Le Monde

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Terça, 31 de julho de 2007, 14h01

Novo grupo terrorista nasce no norte da África

Um novo grupo terrorista islâmico surgiu recentemente na África do Norte. Operando sob o nome de Ansar al Islam fi Sahara al Bilad al Mulazamin (partidários do Profeta no Saara, a terra dos portadores do véu), a organização divulgou seu primeiro comunicado em vídeo em junho, na Internet. O objetivo anunciado é promover a jihad (guerra santa) contra a Espanha, França, Argélia, Mauritânia, Frente Polisário (qualificada como "regime corrupto") e, acima de tudo, o Marrocos, cujo rei Mohammed 6°, é definido na proclamação como um "tirano" que "empresta seu apoio ao grande tirano de nossa era, os Estados Unidos, e brande o estandarte dos cruzados e dos sionistas".

Os norte-americanos estão levando a ameaça a sério. Entre o final de junho e o começo de julho, três dos principais responsáveis pela segurança dos Estados Unidos visitaram a capital marroquina, Rabat ¿Michael Hayden, o diretor geral da Agência Central de Inteligência (CIA); Robert Mueller, diretor do Serviço Federal de Investigações (FBI); e a assessora de segurança interna do presidente George W. Bush, Frances Townsend.

As autoridades espanholas aconselharam aos cidadãos do país em férias no Marrocos que "redobrem a vigilância e evitem locais muito movimentados". Na França, o Ministério do Exterior não apresentou recomendações especiais.

Quem está por trás desse novo grupo terrorista cujo nome se inspira em uma organização homônima que está ativa no Iraque, onde opera há seis anos, durante muito tempo sob o comando de Abu Mussab al-Zarqawi, morto em um bombardeio norte-americano em 2006? Os serviços europeus de informações acreditam que as forças essenciais sejam militantes islâmicos argelinos e marroquinos refugiados na Espanha para fugir à repressão em seus países de origem. Seus colegas argelinos se declaram convencidos de que o grupo é uma facção do antigo grupo Salafista de Pregação e Combate (GSPC), que atua no Saara, Marrocos, Mauritânia e norte do Mali.

Mas a identidade dos terroristas é secundária. O mais importante é o fenômeno do qual sua existência serve como prova: o surgimento na África do Norte de grupos terroristas cuja área preferencial de atuação até agora era o Iraque. Porque a questão vai além do Ansar al Islam. O apelo pela formação de uma "internacional da jihad" surgiu há mais de um ano. O autor foi o segundo em comando da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, que em setembro de 2006 convidou o GSPC, o último movimento armado ainda ativo na Argélia, a aderir à Al Qaeda. Em janeiro de 2007, o convite foi aceito, e o grupo se tornou a Organização da Al-Qaeda nos Países do Maghreb Islâmico.

A "filial" do grupo que opera no Saara optou por abandonar a organização e se aliar ao Ansar al Islam, e não à Al-Qaeda. Mas existe pouca diferença entre os dois grupos. Depois da reorganização dos terroristas, três atentados suicidas conduzidos da mesma maneira, carros-bomba, fizeram dezenas de vítimas na Argélia. O imponente palácio do governo argelino, que abriga a sede de diversos ministérios; uma delegacia de polícia perto do aeroporto de Argel; e um quartel do exército no leste do país foram escolhidos como alvos. Todos os atentados foram reivindicados pela ala argelina da Al-Qaeda. Até então, esse tipo de ação era bastante rara na Argélia.

Durante a "guerra suja" dos anos 90, apenas um atentado suicida foi realizado no país. Ao aderir à Al-Qaeda, estimam os especialistas ocidentais, os militantes islâmicos norte-africanos podem ganhar acesso a fontes de financiamento e de provisões novas, e a conhecimentos técnicos que podem torná-los adversários ainda mais formidáveis.

O outro risco é que a nova afiliada da Al-Qaeda amplie seu campo de ação e passe a optar por alvos europeus e anglo-saxões nos países da África do Norte e fora de lá. Até o momento, esses temores não se realizaram. Não foram localizadas armas ou dinheiro vindos do Oriente Médio, na região, e os atentados recentes na África do Norte não tinham por alvo os ocidentais.

Os fatos desmentiram, portanto, o temor quanto a uma possível união de forças entre os militantes islâmicos argelinos, tunisianos e marroquinos. A cooperação é embrionária, apesar do grupo de terroristas desmantelado pelas autoridades da Mauritânia que incluía, em suas fileiras, três marroquinos, um saudita e um cidadão do país.

Os movimentos se ignoram mutuamente, e tentam provar sozinhos sua capacidade de combate, como o prova o grupo terrorista desmantelado em Casablanca no trimestre passado pelas autoridades policiais marroquinas. Cercados pela polícia, os jovens combatentes da jihad se mataram sem causar vítimas civis. Os movimentos no seio da "jihad internacional" na verdade costumam acontecer em direção oposta. Militantes islâmicos da África do Norte partiram para combater no Iraque, e em menor medida, na Somália, em lugar de receberem ajuda e instruções vindas desses locais.

"Para os adeptos da jihad, a prioridade atual é o Iraque, não a África do Norte", aponta Fernando reinares, especialista em islamismo do Instituto Elcano de Madri. "Ações internas não são prioridade para os militantes islâmicos da África do Norte. A ala marroquina, por exemplo, está ativa no recrutamento para operações fora do país. Há uma centena de marroquinos combatendo no Iraque. A maioria deles são matadores, bandidos de alguma espécie", confirma um universitário marroquino que teve contato com alguns militantes.

Mesmo assim, ainda que em termos práticos não tenha havido internacionalização da jihad, ao exportar seu rótulo a Al-Qaeda se torna o adversário único dos cruzados, dos ocidentais, aos olhos de seus simpatizantes.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

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