Ima Sanchés
O senhor rejeita a vigilância em vídeo?
Seria uma resposta simples demais.
Complique-a, por favor.
A vigilância em vídeo é efetiva nas estradas e estacionamentos, mas muito limitada em campos como a prevenção do crime.
Ela agora resulta mais em punição.
Em 15 anos, foram instaladas 4 milhões de câmeras de vigilância em espaços públicos do Reino Unido, mas o responsável pelo departamento nacional de combate ao crime admitiu que elas não ajudaram a prevenir delitos. A Espanha deveria aprender com essa experiência.
Até que ponto o sistema ameaça as liberdades individuais?
Esse é o grande problema, porque os cidadãos não sabem até que ponto estão sendo vigiados e controlados, e não se trata apenas de câmeras.
Qual é a maior máquina de controle?
Os computadores, que sabem aquilo que as pessoas escrevem, consultam, vêem. E também podem localizar qualquer celular.
E como as câmeras nos controlam?
Em estudos conduzidos no Reino Unido, foi observado que as câmeras se concentram exageradamente em homens negros jovens, imigrantes, pessoas marginalizadas e mulheres jovens.
São as preferências dos operadores?
Há muitos interesses econômicos; por exemplo, nas grandes lojas, existe um contrabando de imagens para que elas identifiquem que clientes não desejam ter nos estabelecimentos. É uma forma de exclusão social.
Isso pode se estender para além do comércio?
Conduzi um estudo durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Foram instalados em Berlim 5,2 km de barreiras vigiadas por câmeras. Tudo que não correspondesse a estereótipos de normalidade terminava excluído.
E em um espaço público?
Essa é a questão - os espaços públicos deveriam estar abertos a todos, e não apenas às pessoas que se enquadrem em perfis comerciais. Além disso, não sabemos realmente que destino têm as imagens capturadas pelas câmeras.
Como se ganha dinheiro com a vigilância?
A relação se dá entre espaço e dinheiro; com as câmeras, se pode controlar o espaço, e essa é uma maneira de comercializá-lo.
As câmeras poderiam ir mais longe?
Sim. Com elas seria possível identificar pessoas, e isso nos remete a outra dimensão, à possibilidade de invasão da vida privada. Há sistemas assim em testes em lugares públicos britânicos.
A tecnologia avança.
De maneira avassaladora. Além disso, a relação entre as diversas tecnologia amplia o espectro da informação, e isso propicia um poder incrível.
Qual seja?
Microfones, satélites. Nos Estados Unidos, existe um sistema chamado Echelon que permite escutar conversas telefônicas. É evidente que precisamos de leis, e temos de determinar até que ponto desejamos chegar. Os centros das cidades estão se transformando em locais completamente monitorados.
Isso assusta um pouco.
Existe um risco. Se, 50 ou 60 anos atrás, os regimes totalitários dispusessem desse poder tecnológico, não quero nem imaginar que tipo de vida pública se teria desenvolvido. É importante discutir aquilo que queremos e não queremos.
Além disso, é o nosso dinheiro.
Exatamente; os cidadãos deveriam poder discutir o que queremos fazer com nosso dinheiro, para fins de segurança. Além disso, seria mais eficiente usar seres humanos do que tecnologia como meio básico. Veja o que vem acontecendo no Iraque.
O que o senhor quer dizer?
Tudo se baseia na tecnologia. Mas é evidente que, para construir áreas seguras, é preciso conhecimento, proximidade, relacionamento. Temos de ser muito mais críticos quanto à crença moderna na tecnologia.
E o que dizem os cidadãos?
Quando as pessoas sabem o que está passando, muitas delas são críticas. E, caso consultadas, tendem a recusar a idéia de que as câmeras inundem os núcleos urbanos. Preferem policiais, seres humanos, às máquinas.
O senhor estudou a vigilância em vídeo de aeroportos e fronteiras.
Sim. É bastante sintomático que os escritórios das empresas de segurança estejam instalados ao lado dos postos de polícia. O problema é que a polícia não dispõe de conhecimento sobre os sistemas tecnológicos; são equipamentos automatizados nos quais os policiais não intervêm; por isso, as empresas de segurança é que determinam os critérios de risco.
E em que critérios se baseiam?
O econômico é importante. A cada semana, a polícia recebe informações dessas empresas de segurança; ou seja, elas apresentam seus relatórios e criam novas necessidades. Ao final do processo, é o dinheiro que determina a segurança.
Nossa.
O desenvolvimento dessas empresas de segurança vem sendo astronômico, e cresce sem controle de qualquer tipo.
Onde isso vai parar?
Há empresas nos Estados Unidos que exigem a seus trabalhadores que permitam o implante de chips. Não há limites, e é preciso defini-los. De fato, quando alguém voa aos Estados Unidos, as linhas aéreas precisam fornecer 35 dados sobre casa passageiro ao governo.
Isso não é demais?
Eles vão da idade até o que o passageiro consome no avião. No clima de medo em que vivemos, já não se critica sugestões como essa e tampouco se debate se aquilo que uma pessoa faz de fato a identifica como suspeita. É preciso urgentemente uma lei para controlar essas atividades, porque elas não estão sendo fiscalizadas de maneira alguma.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
La Vanguardia
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