P. O Irã participou, em 24 de julho, em Bagdá, de um segundo encontro com diplomatas norte-americanos, para discutir o Iraque. O que os senhores esperam disso?
R. A questão é ajudar o povo do Iraque, ajudar o governo iraquiano a administrar o país. Nossa intenção firme é a de ajudar o governo de Nouri al-Maliki. Acreditamos que o governo iraquiano deva dispor da autoridade necessária a assumir o controle sobre as questões de defesa. Esse aspecto deveria ser dirigido por eles.
P. O senhor considera que as tropas norte-americanas devem ser retiradas?
R. O ponto de vista dos países da região é claro. E existe debate intenso a esse respeito também no seio da sociedade norte-americana. Ele pode conduzir a uma decisão racional. Quando uma decisão racional for tomada, toda a região se beneficiará. A segurança do Iraque afetará a segurança de toda a região, inclusive o Irã. E, por outro lado, insegurança no Iraque quer dizer insegurança para o Irã.
P. Os norte-americanos acusam o Irã de ajudar os insurgentes iraquianos e desestabilizar o Iraque.
R. Os norte-americanos sempre procuram atribuir a responsabilidade a outros no que tange ao Iraque, imputando a eles a culpa pelo fracasso de sua política nesta parte do mundo. O Irã foi sempre parte da solução, e nunca parte do problema. Nos últimos quatro anos, nós sempre apoiamos a indicação de um governo iraquiano, a reconstrução e o renascimento político do país.
P. Há diversos norte-americanos de ascendência iraniana presos em seu país sob a acusação de conspirar contra o Estado. O senhor acredita que os Estados Unidos estejam tentando derrubar o governo do Irã? O destino desses prisioneiros está vinculado ao dos iranianos detidos em Erbil, no Iraque, por soldados norte-americanos?
R. São dois casos completamente distintos. No curso dos últimos 28 anos, os norte-americanos empregaram diversos métodos diferentes contra o Irã. Um dos preferidos são as tentativas de fomentar problemas étnicos junto às diferentes minorias iranianas. Também acusaram o Irã de uma série de crimes, como atentados a bomba na Arábia Saudita e contra um edifício do FBI nos Estados Unidos, o ataque contra a comunidade judaica argentina em 1994 ou o caso Lockerbie (em 1988) ¿e até pelo 11 de setembro. Por que o fazem? Nosso único crime é desejar caminhar sobre nossas próprias pernas, manter a independência.
P. A França enviou Jean-Claude Cousseran ao Irã para discutir a situação do Líbano. Que lugar o Hizbollah deve ocupar na futura estrutura política libanesa?
A França, tendo em vista sua ligação histórica com o Líbano, quer desempenhar um papel nos assuntos daquele país. E houve mudanças por lá. No ano passado, antes da guerra, conversei longamente em Beirute com o ministro Philippe Douste-Blazy, na embaixada iraniana. Mais recentemente, a França decidiu adotar medidas mais práticas de assistência, e nós ajudamos os franceses. Qualquer solução duradoura no Líbano precisa levar em conta as duas grandes forças políticas que existem no país. O Hizbollah é uma força política influente no Líbano, e conta com o apreço da população. A abordagem adotada pelo Hezbollah é lógica e sensata; o movimento é uma realidade indiscutível no Líbano.
P. Os Estados Unidos acusam o Irã de auxiliar os insurgentes do Taleban no Afeganistão. Por que o seu país fez retornar ao Afeganistão um grande número de refugiados que se encontravam em seu território, causando grandes dificuldades ao governo de Hamid Karzai?
R. Eu me lembro claramente de como surgiram os grupos terroristas no Afeganistão: foram estimulados pelas manobras do Ocidente e bancados pelos petrodólares. Talvez essa abordagem fizesse sentido quanto se tratava de combater os soviéticos, mas a presença deles se institucionalizou em forma de extremismo naquela parte do mundo. São esses mesmos grupos que servem de fonte, hoje, à instabilidade e insegurança do Afeganistão. Os países vizinhos se inquietam. Como no caso do Iraque, desejamos a segurança no Afeganistão. E não acreditamos que exista alternativa a Karzai. A única alternativa seria a guerra civil. Por isso, a pedido do governo Karzai, restringimos o retorno de cidadãos afegãos que entraram ilegalmente em nosso território.
P. No que tange à questão nuclear, o senhor não está minimizando o risco de ataque militar contra as instalações nucleares do seu país caso não surja uma solução diplomática?
R. Acreditamos que nossos esforços renovados de cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tenham contribuído para reforçar a vontade política no Ocidente de encontrar uma solução negociada. É verdade que a política externa norte-americana consiste de táticas brutais adotadas unilateralmente, mas acreditamos que elementos novos tenham surgido no Oriente Médio, nos últimos anos. Qualquer observador ou estadista racional nos Estados Unidos tem de apreciar esses desdobramentos com atenção.
Há mais de 170 mil soldados estrangeiros no Iraque e eles não conseguem garantir a segurança do país, ou a das nações que os enviaram para lá. Recentemente, a guerra de 33 dias no Líbano completou um ano. Os acontecimentos desse período merecem estudo cuidadoso. Acredito que os norte-americanos deveriam se perguntar por que fracassaram todos os seus diferentes planos para a região. É preciso realismo. Os Estados Unidos não estão em condição de infligir uma nova guerra aos contribuintes do país. Isso não impede, é certo, que eles rufem os tambores da guerra.
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
Le Monde
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