La Vanguardia

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Terça, 14 de agosto de 2007, 10h25

Nepal perdoa menina deusa por ter ido aos EUA

"Quando deixar de ser deusa, quero ser fotógrafa", confessa a menina Sajani Shakya, sentada em seu trono ritual de madeira talhada. "Ainda que continuar ajudando os outros também pudesse me agradar", ela acrescenta com o mesmo ar de seriedade, que parece incongruente em uma garota de 11 anos de idade.

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Para muitos milhões de hinduístas do Nepal, ela representa uma kumari, uma deusa viva, desde os seus dois anos de idade. Mas nos últimos meses esteve a ponto de perder sua divindade, porque seus devotos estavam incomodados por sua decisão de romper um tabu e viajar ao exterior, nada menos que aos Estados Unidos.

Até então, nenhuma kumari havia saído do Nepal enquanto no exercício de sua posição como deusa. Sajani passou algum tempo na Índia, em seu retorno, um mês atrás, esperando que a irritação dos camponeses mais ortodoxos com sua decisão se dissipasse. Agora, perdoada, ela reconhece que a atitude dos fiéis a entristeceu porque, na Índia, recebeu "a melhor oferenda" de seus oito anos como divindade: "Aprendi a andar de bicicleta".

Quando lhe é perguntado se deixar de ser deusa a incomodaria muito, Sajani demonstra cautela: "Não posso responder a essa pergunta". Mas quando a pergunta gira em torno de ela ser efetivamente uma deusa, não hesita para responder que sim. De toda maneira, Sajani sabe que perderá sua condição divina assim que sua primeira menstruação chegar.

Já não lhe resta muito tempo no trono - na verdade, são dois, um no terraço de sua casa e um segundo, menor, no primeiro andar. É diante deste segundo que os adultos que procuram sua benção purificadora, acompanhada de um olhar de menina, costumam se ajoelhar.

As pessoas que demonstraram maior reticência quanto à viagem internacional de Sajani foram os organizadores do Dakshein, o festival de outono dedicado à deusa Durga, no qual a kumari é a participante de maior destaque durante 15 dias; cuidadosamente maquiada em preto e vermelho, ela participa de procissões nas quais dá sua benção a milhares de fiéis. Agora, as coisas voltaram ao seu ritmo normal, e a menina deusa freqüenta a escola (onde assiste a aulas dadas em inglês) como qualquer outra criança da vizinhança.

O motivo de sua viagem a Washington, na companhia de uma preceptora, foi a apresentação do documentário "Living Goddess", sobre o culto às jovens deusas virgens no reino do Himalaia. Em termos formais, existem sempre três kumaris de tempo integral, radicadas nas capitais históricas do vale central do Nepal - Bhaktapur, Patan e Katmandu. Esta última, conhecida igualmente como kumari real, é a mais importante das três, e vive enclausurada em um sóbrio palacete localizado no coração histórico da capital nepalesa.

Desde o século XVIII, todos os reis do Nepal - o único Estado no qual o hinduísmo é a religião oficial - solicitam a benção dessa menina que, para que seja considerada deusa, precisa cumprir 32 requisitos. As deusas são consideradas como encarnações humanas de Kali, uma deusa sedenta de sangue conhecida no Nepal como Taleju, e celebrada em um belo templo em Bhaktapur, uma cidade de conto de fadas que faz parte do patrimônio cultural da humanidade protegido pela Unesco.

Sajani, a kumari de Bhaktapur, reside em uma antiga casa de tijolos, localizada em uma praça tranqüila que abriga um templo budista. Isso não acontece por acaso, já que, apesar de as pessoas que a cultuam serem fiéis do hinduísmo, um dos requisitos da kumari é que ela provenha de uma determinada casta, os Shakya, que seguem o budismo. No caso de Sajani, sua divindade foi confirmada quando não demonstrou qualquer irritação ao lhe ser colocada uma grande flor na cabeça.

Se bem que o fato de que seu pai, vendedor itinerante de uma fábrica de biscoitos, seja um líder religioso e integre o comitê que seleciona a kumari também pode ter ajudado. A casa da família de Sajani, de qualquer forma, é o local em que a kumari da vez é cultuada durante o Dakshein. Sajani é uma menina divertida, esperta e curiosa. "Como se diz ¿deusa¿ em castelhano?", ela quer saber. Mas começa a entrevista meio irritada, porque largou um filme no meio.

A divina garota havia chegado do colégio havia algum tempo - as aulas começam as 5h - e nos recebeu descalça, com o esmalte das unhas dos pés descascado e ostentando pequenos arranhões nas pernas. Ela reconhece que seus professores e colegas a tratam de maneira diferenciada - e o tratamento, pelo que vemos por parte de sua irmã maior, é de imensa doçura.

Sarmila, que hoje em dia estuda Administração de Empresas, não conseguiu se manter imóvel quando a flor lhe foi colocada. "Não era meu destino", ela afirma, com uma pontinha de decepção. Mas está convencida, mesmo assim, de que sua irmã mais nova é de fato uma deusa. "O Dakshein é o período em que ela tem mais poder, isso fica perceptível em seu rosto". Mas os tempos estão mudando, mesmo em uma cidade em que o tempo parece não existir, como Bhaktapur.

Que a divindade da kumari tenha sido questionada já não é motivo de surpresa, em um momento no qual a coroa do rei Gyanendra, um monarca extremamente impopular, está por um fio. Gyanendra subiu ao trono depois do assassinato de seu irmão e de 10 outros membros de sua família, em circunstâncias obscuras, em 2001. Os boatos atribuem as mortes ao príncipe herdeiro do país, que teria enlouquecido e se suicidado depois dos assassinatos.

No último Dakshein, a kumari já não abençoou o rei, mas o primeiro ministro. Como solução de compromisso, existe uma proposta de que a coroa seja transferida ao neto do rei Gyanendra, ainda que apenas para funções rituais. Assim, com um rei menino e três meninas deusas, o futuro do Nepal estaria garantido.

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The New York Times Sajani Shakya é vista como uma manifestação terrena da deusa indiana Kali Sajani Shakya é vista como uma manifestação terrena da deusa indiana Kali

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