aqua Beads, são fabricadas com um processo diferente, desenvolvido para o setor odontológico. As Aqua Beads não foram recolhidas. Um laboratório europeu independente não encontrou problemas nesses produtos, em teste conduzido este mês, de acordo com Peter Brown, presidente-executivo da Flair Leisure, a distribuidora britânica do Aqua Beads.

Liao diz que a JSSY passou um ano desenvolvendo de maneira independente uma fórmula química para produzir contas semelhantes ao brinquedo japonês, e iniciou a produção em larga escala do novo item no final do ano passado. A empresa utilizou o ingrediente de cola barato em todas as amostras enviadas à Moose e a laboratórios independentes, para teste, segundo Liao. Os laboratórios não encontraram problemas com as contas, mas eles talvez não tenham sido informados de que os ingredientes podiam ser perigosos, disse ele.

Liao enfatizou diversas vezes que a escolha do ingrediente mais barato não havia sido motivada por considerações financeiras. "A questão do custo não tem importância real", ele afirmou.

Tradução: Paulo Migliacci ME

  • Imprima esta notícia
  • Envie esta notícia por e-mail

Busca

Busque outras notícias no Terra: